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No início do mês de outubro, um incêndio de grandes proporções atingiu a Mata da Baleia, na Serra do Curral, em Belo Horizonte. O combate ao fogo durou vários dias e mobilizou pelo menos 60 pessoas, entre militares, policiais civis e brigadistas. Infelizmente, esse é só mais um exemplo de um problema que já passou a ser cotidiano em Minas Gerais: as queimadas.
“Embora comuns, esses incêndios não são naturais nesta época do ano. Práticas indevidas como o manejo incorreto de pasto para a criação de animais, especulação imobiliária, limpezas de lotes e queimas de lixo são as principais causas”, explica Daniel Guimarães, brigadista voluntário da Brigada Cipó.
Na mesma linha, o diretor de políticas ambientais do Sindicato dos Servidores Públicos do Meio Ambiente no Estado de Minas Gerais (Sindsema) e gestor ambiental na Fundação Estadual de Meio Ambiente de Minas Gerais (Feam) Francisco de Assis da Silva Jr. explica que, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisa (INPE), cerca de 99% dos casos são causados pelo fator humano; só 1%, aproximadamente, é de causa natural (como raios, por exemplo).
Alguns territórios, como é o caso de Minas, afirma Guimarães, vivem uma realidade mais severa, sendo, de fato, mais vulneráveis ao fogo. Mas Silva alerta que isso não justifica o quadro atual. No ranking dos estados com maior número de focos de incêndio, MG é o 1º, quando comparado a outros do sudeste, e o 5º, entre todos do Brasil. No acumulado do ano, são 7.459 focos até aqui, representando um aumento de 125% em relação ao mesmo período de 2023.
“Embora não seja homogênea em todo o país a ocorrência de incêndios, que dependem da região e do bioma em que está inserido, há também uma motivação política para o aumento em Minas. Se compararmos a série histórica de queimadas, é possível ver que os últimos dois anos, 2024 e 2025, foram de longe os anos que mais queimaram”, afirma o gestor ambiental.
Decreto de Zema prejudica combate a incêndios
Como apontam os ambientalistas, recentemente, a questão ficou ainda mais séria. Isso porque, desde o início do ano passado, o Governo do Estado desestruturou o Programa de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais, mais conhecido como Força Tarefa Previncêndio (FTP). Isso se deu com a publicação do Decreto 48.767/2024, que deslocou a coordenação operacional da FTP para o Corpo de Bombeiros.
“Antes, a gestão era feita pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), que já detinha a expertise do Previncêndio: o olhar para os pontos que pegam fogo, a estrutura de combate e os brigadistas conveniados. O Corpo de Bombeiro realiza um ótimo trabalho na zona urbana, mas não tem essa expertise que os nossos brigadistas tinham“, denuncia Silva Jr.
Para ele, a piora pode ser constatada e confirmada devido ao recorde histórico de queimadas que têm sido enfrentadas desde a mudança. Segundo dados do INPE, nos 15 primeiros dias de outubro, já foram registrados 1.357 focos de incêndio. A título de comparação, durante todo o mês, nos últimos 3 anos, foram registrados 1.216 (2024), 919 (2023) e 1.481 (2022).
“As consequências são desastrosas em diversos aspectos, especialmente diante dos desafios colocados pelas mudanças climáticas. O mais evidente são as perdas de fauna e flora, especialmente as endêmicas e nativas, bem como a degradação do maior bem do cerrado, as nascentes”, pontua Guimarães.
Para Claudia Mayorga, professora de Psicologia Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que tem se dedicado a projetos sobre a atuação de brigadistas voluntários, o mais grave é que os bombeiros não estão espalhados em todo o estado. Eles estão concentrados em algumas bases, o que deixa parte do território desprotegido.
“Por isso, ainda que haja agilidade em atender à demanda, eles, por vezes, chegam muito depois dos próprios brigadistas, com desconhecimento em relação ao território e várias limitações em termos de horário de combate e forma de combate”, afirma a professora. Para Mayorga, embora o decreto tenha lançado luz sobre a atuação dos bombeiros, existem outros atores que, ao longo dos anos, têm sido fundamentais, como as brigadas voluntárias.
A importância das brigadas voluntárias
E é justamente essa, outra crítica apontada ao decreto: o não reconhecimento das brigadas voluntárias, que atuam nos territórios. Segundo um levantamento de 2024, são, pelo menos, 50 brigadas voluntárias, atuando em todo o estado de Minas Gerais.
Como explica a professora da UFMG, os brigadistas têm um elemento muito importante: eles atuam no primeiro momento da ocorrência, por serem, geralmente, pessoas do próprio território, que conhecem a paisagem, o relevo, as dificuldades e a forma de acesso.
“Os territórios que defendemos nos constituíram, são onde nascemos e crescemos, fazem parte das nossas vidas. Essa atuação rápida é muito importante porque pode evitar grandes incêndios. Por isso, é importante ter brigadas voluntárias fortes”, aponta Mayorga, que também atua como brigadista Florestal Voluntária da Brigada Cipó.
Além disso, segundo os especialistas, o voluntariado brigadista florestal é extremamente qualificado, uma vez que ele precisa de capacitação, estar equipado e conhecer os procedimentos de segurança, nunca atuando de maneira isolada. Nesse sentido, Mayorga reforça que valorizar e defender uma atuação integrada entre esses diversos atores é fundamental.
