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Mesmo com desemprego em baixa, renda em alta e inflação controlada, a inadimplência das famílias brasileiras segue em níveis alarmantes. Economistas apontam que os efeitos colaterais da política monetária contracionista — com a taxa Selic mantida em 15% desde julho — são os principais vilões. Os juros altos encarecem o crédito e aumentam o peso das dívidas no orçamento das famílias, limitando a capacidade de consumo e elevando o risco de calotes.
A taxa de inadimplência das pessoas físicas junto às instituições financeiras chegou a 6,5% da carteira de crédito com recursos livres, o maior patamar desde 2013, segundo dados do Banco Central.
De acordo com a CNC (Confederação Nacional do Comércio), 30,4% das famílias tinham dívidas em atraso em agosto — um recorde desde o início da série histórica, em 2010. A projeção é de que esse número suba para 30,9% em dezembro, pressionado pelas compras de fim de ano.
Selic em alta e inclusão bancária explicam inadimplência
A manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em 15% ao ano torna o cenário ainda mais desafiador para quem já convive com dívidas. Com o comprometimento da renda familiar com dívidas próximo de 28%, o espaço para novos gastos é reduzido, impactando diretamente o varejo e outros setores dependentes do consumo.
A explosão de inclusão bancária — impulsionada por contas digitais e fintechs — também contribuiu para o aumento do endividamento, segundo informações da Tendências Consultoria ao jornal O Globo.
Entre 2018 e 2025, o número de pessoas físicas com contas em instituições financeiras mais do que dobrou, passando de 77 milhões para 163 milhões. Muitos desses novos consumidores, no entanto, têm pouca ou nenhuma educação financeira.
Segundo a Serasa, o Brasil alcançou um recorde de 68,2 milhões de inadimplentes em julho. Em média, cada CPF carrega quatro dívidas negativadas, totalizando R$ 6.177 — o equivalente a mais de quatro salários mínimos.
Impactos da inadimplência nos indicadores econômicos
O impacto do endividamento e da inadimplência já aparece nos indicadores macroeconômicos. O PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre sinalizou desaceleração, e as vendas no varejo recuaram por quatro meses consecutivos até julho — movimento que só havia sido registrado durante crises como o apagão de 2001 ou a recessão de 2014–2016.
Setores sensíveis ao crédito, como o automotivo, também sentem os efeitos. Após uma forte alta de 13,2% em 2024, os emplacamentos de veículos cresceram apenas 2,9% até agosto deste ano, segundo a Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores).
Para especialistas, o recuo no ritmo de financiamentos e o aumento da inadimplência são reações previsíveis ao aperto monetário iniciado em 2021.
A confiança do consumidor, medida pela FGV (Fundação Getulio Vargas), também reflete o peso do endividamento. O índice que mede a “situação financeira futura” das famílias caiu 27 pontos desde novembro, indicando um cenário de cautela e incerteza.
Apesar da melhora em indicadores como emprego e inflação, a política monetária restritiva segue pressionando o bolso dos brasileiros — e a inadimplência, longe de ser apenas estatística, segue como realidade cotidiana para milhões de famílias.



