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quinta-feira, 5 março, 2026
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Entregadoras de apps enfrentam machismo, violência sexual e precarização

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Por Beatriz Drague Ramos – Brasil de Fato

*Alerta de gatilho: texto contém relato de violência

Há dois anos, Taimara Santos pedala nas ruas da capital paulista entregando mercadorias. A jovem de 20 anos, que é mãe solo, sai de casa por volta das 9h da manhã, deixa a filha pequena na creche e retorna somente perto da meia-noite. A rotina cansativa começa na segunda-feira e só acaba no domingo.

“Eu trabalho de segunda-feira a sábado no iFood. No domingo, eu tiro o dia para dar atenção à minha filha, porque eu quase não a vejo, vejo apenas à noite. Teve um dia em que eu cheguei em casa uma ou duas horas da manhã, porque eu estava tentando bater uma meta para conseguir trazer o meu alimento e manter a minha casa”, conta a entregadora.

O desafio de trabalhar nas ruas da cidade vai além do pouco tempo para cuidar da filha e das jornadas exaustivas. Taimara enfrenta frequentemente situações de machismo nas ruas. A última delas e mais grave lhe custou meses fora das ruas devido a traumas que ela carrega até hoje: a jovem foi vítima de um estupro cometido por um outro entregador em junho de 2025.

O caso aconteceu quando o entregador a convidou para fazer corridas com ele. Sem meio de transporte próprio na época, ela aceitou ajudá-lo nas entregas. A ideia, segundo ela, era dividir o valor repassado nas corridas. “Ele me ofereceu ajuda e me falou que se trabalhássemos uma semana juntos, eu conseguiria comprar uma bicicleta para trabalhar. Na época eu estava morando de favor na casa da minha mãe, pois eu tinha acabado de me separar do meu ex-esposo. Ele me ofereceu essa ajuda e eu aceitei. Não tive maldade alguma, porque eu nunca imaginei que isso poderia acontecer comigo.”

Em uma dessas corridas, o homem, hoje foragido e com extensa ficha criminal, disse que iria fazer uma retirada de um produto em Embu Guaçu, na Região Metropolitana de São Paulo, e que voltariam para o bairro República, no centro da capital paulista. Como os dois já haviam trabalhado juntos antes, ela não desconfiou. “E aí eu fui. Quando chegou lá, ele me abordou com uma faca, me amarrou e praticou os atos sexuais à força comigo.”

Instantes depois ela pediu ajuda para um motorista, foi ao Hospital da Mulher receber atendimento e registrou um boletim de ocorrência na Delegacia de Polícia de Itapecerica da Serra. Segundo a entregadora, a violência sofrida por ela acarretou em ansiedade e depressão.

“Depois que isso ocorreu, eu fiquei quase quatro meses sem trabalhar e retornei, já no final do ano de 2025, porque eu estava precisando voltar a trabalhar para conseguir trazer a minha renda para casa, comecei a ter vários traumas. Eu tinha arrumado um serviço registrado, porque eu tenho experiência no trabalho de cozinha e essas coisas. Só que eu não consegui me manter no trabalho. Às vezes aparecia um motoboy lá ou um cliente do restaurante e eu não conseguia, pois atacava a minha depressão e eu ficava passando mal.”

Hoje ela voltou a trabalhar com as entregas, expôs o caso em seu perfil do Instagram, decidiu postar sua rotina e ganhar visibilidade. “Como eu já estava ganhando um pouco de visibilidade, eu decidi tornar isso público para poder alertar outras mulheres, porque existem vários tipos de homens que podem fazer isso na rua e há muita gente maldosa. Isso pode acontecer com qualquer uma”, desabafa.

Atualmente, ela sonha em fazer uma graduação na área de gastronomia e sustentar a filha. “Nunca tive estrutura para fazer uma faculdade ou algo do tipo. Meu foco agora é melhorar meu instrumento de trabalho e garantir o futuro da minha filha. Quero conseguir visibilidade na internet e mudar a nossa realidade, de uma pessoa preta, que mora na zona sul e que já passou por tudo isso.”

Ela conta que uma advogada do Ifood ainda analisa o caso. “Eu fiz a reunião com a advogada por chamada de vídeo e passei os dados para ela. Ela falou que ia analisar o caso e entraria em contato comigo, só que até agora não entraram em contato.”

Sobre outros assédios, ela revela que já aconteceu de entregar um pedido para o cliente e ele ficar “dando em cima, pedindo meu número, perguntando se eu namoro e fazendo vários tipos de perguntas”. Situações como essa não aconteceram só uma vez, diz ela. “Foram diversas vezes. Tive que tratar o cliente mal por conta desse tipo de abordagem, finalizar o pedido e ir embora.”

Taimara compartilha sua rotina no seu instagram.

Vulnerabilidade para além dos abusos

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgados em outubro do ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que o número de pessoas que trabalham por meio de aplicativos cresceu 25,4% em 2024, na comparação com 2022. Nesse intervalo, o contingente de trabalhadores nessa condição passou de 1,3 milhão para quase 1,7 milhão. São 335 mil pessoas a mais.

