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domingo, 16 agosto, 2026
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Ensinar ao passado o que ele pode dizer?

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Há uma placa imaginária diante de um museu em Washington. Ela não precisa estar escrita para que se entenda sua mensagem: cuidado, visitante, o passado que você verá talvez não seja o passado autorizado. Em julho de 2026, Donald Trump determinou que fossem instalados avisos nos caminhos de acesso ao National Museum of American History, do Smithsonian, para informar que algumas exposições conteriam informações “imprecisas” e indicar ao público onde encontrar aquilo que a Casa Branca chama de “informação correta” sobre a história dos Estados Unidos. A ordem também previu placas ou exposições temporárias para “corrigir” o que o governo considerasse incorreto.

No Brasil, a ferramenta foi menos cenográfica. Não uma placa na calçada, mas a “borracha” de um revisor. Uma comissão especial da Câmara dos Deputados propôs substituir a expressão “ditadura militar” por “regime militar” em pelo menos treze passagens de um livro sobre a Independência do Brasil. Também sugeriu cortes em trechos sobre povos indígenas, a comparação entre Brasil e Haiti e uma referência ao samba-enredo da Mangueira de 2019, que criticava a historiografia tradicional. A obra, organizada por André Machado, Andréa Slemian e Claudia Chaves, reúne textos de mais de cinquenta especialistas e já havia passado por contratos, revisão e diagramação. Depois de cerca de um ano de negociações, a Câmara afirmou que não houve consenso sobre uma versão adequada à publicação institucional e informou que o livro não estava entre suas prioridades editoriais.

Os dois casos não são idênticos. Um envolve uma ordem presidencial sobre a principal rede de museus do país; o outro, uma intervenção editorial que acabou sem publicação. Um mobiliza o vocabulário da “verdade e sanidade” e do combate à “captura ideológica”; o outro prefere a linguagem administrativa dos “ajustes”, da autonomia editorial e da ausência de consenso. Mas a diferença de escala não deve esconder a semelhança do gesto: o poder político se apresenta como árbitro da linguagem legítima para narrar o passado.

A Casa Branca escreveu que o Smithsonian deveria ser restaurado como uma “herança nacional compartilhada”, ensinada e celebrada com “honestidade e gratidão”. A ordem de julho de 2026 determina que os visitantes sejam encaminhados a recursos de “informação precisa” e que as exposições sejam renovadas conforme as conclusões de um relatório produzido pelo próprio governo. A American Historical Association respondeu que essa política exige trocar uma história baseada em evidências por uma narrativa celebratória do excepcionalismo americano e restringe quais experiências podem ser consideradas importantes. Para os historiadores, patriotismo não é a obrigação de admirar uma pátria sem memória de seus crimes. É a capacidade de reconhecer conquistas, conflitos, tragédias e fracassos como partes do mesmo passado.

No Brasil, a palavra que se quis retirar parece pequena – duas palavras, afinal -, mas há palavras que carregam uma biblioteca inteira. “Ditadura militar” não é um adjetivo injurioso; é uma denominação histórica para um regime instaurado por um golpe de Estado, governado por militares e marcado por censura, tortura, desaparecimentos, cassações e suspensão de direitos. “Regime militar” pode descrever a presença das Forças Armadas no poder, mas também pode funcionar como uma névoa: diz menos sobre a ruptura institucional e sobre a violência de Estado. A troca não seria mera revisão estilística. Seria uma mudança de enquadramento, uma tentativa de converter uma categoria historicamente disputada, mas documentada, em uma formulação mais branda e politicamente confortável. A tal “Ditabranda” que os jornalões ainda endossam.

É preciso, porém, fazer uma distinção. História não é uma ata pronta, guardada em uma gaveta à espera de ser copiada. Historiadoras interpretam, selecionam problemas, confrontam documentos e revisam hipóteses. Não existe uma frase mágica capaz de encerrar todas as controvérsias. Mas isso não significa que todas as versões tenham o mesmo peso, nem que o governo possa chamar de “ideologia” toda interpretação que incomode uma identidade nacional. A diferença entre debate historiográfico e negacionismo está justamente aí: o primeiro amplia a pergunta e testa a evidência, já o segundo tenta diminuir a evidência para preservar a narrativa.

