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terça-feira, 10 fevereiro, 2026
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Escritor afro-indígena traz sua poesia em portunhol para Porto Alegre — Brasil de Fato

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Asvez soy mormazo/ sol que raya/ yitiña, papel de estraza/ curuyiña que alumbreia/ fuerza bruta que num para/ us fogo que me acompaña/ es amor sin vanidad/ me deja te inrredá con mis palabra” é a primeira parte do poema Asvez, que está na página 65 do livro Mormasiento (Independente, 2025, 92 págs., R$ 40,00), de Andrés Rivero.

Segundo os dicionários, a palavra mormaço refere-se a clima: é um termo para tempo quente, úmido e abafado, que causa uma sensação de desconforto e sufocamento, geralmente antes de uma chuva já esperada. Além de aludir ao forte e intenso calor, com umidade, e suas consequências hostis e opressoras, designa também uma pessoa insuportável, chata, intolerável, geniosa, irritante e irritadiça.

Não parece ser o caso do sujeito da foto acima, autor da publicação citada, que nos envolve com suas palavras “más que mezcladas”. Ao contrário…

Nascido em Minas de Corrales, Rivera (Uruguai), em 1980, Andrés Rivero é poeta, compositor e artista fronteiriço. O escritor tem sua obra profundamente marcada pela oralidade e pelas heranças afro-indígenas transmitidas de geração em geração.

Autodidata, ele atua desde 2003 em projetos comunitários voltados à valorização da identidade local e do portuñol, como o Coletivo Lingua Mae. Também é cantautor e explorador do universo sonoro da Fronteira, criando canções e performances que revitalizam tradições culturais e reafirmam a força criativa do território binacional.

No prefácio da obra, a professora Etel Gutiérrez Bottaro, da Universidade Federal de São Paulo (USP) chama a atenção para a casualidade de o autor ter nascido na cidade do departamento que leva seu nome: Rivera. “Seu sobrenome reverbera o território onde nasceu: Rivero encarna a pessoa e o território, como se estivesse inseparavelmente ligado a sua terra, mesmo quando não habite mais nela”, enfatiza a pesquisadora.

O seu sobrenome é mesmo Rivero, de origem paterna: “Aca en Uruguay el primer apellido lo da el padre”. Chama a atenção a forma como o escritor reverencia a família e sua ascendência nos agradecimentos e dedicatórias da obra. 

A avó materna Aidé Pérez, que nunca aprendeu a escrever e era boa contando histórias, o fez prometer que “tomaria nota das realidades dos nossos” e lhe pedia para ler as cartas dos filhos: “Era uma mulher sábia, que sabia muito do mundo, deste Uruguai que ninguém vê, que não se lê nos livros das escolas e universidades. Eu sou um tomador de notas deste Uruguai, grandioso, mas pouco lido”.

O escritor é mais específico nessa memória: “A minha avó é um exemplo da mulher da fronteira, sofrida, que mora no campo, que perdeu filhos pela fome, que teve de dar algum filho para ser criado por outros para não morrer de fome. Foi lavadeira, pedia terra para plantar. E ela é igual a muitas outras mulheres que conheci, ela encarna outras mulheres. Minha avó é resistência ancestral”.

Como Aidé cantava e em seu armário havia um violão do pai, que era trovador, a música também integra esta herança cultural. Desde pequeno, Andrés imaginava as canções: “Minha avó me ensinou que expressar o que sentia era tão necessário como comer ou ir ao banheiro. Desde pequeno, fui sensível a escrever, só que às vezes eu não via no meu entorno essa brincadeira, que outros meninos fizessem isso. Então, eu fazia meio escondido, porque não entendia o que se passava. Foi um processo: fui me dar conta de que era artista quando conheci outros artistas. As pessoas mesmo me disseram, porque eu tinha facilidade para improvisar canções, pintar. Também faço murais, pintando a poesia, sempre tendo como matéria o lugar onde nasci, a minha gente e essas histórias”. 

Lançamento em Porto Alegre

A ilustração da capa de Mormasiento também é de sua autoria. O escritor afro-indígena lança a obra neste domingo (26), em Porto Alegre, como um grito poético vindo da fronteira. O livro atravessa as margens entre o Uruguai e o Brasil com a força motriz de uma língua viva e dinâmica: o portunhol. O encontro na Livraria Macun (Rua Octávio Corrêa, n⁰ 67 – Cidade Baixa) começa às 16h, com entrada franca.

