O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou a cúpula do Mercosul, realizada nesta terça-feira (30) em Assunção, no Paraguai, para lançar um recado ao continente: a América do Sul não tem dono. O discurso aconteceu em um momento de tensões geopolíticas e ao avanço da extrema direita em vários países da região, e foi interpretado como uma crítica direta tanto a Donald Trump quanto aos líderes latino-americanos alinhados a Washington.
“Ninguém é dono do mundo e ninguém é dono da América do Sul. Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes’, disse Lula. ‘Nossa força estará na capacidade de dialogar com todos, sem deixar de lado nossos interesses. Diversificar parcerias, ampliar a cooperação e preservar a autonomia são requisitos para que a região encontre seu espaço em um mundo em transformação.”
O recado se estende também à extrema direita latino-americana, marcada não só por uma postura ideológica e nacionalista, mas que de forma muito incoerente, se submete a uma potência estrangeira. Lula quis dizer que quem acha que vai obter dividendos políticos se curvando a Trump está enganado.
Ausência de Milei chama atenção
O encontro ganhou um simbolismo extra pela ausência de Javier Milei, presidente da Argentina. Ele alegou compromissos pessoais para não comparecer, mas o contexto não passou despercebido. Um dia antes, Milei havia recebido Flávio Bolsonaro na residência oficial em Buenos Aires.
O líder argentino não esconde a torcida por uma derrota de Lula nas eleições de 2026, o que coloca a Argentina no radar do Palácio do Planalto como possível vetor de interferência eleitoral. Há uma preocupação de que a ingerência na eleição brasileira não aconteça só lá de Washington, que ela possa acontecer a partir de alguma capital regional, Buenos Aires, Bogotá.
O maior desafio da história do Mercosul
Nos anos 1980, o então presidente brasileiro e o mandatário argentino Raúl Alfonsín selaram o projeto de integração regional sem avisar aos militares dos dois países, e aproveitaram para anunciar, ao mesmo tempo, a renúncia a qualquer programa nuclear com fins bélicos. Eles pegaram os militares, tanto argentinos quanto brasileiros, absolutamente de calça curta. O gesto foi uma afirmação de que a era dos governos civis havia chegado e que a integração regional seria sua bandeira.
Quarenta anos depois, esse projeto enfrenta o maior desafio da história do Mercosul. A hegemonia da direita no continente complica a coesão do bloco, mas o Brasil ainda é visto como um parceiro de diálogo.
Apesar do clima de tensão ideológica, o quadro na região é complexo e, mesmo governos de direita que se alinham publicamente a Trump mantêm, nos bastidores, canais abertos com Brasília.
Segundo uma fonte do Planalto, o governo da Bolívia já pediu ao Brasil que intermediasse o diálogo com movimentos sociais durante uma crise interna. É um governo de direita fazendo um apelo para um governo progressista para mediar a situação.
No Equador, a aproximação tem base econômica. O Brasil abriu seu mercado para banana e camarão equatorianos, dois produtos centrais para a família do presidente Daniel Noboa, que domina o setor bananeiro do país. É mais complicado do que o bem contra o mal. Todos esses líderes sabem que no momento em que pisarem fora da linha e o governo americano disser que não gostou, eles são os primeiros que serão desestabilizados.
Governos de direita que se alinham publicamente a Trump mantêm, nos bastidores, canais abertos com Brasília, porque os líderes dessas nações sabem que no momento em que desagradarem Washington, serão os primeiros a serem retirados do poder ou desestabilizados.
O discurso de Lula também carrega peso eleitoral doméstico. Com 2026 no horizonte, a eleição brasileira é vista como estratégica para toda a América do Sul. Enquanto Milei faz acenos à oposição brasileira e Trump consolida influência no continente, Lula aposta na diplomacia ativa e na centralidade regional do Brasil como trunfo político, dentro e fora das urnas.
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