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quarta-feira, 8 abril, 2026
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ENTRE A VOZ E O RIO: MEMÓRIA E RESILIÊNCIA NA FICÇÃO DE EBER BENTES

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Raimundo Nogueira

Por Raimundo Nogueira – Há livros que chegam ao leitor como construção; outros, como herança. Nas margens do rio Amazonas, de Eber Bentes, se insere nesta segunda ordem: não apenas reúne histórias, mas carrega consigo um modo de narrar que antecede a própria escrita. O que se encontra aqui não é simplesmente ficção organizada em contos, mas a sedimentação de vozes — vozes que atravessam gerações, que resistem no tempo e que encontram, na literatura, uma forma de permanência.

Desde a apresentação, percebe-se que o livro se inscreve numa tradição que não é apenas literária, mas civilizatória: a da memória oral amazônica. As histórias reunidas emergem do que poderíamos chamar de “cosmovisão ribeirinha”, onde o real e o sobrenatural não se opõem, mas se interpenetram com naturalidade. Não há, aqui, o esforço de explicar o mistério — há, antes, o respeito em narrá-lo.

O primeiro conto, O tacho de ouro, já estabelece o tom da coletânea: uma narrativa aparentemente simples, construída a partir de elementos cotidianos — a casa de madeira, a lamparina, o galinheiro, a rotina familiar — que, pouco a pouco, se deixam infiltrar por uma presença inquietante, uma “visagem” que encarna o medo ancestral e coletivo. O mérito de Bentes está justamente na dosagem: o insólito não irrompe de forma abrupta, mas se insinua, como se sempre tivesse estado ali, à espreita.

Há, nesse procedimento, uma maturidade narrativa digna de nota. O autor compreende que o verdadeiro terror — e também o verdadeiro encanto — não reside no excesso, mas na sugestão. O silêncio, o escuro, o gesto interrompido: são esses os elementos que estruturam a tensão de seus contos. O leitor não é conduzido pela mão; é convidado a partilhar da mesma hesitação que envolve os personagens.

Outro aspecto relevante é a linguagem. Eber Bentes escreve com uma economia expressiva que remete à oralidade, mas sem abdicar de elaboração estética. As falas dos personagens preservam o sabor regional — com suas cadências, expressões e marcas culturais —, enquanto a narração mantém um equilíbrio entre simplicidade e precisão. Não se trata de um regionalismo folclorizante, mas de uma escrita que emerge organicamente do lugar que representa.

Nesse sentido, a obra escapa de uma classificação simplista como “literatura regional”. Como bem aponta a apresentação, há um movimento mais profundo em curso: a tentativa de compreender como a experiência humana — com seus medos, crenças, afetos e contradições — se manifesta num contexto específico, sem perder sua dimensão universal.

Os contos que compõem o volume — A Cobra-Grande, História de caçador, Aquilo que o rio leva e traz, entre outros — sugerem uma cartografia simbólica do Amazonas. O rio, mais do que cenário, funciona como eixo existencial: é ele que conduz, transforma, ameaça e, por vezes, redime. Nas margens desse rio, o tempo não é linear; ele se dobra sobre si mesmo, permitindo que o passado sobreviva na fala dos mais velhos e no imaginário coletivo.

Há também, de forma sutil, uma dimensão crítica que atravessa a obra. Não se trata de denúncia explícita, mas de uma percepção aguda de que esse universo — com suas crenças e modos de vida — encontra-se sob constante ameaça. A modernidade, quando aparece, surge quase sempre como força de ruptura, deslocamento ou perda. Ainda assim, o livro não adota um tom nostálgico ou lamentoso; prefere afirmar, pela própria existência das narrativas, a vitalidade dessa cultura.

Talvez o maior mérito de Nas margens do rio Amazonas seja, portanto, sua capacidade de operar como ponte: entre oralidade e escrita, entre tradição e contemporaneidade, entre o local e o universal. Eber Bentes não escreve “sobre” o Amazonas; ele escreve “a partir” dele — e essa diferença é decisiva.

Ao final da leitura, permanece a sensação de que cada conto é menos uma história isolada e mais um fragmento de uma memória maior, compartilhada, em constante reconstrução. Como nas melhores obras de matriz oral, o que se transmite não é apenas o enredo, mas um modo de sentir e de interpretar o mundo.

Em síntese, trata-se de um livro que, sob a aparência de simplicidade, revela uma arquitetura sensível e consistente. Um livro que escuta antes de falar — e, por isso mesmo, fala com autenticidade rara.

 

Sobre o autor do texto:Raimundo Nogueira é escritor amazonense, autor de obras infantojuvenis como A Força dos Jacarés e O Rude Caçador (Valer), Um Presente para Rebeca e Thaís e a Nuvem (Telha Editora), além do livro de poemas Canto Breve (Valer Editora). Também é autor de Linguagem, Memória e Crítica Social (Paco Editorial). Sua atuação intelectual é voltada à literatura (criaçãoe crítica), reflexão política (na perspectiva ambiental, cultural, soluções propositivas, etc) e crítica social.

Sobre Eber Bentes autor, Nas Margens do Rio Amazonas:
Escritor parintinense Eber Bentes, formado em engenharia florestal, escreveu a obra “Nas Margens do Rio Amazonas”, condecorada pelo concurso Frauta de Barro da Editora Valer. Atualmente é contista do portal Ecos do Norte. Está escrevendo sua próxima obra e espera publicar em breve.

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