Porém, como aponta Guimarães, essa atuação tem sido severamente prejudicada nos últimos anos, com um agravamento na precarização do IEF, fazendo com que brigadas voluntárias precisem dar cobertura a regiões antes protegidas pelas brigadas do órgão ambiental. Ele cita como exemplo os casos de queimada do Parque Estadual do Intendente, na cidade de Conceição do Mato Dentro, que têm sido atendidos pela Brigada Cipó.
Ações dessa natureza elevam, não só o número de ocorrências, mas também a área queimada. De acordo com a plataforma MAP Biomas, só em 2025, quando comparado com os anos anteriores, houve um aumento de mais de 20 mil hectares queimados.
“A Brigada Voluntária Cipó, apenas no último ano, já atuou em mais de 45 ocorrências, abrangendo seis municípios da região. De maneira geral, a brigada contou com a atuação de cerca de 50 voluntários, que tiveram mais de 200 horas de combate direto. Esse é um indício de que a realidade mineira segue muito crítica em relação às queimadas”, relata o brigadista.
Precarização generalizada
O sucateamento dos demais órgãos ambientais também é apontado como um erro grave que tem ocasionado a sobrecarga das brigadas voluntárias e o aumento alarmante de incêndios, em sua maioria, criminosos.
Silva Jr. denuncia que o governo de Romeu Zema (Novo) tem uma postura de realizar um desmonte total na área ambiental. “Todos os princípios de proteção aos nossos ecossistemas, às florestas e ao direito constitucional ao meio ambiente equilibrado não são realizados pelo governo estadual”, afirma.
A precarização fica ainda mais clara, na avaliação de Guimarães, com o aparecimento de escândalos de corrupção como a Operação Rejeito, que, segundo ele, demonstra que há um completo sucateamento de órgãos públicos que executam a política ambiental e descaso com os profissionais que atuam diretamente no combate.
“Fica nítido que áreas que passaram por grandes incêndios nos últimos anos, a exemplo da Serra do Curral, Parque Nacional do Gandarela, Santuário do Caraça, entre outros, ficaram à mercê do interesse político e sua destruição se coloca como um projeto, que prioriza o lucro e não a vida”, aponta.
Os especialistas também alertam que a militarização atenderia a esse mesmo projeto político e que existe um processo de delegação de funções ambientais a órgãos militares, desde a fiscalização ambiental, que hoje é realizada majoritariamente pela Polícia de Meio Ambiente.
“Isso mostra uma total falta de cuidado com o bem público, a natureza, e o direito constitucional, meramente por uma questão política; Zema queria passar a injetar mais dinheiro nas carreiras militares, retirando competência dos órgãos ambientais”, destaca Silva Jr.
Governo foi alertado
No levantamento da situação atual dos focos de incêndio por bioma (monitorados entre 01/01/2025 e 14/10/2025), o cerrado é atingido por quase 48% dos focos. A piora nesses índices, como relembra o diretor de políticas ambientais do Sindsema, já havia sido avisada ao governo em uma carta aberta, assinada por mais de 100 funcionários do IEF, “alertando que essa transferência para o corpo de bombeiro podia trazer, como trouxe, um prejuízo incalculável ao patrimônio do estado de Minas Gerais”.
Os especialistas apontam ainda eventos criminosos como o chamado “dia do fogo” como parte substancial do problema. Essa se caracterizou por uma ação coordenada de queimadas criminosas, por setores específicos da sociedade. Esse tipo de evento é incentivado a partir de uma postura negacionista ambiental, que está presente na prática do governo do Estado.
Valorização dos brigadistas
Guimarães reforça ainda que o trabalho dos brigadistas, sejam voluntários ou vinculados a órgãos como IEF, ICMBio e IBAMA, vai além da ação direta no fogo, perpassando o diálogo mais amplo com os territórios no trabalho de prevenção.
Apesar disso, a população desconhece fortemente o trabalho desses agentes, que, na maioria das vezes, atuam voluntariamente. Para todas as fontes entrevistadas, é de suma importância uma maior valorização dessa atuação, completamente relegada pelo governo do estado, e que não é sequer reconhecida como categoria profissional.
“Uma importante pauta que o governo deve assumir é o reconhecimento e regularização da categoria que está na linha de frente desse processo, os e as brigadistas florestais. Essa categoria, além de atuar exaustivamente, não possui registro trabalhista e tampouco um piso salarial. É como se não existíssemos”, reforça Guimarães.
Mayorga, que tem atualmente desenvolvido uma pesquisa sobre a atuação dos brigadistas, aponta que a maior demanda percebida é a de reconhecimento e respeito, uma vez que são atores que colocam seus corpos à disposição para defender o meio ambiente, numa atividade de risco.
“O voluntariado é um ato de amor e de cuidado, mas, no artigo 225 da Constituição brasileira, está posto, não somente o direito ao meio ambiente, que os cidadãos e as cidadãs têm, mas o dever de defender esse patrimônio. O brigadista voluntário não está nada mais, nada menos, do que cumprindo um princípio constitucional. É dever de todos nós defender e preservar para as gerações presentes e futuras”, aponta ela.
É possível doar para a Brigada Voluntária Cipó através do pix: [email protected]
Outro lado
O Brasil de Fato MG procurou o governo de Minas para comentar sobre as denúncias, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.
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Fonte: Brasil de Fato



