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quarta-feira, 25 março, 2026
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Entre a errata e o pedido de desculpas, a Globo escolheu o caminho do meio

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Por Bernardo Cotrim*

Na tarde desta segunda (23 ), durante o programa Estúdio i, uma constrangidíssima Andrea Sadi foi a porta-voz de um tão insólito quanto inédito “pedido de desculpas” da Globo. O motivo da autocrítica foi o powerpoint apresentado na última sexta (20), pela mesma jornalista, apresentando as supostas conexões de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e pivô de um escândalo de proporções épicas.

A fala trôpega de Sadi ao ler a nota contrasta com a desenvoltura apresentada na sexta para “explicar” o fatídico powerpoint. Com menções vagas, sem a apresentação de imagens no telão, Sadi afirmou que o material está “incompleto” e “em desacordo com os princípios editoriais”.

Peço licença para um pequeno parêntese: um pedido de desculpas é uma expressão sincera de arrependimento e tentativa de mitigar o dano produzido, assumindo a responsabilidade pelo ato, mesmo que não exista a intenção; já uma errata é a correção de uma obra, assinalando cada um dos erros cometidos e apontando a forma correta.

O texto apresentado no Estúdio i não é nem uma coisa, nem outra. O parágrafo claudicante não estabelece de quem foi a responsabilidade pela exibição de algo tão aberrante, não cita os nomes de quem devia figurar na “arte”, não informa quem apareceu na peça por engano. Ficou explícito que a “autocrítica” capenga visa única e exclusivamente minimizar o dano causado à imagem da própria emissora. Uma ação tardia de “vacina”, tão patética quanto desonesta.

Na peça, que gerou uma enxurrada de críticas nas redes, figuras de proximidade comprovada com Vorcaro apareciam à margem; Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, beneficiados com vultosas doações de campanha, sequer figuravam, assim como o ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto, peça central para que o fraudulento esquema de pirâmide de Vorcaro prosperasse. Cabe registrar que Campos Neto hoje ocupa a vice-presidência do Nubank, empresa que tem a família Marinho como acionista e que se fartou de vender títulos podres do Master.

A família Marinho e as Organizações Globo merecem menção honrosa: já está fartamente documentado que o Master irrigou as empresas do grupo com dezenas de milhões de reais em publicidade.

Outras ausências também impressionam: os governadores bolsonaristas Claudio Castro, do RJ, e Ibaneis Rocha, do DF, cujo empenho em salvar o esquema do Master seria comovente, se não fosse flagrante delinquência — seja usando o fundo de previdência dos servidores, como Castro, ou o BRB, como Ibaneis.

Em contrapartida, o centro da imagem era ocupado pelo símbolo do Partido dos Trabalhadores, em grosseira manipulação para associar o partido ao crime, e pela foto do presidente Lula, em cujo governo a fraude foi desbaratada (e Vorcaro foi preso). Logo abaixo, o atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, cuja única “culpa” provada é a de liquidar o banco Master e acabar com a farra.

Em bom português, o Power Point é um escárnio: um panfleto digital da campanha de Flávio Bolsonaro, literalmente desenhado para que ganhasse vida própria nas redes, compartilhado em regozijo por gente implicada até a medula na farra de negócios legais e ilegais do capitalismo cujas conexões se espalham pelo mercado financeiro, políticos de direita, fintechs, o alto escalão do judiciário, empresas dos mais variados ramos, o PCC e o tráfico de drogas.

Não é preciso ser muito esperto para concluir que algo desse porte jamais teria sido exibido sem o crivo de gente importante do jornalismo da emissora. 72 horas depois, calculando o peso das críticas e o prejuízo causado pelo “jornalismo Tabajara”, o mea culpa que só falta responsabilizar o estagiário afronta a inteligência de qualquer um.

Longe de ser um ponto fora da curva, o episódio serve para reforçar a preocupação do campo democrático com a cobertura das eleições: após um breve interregno em 2022, a decepção com o naufrágio da candidatura presidencial de Tarcísio de Freitas foi superada e a mídia hegemônica parece ter acertado os ponteiros com a extrema direita e tomado parte na campanha de Flávio Bolsonaro.

Ao fim e ao cabo, os milionários se organizaram para fazer valer seus interesses de classe. Caberá à imprensa alternativa, mais uma vez, ser um espaço de produção jornalística referenciada na promoção da democracia e da justiça social. O debate público agradece.

*Bernardo Cotrim é jornalista e gerente de mídias do ICL

 

Quando a cobertura apaga conexões políticas, o problema não é erro — é método. Em 31 de março, terça-feira, às 20h, o ICL exibe gratuitamente o documentário O Golpe do Banco Master, que recompõe o que ficou de fora e será debatido ao vivo após a sessão.
As vagas são limitadas.

 





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