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sábado, 27 junho, 2026
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Em Paracatu, Milton Santos e Guimarães Rosa inspiram diálogo sobre quem somos

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As obras de Milton Santos e Guimarães Rosa vão inspirar alguns dos principais escritores brasileiros para promover, na cidade mineira de Paracatu, um diálogo poderoso sobre quem somos.

Entre os dias 26 e 30 de agosto, a 4ª Fliparacatu reunirá nomes como Alexandre Coimbra Amaral, Bia Bracher, Bruna Lombardi, Calila das Mercês, Cármen Lúcia, Eliana Alves Cruz, Geni Núñez, Jeferson Tenório, Marcelino Freire, Mia Couto, Míriam Leitão, Natalia Timerman, Paulliny Tort, Rita von Hunty, e Sérgio Abranches. A programação gratuita é viabilizada por recursos da Lei Rouanet, patrocinada pela Kinross.

Sob a liderança de Afonso Borges, os curadores escolheram Milton Santos e Guimarães Rosa como patronos, num ato para convocar leitores e intelectuais a refletir sobre “o nosso lugar no mundo”.

Quando se comemoram os 70 anos da publicação de “Grande Sertão: Veredas” e o centenário de nascimento do geógrafo Milton Santos, suas obras são mais atuais do que nunca.

Em suas obras, os dois homens rejeitaram a ideia de ler o Brasil a partir de mapas oficiais, estatísticas e estereótipos. O país aparece como experiência viva, contraditória, desigual e profundamente criativa.

Os dois homens pertencem a universos distintos — um reinventou a literatura brasileira; o outro revolucionou a geografia crítica mundial. Um escrevia a partir da fabulação, da oralidade e da invenção linguística. O outro formulava conceitos rigorosos para compreender território, globalização e desigualdade. Ainda assim, os dois convergem de maneira profunda na forma como enxergaram o Brasil.

Ambos partiram da ideia de que o país real não se revela pelos centros de poder, mas pelos deslocamentos humanos, pelas margens, pelos interiores, pelos sujeitos historicamente invisibilizados. Em Rosa, o sertão deixa de ser periferia narrativa e torna-se centro do mundo. Em Milton Santos, o território em que se vive — o espaço das pessoas comuns — passa a ser chave para compreender a sociedade contemporânea.

Em um texto que descreve esse “encontro” entre Rosa e Santos, Abranches fala ainda do papel da ideia da travessia nos escritos deixados pelos dois homens.

“Guimarães Rosa construiu uma obra baseada na travessia. Seus personagens vivem em movimento: atravessam rios, veredas, conflitos morais, pactos interiores e ambiguidades da existência. O sertão rosiano é físico, metafísico e simbólico ao mesmo tempo. É geografia, ficção e experiência humana. Em “Grande Sertão: Veredas”, o espaço não é cenário – ele elabora o pensamento, a fala, o destino e a percepção do tempo”, disse.

“Milton Santos, por sua vez, compreendeu o espaço como resultado das relações humanas, econômicas e políticas. Seu pensamento rompeu com a ideia de território como algo neutro ou meramente cartográfico. O espaço, para ele, é produzido por disputas, fluxos, exclusões e afetos.

Em muitos aspectos, aquilo que Rosa transforma em linguagem literária, Milton Santos transforma em interpretação crítica do mundo”, diz o intelectual.

Há ainda uma dimensão ética comum. Em Rosa, a travessia não é apenas física; ela exige escolhas morais. O bem e o mal aparecem misturados, inseparáveis da condição humana. Em Milton Santos, a crítica à globalização excludente nasce da defesa de uma humanidade mais solidária, baseada na convivência e no reconhecimento das diferenças.

De fato, os dois pensam o humano como experiência de relação e geolocalização. “Ninguém pensa o mundo a partir do mundo. Cada um de nós, ao contemplar o universo, o faz a partir de um dado lugar”, diria o geógrafo.

“Setenta anos depois da publicação de Grande Sertão: Veredas e cem anos após o nascimento do geógrafo baiano, suas obras permanecem atuais e continuam oferecendo instrumentos para pensar um mundo em transformação”, apontam os curadores.

Neste ano, essas obras abrem caminhos para temas que dialogam diretamente com o nosso tempo, como a democracia, racismo, meio ambiente, cidades, mudanças climáticas, povos originários, saúde mental, memória, identidade, desigualdade, violência, tecnologia e desinformação.

O festival ainda busca o equilíbrio entre homens e mulheres, a presença significativa de autores negros e indígenas e o diálogo entre diferentes gerações, áreas do conhecimento e perspectivas. “A diversidade de vozes não é um elemento acessório, mas uma escolha curatorial que amplia a conversa e enriquece a experiência dos leitores”, insistem os organizadores.

Considerado como um dos principais festivais literários do país, o evento em Paracatu tem promovido encontros entre literatura, pensamento, artes e questões contemporâneas.

A primeira edição, em 2023, homenageou Conceição Evaristo e Ailton Krenak, reunindo autores como Itamar Vieira Junior, Ignácio de Loyola Brandão, Ana Maria Gonçalves, Jeferson Tenório e Elisa Lucinda.

Em 2024, sob o tema “Literatura e Memória”, o Fliparacatu homenageou Machado de Assis e Adélia Prado, ampliando sua programação e consolidando a presença de escritores, jornalistas, cientistas e artistas em debates sobre identidade, história e cultura brasileira.

A terceira edição, realizada em 2025, levou Ana Maria Gonçalves e Valter Hugo Mãe como homenageados para a cidade.

Ao longo de suas três primeiras edições, o Fliparacatu reuniu mais de 150 autores e transformou o centro histórico da cidade mineira em um espaço de diálogo entre leitores e escritores. O novo encontro, agora, já está marcado.

 





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