As negociações entre o Brasil e os EUA por conta das tarifas comerciais impostas por Donald Trump avançam a passos lentos e o governo brasileiro considera ‘difícil’ que um acordo possa ser atingido antes das eleições de outubro.
Fontes em Brasília revelaram ao ICL Notícias que reuniões técnicas estão ocorrendo entre os dois países, depois que Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversaram pelo telefone, ainda no final do mês passado. Um primeiro encontro entre ministros acabou ocorrendo dias depois e, em seguida, as equipes técnicas de ambos os lados iniciaram os trabalhos.
Mas, pelo menos por enquanto, nenhum passo significativo foi oferecido pelos EUA. Um encontro entre ministros ocorrerá em território americano, às margens de uma reunião do G20. Ainda assim, as perspectivas são consideradas como “incertas”.
A impressão de negociadores brasileiros é de que o governo Trump não quer fazer concessões, sem saber o destino da eleição no país em outubro. O cálculo é de que uma vitória de Flávio Bolsonaro permitiria que Washington estabelecesse uma relação radicalmente diferente com Brasília e que conseguiria concessões por parte do novo governo brasileiro, sem ter de ceder em suas exigências e condições.
“No fundo, não haveria negociação”, alerta um negociador, sugerindo que a equipe de Flávio Bolsonaro ofereceria a abertura do mercado brasileiro como parte da retribuição diante do apoio do governo Trump para sua eleição.
O candidato do PL, de fato, anunciou ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que colocaria sua eventual equipe de transição à disposição dos EUA, num gesto considerado como inédito nas transições democráticas no Brasil.
Interlocutores no próprio governo brasileiro consideram que Trump não daria um “presente” para Lula ao assinar um acordo comercial, antes da eleição em outubro.
Enquanto as negociações seguem seus caminhos, os dados revelam que os danos para as economias dos EUA e do Brasil se acumulam. Nesta quarta-feira, a Câmara de Comércio Brasil-EUA apontou que as exportações brasileiras para os Estados Unidos somaram US$ 24,1 bilhões entre janeiro e agosto de 2026, uma queda de 9,7% em relação ao mesmo período do ano passado. O recuo representa cerca de US$ 2,6 bilhões a menos em vendas e levou as exportações brasileiras ao mercado norte-americano ao menor valor para o período desde 2023.
“O comércio bilateral permanece em trajetória de retração em 2026, com queda tanto das exportações quanto das importações. Brasil e Estados Unidos comercializaram cerca de US$ 5,2 bilhões a menos no ano, com perdas para ambas as economias. Esse quadro reforça a importância de buscar soluções que reduzam barreiras e contribuam para fortalecer o comércio bilateral”, afirma Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.
Segundo a Amcham, no acumulado de janeiro a agosto, as exportações dos produtos sujeitos às sobretaxas de 25% a 37,5% tiveram retração ainda mais acentuada, de 29,1%, passando de US$ 5,1 bilhões para US$ 3,6 bilhões. Considerando todos os bens com sobretaxas, a queda foi de 11,4%, enquanto os produtos sem sobretaxas recuaram 8,3%.
As tarifas, de fato, estão transformando o comércio brasileiro com os EUA. Entre janeiro e agosto, as exportações da indústria de transformação ao mercado americano caíram 4,9%, enquanto as vendas do setor para o restante do mundo cresceram 6,6%. Na indústria extrativa, as exportações para os EUA recuaram 28,9%, enquanto avançaram 19,6% para os demais mercados. Na agropecuária, os embarques para os Estados Unidos caíram 26,7%, enquanto cresceram 9,5% para o restante do mundo.
Na indústria de transformação, responsável por 83,3% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, a queda de 4,9% representa a primeira retração das vendas ao mercado norte-americano desde 2020. Mesmo com o recuo, os Estados Unidos permanecem como o principal destino das exportações industriais brasileiras, respondendo por 15,5% do total.