As mulheres somam 41,2% da população ocupada no Brasil; dentre os profissionais que trabalham com entregas por aplicativo, a parcela é de 16,1%.

Além dos abusos sexuais, a ausência de políticas de gênero e a infraestrutura precária para mulheres são apontadas por outras profissionais da área.

“Faltam pontos de apoio espalhados na cidade com banheiro, filtro de água gelada, micro-ondas, tomadas, mesa com cadeiras para refeições e espaço para descansar. Além de direitos básicos como regulamentação que atenda a categoria com taxa mínima, transparência algorítmica, seguro contra acidentes e previdenciário e o fim da uberização”, relatou a entregadora Natalia de Souza, que trabalha na área há dois anos.

Mãe de duas filhas, ela também relata que para quem é cuidadora o trabalho se torna mais difícil. “Quando começo a trabalhar de manhã não é muito tranquilo. Eu levo elas de manhã para a escola, depois tenho que parar meu trabalho perto do horário de saída da escola, depois fico mais tranquila para continuar os trabalhos.”

Ao encontro de Natália, a entregadora Evelin Souza conta que para que seu trabalho seja melhor reconhecido é preciso que os benefícios concedidos aos trabalhadores registrados no regime de Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) sejam repassados também aos profissionais das plataformas de entrega.

“Por mais que ganhamos um pouco melhor que CLT não é tanta diferença assim, pois o CLT trabalha oito horas por dia com todos os benefícios, nós trabalhamos 12 horas sem nenhum direito e com diversos gastos. Então na ponta do lápis está mais ou menos igual e isso é bem ruim pois nosso material de trabalho é caro”, critica.

Ela conta ainda que já foi subestimada por trabalhar com uma moto. “Já aconteceu de eu ter que levar algum pedido que seja grande e as pessoas me subestimam, porque sou mulher. Até mesmo em estabelecimentos em geral, não por ser mulher e, sim, por ser motogirl.”

Atualmente ela vive em Florianópolis (SC) e há cerca de 20 anos atua como entregadora. “Comecei a trabalhar no ramo das entregas desde nova porém já fui e voltei várias vezes, comecei com 19 entre idas e vindas, hoje estou com 42, estou trabalhando direito desde 2021. Trabalho em média de 10 a 12 horas por dia.”

Diante disso, as trabalhadoras estão apoiando a proposta de regulação do trabalho de entrega por aplicativos, cujo um dos principais pontos reivindicados pelas lideranças dos entregadores é um piso de R$ 10, para uma taxa mínima por entrega. Na visão de Taimara, a taxa de R$ 7 aplicada hoje “é pouca”.

Ela também critica o fato de os aplicativos não diferenciarem as rotas feitas por bicicletas das feitas por motos. “Eles jogam a rota de moto para bicicletas. Os entregadores que usam bike são muito desvalorizados”, lamenta.

Outro ponto solicitado pelas mulheres entregadoras é a inserção de campanhas das plataformas contra o assédio sexual e moral, ou então alguma política mais estruturada de acolhimento às mulheres que sofrem abusos de homens no trabalho. “Eu acho que eles deveriam colocar algumas campanhas e ajudar as mulheres, em relação ao acolhimento acho que eles deveriam melhorar nessas questões”, diz Taimara.

Conforme já apurado pelo Brasil de Fato, as plataformas responsáveis por esse serviço estabeleceram os limites e não aceitam ceder o aumento de taxas e o reajuste anual. As companhias também não querem discutir o aumento da cobertura do seguro de vida aos trabalhadores. Hoje, os entregadores só têm respaldo durante as corridas. A meta é que isso seja ampliado também para os deslocamentos para a primeira entrega e depois para retornar até as suas casas.

Na Câmara dos Deputados, tramita o Projeto de Lei Complementar (PLP) 152/25, de autoria de Luiz Gastão (PSD-CE), que propõe regular “os serviços de transporte remunerado privado individual de passageiros e de coleta e entrega de bens prestados pelas empresas operadoras de plataforma digital”. Entre os pontos polêmicos da proposta está a exigência dos antecedentes criminais dos trabalhadores, proibindo o entregador de exercer a profissão.

Atualmente o projeto está paralisado na Comissão Especial sobre Regulamentação dos Trabalhadores por App.  Procurado, o iFood afirmou que lamenta o ocorrido e repudia qualquer tipo de violência. A empresa informou que, após tomar conhecimento da denúncia, realizou o acolhimento da entregadora e ofereceu suporte por meio da central de apoio, com atendimento jurídico e psicológico.

Segundo o aplicativo, o entregador denunciado teve o cadastro desativado permanentemente, e a empresa afirma que segue aprimorando os protocolos de segurança e colaborando com as autoridades. A empresa não detalhou quais são esses protocolos de segurança das mulheres.





ICL Notícias

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