Os exemplares estão à venda na Livraria Macun e também podem ser adquiridos pelo Instagram do autor, @rivero.arte. O evento contará com sessão de autógrafos, roda de conversa e poesia, transformando-se em uma ocasião para sentir de perto a pulsação da Fronteira.

“Escrevo porque sou sensível à minha comunidade, à discriminação, e porque quero valorizar minha origem de mestiço, contando um pouco dessas histórias afro-indígenas que ficaram da minha gente. Gosto muito da cultura oral, só que, às vezes, para ficar na história e nas linhas do tempo dos poetas, é preciso publicar, embora eu adorasse o eixo de ser o portador da minha poesia. As pessoas me chamam de poeta porque vou nos lugares e recito as poesias, falo, canto, faço minhas canções.”

Rivero faz uma analogia entre sua avó e um livro: “Nas culturas afro-indígenas, todo mundo quer ser um avô, porque o avô é um livro, mas a enciclopédia é mais importante”. 

Cada hombre es una biblia”, diz Rivero no texto Cadé meu amigo?, na página 47. E, claro, ele ainda tem evangelhos, testamentos, salmos e parábolas para contar: “Tenho muita coisa escrita ainda, para entrar em livro, porque é muito difícil publicar”. 

A obra é uma publicação independente, resultado de um percurso artístico construído de forma autônoma e colaborativa, com apoio da Incubadora Fronteira Criativa. Com uma linguagem crua, afetiva e profundamente enraizada no território,Mormasiento celebra o poder da palavra como ferramenta de afirmação e pertencimento.

Em 2015, o artista já havia participado da publicação conjunta Lingua mae: nu ceu num tem frontera, junto ao Colectivo Lingua Mae, inspirado na fronteira Uruguay-Brasil e em sua língua viva: o portunhol.

Memória coletiva e a resistência de um povo como legado a perpetuar

Entre viagens, encontros e despedidas, os 70 poemas da obra são frutos de muitos anos | Foto: Hendrick Soares/Torre Forte Design

A obra Mormasiento reúne versos e narrativas que emergem da oralidade e da experiência cotidiana nas periferias fronteiriças, revelando identidades historicamente silenciadas. Nos versos de Rivero, ecoam os tambores, os afetos, a memória coletiva e a resistência de um povo que constrói sua história na mistura de línguas, culturas e saberes ancestrais.

Na poesia, Andrés Rivero celebra o portuñol, sua linguagem formativa e a criatividade desta em unir dois idiomas: “Eu nasci em um lugar onde as pessoas falavam assim desde o ventre, desde o colinho da mãe. Eu escuto essa forma de falar nas cantigas, nas histórias. No meu bairro, as pessoas falam assim, falam misturado, brincam com as palavras, vão passando do espanhol ao português e às vezes tem palavras que são inventadas”.

O autor ainda busca palavras de origem africana, guarani e charrua para contar histórias de suas raízes afro-indígenas. “As matanças dos povos originários foram sistemáticas, então as pessoas aprenderam a viver no silêncio. A minha mãe viu pessoas que foram escravizadas, e a avó da minha mãe foi uma pessoa escravizada. Então, eu trato de perguntar, dentro e fora da minha família, e vou armando minha história e minhas poesias”, narra. Mormasiento nasce do corpo e da escuta.

“Além de ser fronteiriço, vivi e trabalhei como educador nas periferias da fronteira – em bairros onde muitas vezes falta comida, mas sobram sonhos, músicas e palavras. Foi ali, entre as vozes das crianças, os cheiros das cozinhas e as batidas dos batuques, que aprendi o verdadeiro sentido da poesia: resistir, compartilhar e cuidar“, conta o escritor.

Os 70 poemas de Mormasiento foram elaborados ao longo de muitos anos, entre viagens, encontros e despedidas. Para o escritor, cada poema é um fragmento de tempo: “Uma tentativa de nomear o que pulsa“.

O “mormasiento” que dá nome ao livro é uma mistura de mormaço, cansaço e sentimento. “Este livro é, antes de tudo, um gesto de resistência, um modo de afirmar que a poesia também mora nos cantos esquecidos, nas línguas cruzadas, nas histórias que o vento conta”, resume Rivero.



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Fonte: Brasil de Fato

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