A disputa atual, portanto, não nasceu com Trump nem com a maioria parlamentar que preferiu “regime” a “ditadura”. Ela é mais antiga – e talvez seja constitutiva da própria forma política chamada Estado-nação. Benedict Anderson definiu a nação como uma “comunidade política imaginada”: milhões de pessoas que jamais se conhecerão pessoalmente conseguem se imaginar pertencendo a um mesmo “nós”. Para que esse “nós” pareça natural, é preciso contar histórias de origem, escolher heróis, fixar datas, erguer monumentos, desenhar mapas, imprimir livros e ensinar cerimônias. A nação não é uma mentira por ser imaginada, ela é uma realidade política construída por imagens compartilhadas. O problema começa quando uma dessas imagens pretende expulsar todas as outras.

O saudoso Eric Hobsbawm chamou de “tradições inventadas” os rituais e práticas que parecem antigos, mas foram formalizados ou difundidos rapidamente em períodos relativamente recentes. Elas produzem continuidade: fazem o presente parecer filho inevitável de um passado selecionado. A comemoração cívica, o museu nacional, o currículo escolar e o monumento não são simples recipientes de lembranças. Eles dizem o que merece ser lembrado, quem pode aparecer como fundador, quais violências serão descritas como tragédia e quais serão apresentadas como preço inevitável do “progresso”.

No Brasil, essa operação pode ser vista antes mesmo da República. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, criado em 1838, participou da produção letrada de uma história nacional compatível com a unidade territorial e com o Estado imperial. A Independência foi sendo estabilizada como origem gloriosa, centrada no 7 de Setembro e na figura de D. Pedro, como se um país inteiro tivesse acordado no mesmo dia para cumprir um destino comum. A historiografia posterior demonstrou que o processo foi atravessado por conflitos regionais, guerras, disputas políticas e diferentes sujeitos. Ainda assim, a versão da separação quase pacífica, conduzida por grandes homens e destinada a preservar a ordem, continuou circulando nas escolas, nas festas e no senso comum.

Não é difícil entender por que um livro sobre a Independência incomoda tanto. Falar da Independência é falar da construção da nação e falar da construção da nação é tocar no altar onde o Estado coloca seus antepassados. Quando a obra introduz Haiti, povos indígenas, escravidão, conflitos e críticas à historiografia tradicional, ela não destrói a história nacional. Faz algo mais democrático: pergunta quem ficou do lado de fora da fotografia oficial.

A mesma fotografia foi retocada muitas vezes na história brasileira. Durante a ditadura de 1964-1985, militares e civis aliados construíram a narrativa da “Revolução de 1964”, apresentada como a salvação do país diante de uma ameaça comunista. Estudos dos discursos comemorativos produzidos entre 1964 e 1999 mostram que a palavra “revolução” serviu para legitimar o golpe, organizar a memória do regime e atribuir às Forças Armadas uma missão histórica de defesa da democracia. Livros didáticos publicados entre 1970 e 2000, por sua vez, frequentemente explicaram o golpe como resultado quase inevitável de crises econômicas, políticas e sociais, minimizando a ação dos conspiradores e, em alguns casos, chamando o episódio de “Revolução de março de 1964”.

A disputa não se encerrou quando os quartéis devolveram formalmente o governo aos civis. O Arquivo Nacional registra que a Comissão Nacional da Verdade, criada em 2011, investigou graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, com foco na ditadura de 1964-1985, e teve sua documentação recolhida ao arquivo público em 2015. A existência desse acervo não transforma a história em unanimidade, mas torna mais difícil fingir que a violência foi apenas excesso individual, acidente ou “excesso de ambos os lados”. A verdade democrática não é uma sentença que impede novas pesquisas, é a obrigação de não começar a pesquisa apagando os mortos.

Nos Estados Unidos, o mecanismo é reconhecível, embora a história seja outra. A memória pública da Guerra Civil, da escravidão, da Reconstrução e da segregação foi durante décadas atravessada pela narrativa da “Lost Cause” (mito da causa perdida), que transformou a Confederação em causa regional honrosa e diminuiu a centralidade da escravidão. O próprio Smithsonian desenvolve atividades pedagógicas sobre como os monumentos tornam visíveis algumas memórias e escondem outras, e sobre como a exaltação da branquitude moldou a narrativa pública da Guerra Civil.

Por isso o National Museum of African American History and Culture representa mais do que um novo prédio. Ao articular escravidão, emancipação, segregação, resistência negra e direitos civis, ele afirma que a história afro-americana não é um capítulo suplementar da história nacional: é uma de suas colunas. O museu não retira os Estados Unidos da história. Só devolve à história dos Estados Unidos aquilo que a narrativa patriótica tentou transformar em nota de rodapé.

A reação do governo Trump não surgiu no vazio. Em 2020, a “President’s Advisory 1776 Commission” foi encarregada de promover uma “educação patriótica” em parques, campos de batalha, monumentos e museus, privilegiando a fundação e os princípios de 1776. Em 2025, a Casa Branca ordenou que o Smithsonian removesse o que chamou de “ideologia imprópria” e previu ações sobre exposições, financiamento e monumentos. O Congressional Research Service observou, com a prudência própria de uma instituição não partidária, que o Smithsonian possui estrutura singular: é governamental, mas separado dos três poderes, com conselho próprio e fontes de financiamento diversas. A eficácia jurídica e administrativa da ordem presidencial, portanto, não era simples nem automática.

O que muda em 2026 é a entrada da autoridade diretamente na sala de exposição. A placa não precisa fechar o museu. Basta sugerir que o visitante desconfie do curador antes de olhar o objeto. O aviso cria uma pedagogia da suspeita: não se pede que o público compare fontes, mas que saiba previamente qual interpretação deve considerar “imprecisa”. O museu, que deveria ser uma casa de perguntas, passa a ser tratado como uma casa de versões autorizadas.

É aqui que os dois episódios se encontram com a longa história do Estado-nação. Estados democráticos também produzem currículos, arquivos, museus, monumentos e feriados; não é preciso haver um regime de partido único para que o poder selecione memórias e distribua prestígio. A diferença decisiva não está em o Estado participar ou não da narrativa histórica – ele sempre participa -, mas em como participa. Pode financiar arquivos abertos, proteger a pesquisa, reconhecer vítimas e acolher conflitos. Ou pode impor uma narrativa única, rebatizar o golpe como revolução, a escravidão como detalhe, a conquista como destino e a crítica como deslealdade.

A história única é, nesse sentido, menos uma realidade do que um projeto de governo. Ela deseja que a nação pareça ter sido sempre a mesma, moralmente coerente e guiada por heróis sem contradições. O passado, entretanto, é um animal mais teimoso. Ele reaparece nos documentos, nos testemunhos, nos arquivos das famílias, nos corpos torturados, nas aldeias expulsas, nas comunidades negras, nos nomes indígenas e nos silêncios que uma comissão editorial não consegue apagar completamente.

A “caneta retificadora” (e negacionista) brasileira e a placa americana parecem instrumentos diferentes. Uma diminui uma palavra; a outra desautoriza um museu inteiro. Mas ambas obedecem ao mesmo verbo: corrigir. Só que há uma diferença entre corrigir um erro factual e corrigir o passado até que ele se torne obediente. A primeira operação pertence ao trabalho paciente da pesquisa. A segunda é a velha ambição do poder: substituir a pergunta “o que aconteceu?” pela ordem “diga o que convém”.

No fim, a disputa pela memória não é uma novidade dos governos autoritários de hoje. Ela acompanha a formação dos Estados nacionais, desde os impérios que encomendaram suas crônicas até as repúblicas que transformaram seus fundadores em estátuas. O autoritarismo contemporâneo apenas acelera, vulgariza e torna mais visível a tentação antiga de monopolizar o passado. A democracia começa quando nenhum governo consegue colocar uma placa sobre todos os museus, uma borracha sobre todos os livros e uma legenda única sobre todos os mortos.

 

“Cartaz de 1981 faz referência ao Atentado do Riocentro, em que militares planejaram jogar uma bomba no show em comemoração ao Dia dos Trabalhadores realizado no Rio de Janeiro em 30 de abril daquele ano. Foto: Cecília Bastos.” Fonte: Jornal da USP.





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