25.3 C
Manaus
sexta-feira, 13 fevereiro, 2026
InícioBrasilé poder existir no espaço da COP 30

é poder existir no espaço da COP 30

Date:

[ad_1]

ouça este conteúdo

00:00 / 00:00

1x

 

Por Duda Salabert e Mariana Franco Ramos*

Quando ouvimos falar em Conferência do Clima, geralmente pensamos nas negociações entre países, nas metas de redução de emissões, no financiamento e na transição energética. Existe, porém, uma camada igualmente essencial, sem a qual não há verdadeira ação climática em nosso país, em nossas cidades: garantir que as pessoas possam participar desses processos em segurança e com dignidade. Isso significa levar a sério as perspectivas de gênero, identidade e orientação sexual, além de classe e raça — não como pautas “secundárias”, mas como parte do núcleo da justiça climática.

A crise do clima não é neutra. Seus impactos recaem de forma desigual sobre diferentes grupos. Estudos mostram que mulheres, pessoas negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, aquelas que vivem da agricultura, LGBTQIA+ e também comunidades de baixa renda sofrem efeitos desproporcionais de eventos extremos, da insegurança alimentar e da degradação ambiental. Quem afirmou isso foram cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o principal órgão científico do mundo sobre o tema, além de moradores dos territórios que enfrentam chuvas fortes, enchentes, secas e falta de água. Com as mudanças climáticas, a vida como ela é se torna mais dura: as desigualdades socioeconômicas se acumulam e se multiplicam. É o que chamamos de vulnerabilidade.

Eu, Duda, costumo dizer que não precisamos dar voz às pessoas, porque voz elas já têm. Devemos sim escutá-las e garantir que suas opiniões sejam consideradas. São esses indivíduos, os mais afetados pelas mudanças climáticas, que lideram — muitas vezes de forma invisibilizada — respostas práticas e inovadoras para adaptação e mitigação, seja no campo, em organizações comunitárias rurais e urbanas ou na defesa de políticas públicas e efetivação de direitos. Excluí-las das negociações internacionais, como tem ocorrido nas últimas décadas, não é somente injusto: é ineficiente social e economicamente. É desperdiçar soluções que já funcionam em várias partes do mundo e com custos baixos para implementação.

Muita gente tem reclamado, com razão, dos preços abusivos das hospedagens em Belém para o período da COP30. O problema, que não é exclusivo do Brasil, precisa ser resolvido — e, mesmo que tardiamente, medidas estão sendo estudadas e implementadas. Queremos, porém, convidar você a uma reflexão: já observou o que provoca — ou não — críticas intensas e até boicotes à escolha da cidade anfitriã de uma COP?

As conferências realizadas em Glasgow, na Escócia, e em Madri, na Espanha, tiveram alta nos custos. Isso representou um obstáculo real para a participação de representantes do chamado Sul Global (para alguns, “países em desenvolvimento”)  como parlamentares (incluindo vereadores), prefeitos, ativistas, movimentos sociais e organizações da sociedade civil. Já em 2023, a COP28 aconteceu em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos — um país onde a existência de pessoas como eu, Duda, é considerada crime. Minha ida só foi possível graças a uma intervenção direta de diplomatas brasileiros. Ainda assim, em nenhum desses momentos houve campanha internacional para “mudar a sede”.

Esse contraste revela um ponto importante: a discussão sobre onde e como realizamos um grande evento precisa incluir a pergunta “estamos falando de um espaço seguro para todas as pessoas?”. Porque, se o objetivo é construir soluções globais, a participação plena de diferentes grupos e perfis não pode ser opcional, mas, sim, uma condição.

O risco não está apenas em países que criminalizam a existência de travestis e transexuais. Em abril deste ano, eu, Duda, tive um visto emitido para os Estados Unidos com gênero masculino, apesar de meu outro visto ter sido no feminino — uma decisão amparada por ordem executiva do presidente Donald Trump. Por respeito à minha dignidade, neguei o convite para uma palestra nos EUA, onde inclusive falaria sobre a COP30. Caso semelhante ocorreu com a também deputada federal Érika Hilton. Não bastasse a transfobia, esse tipo de violência institucional é uma afronta à dignidade humana e à soberania do Brasil.

Tais experiências mostram que, na diplomacia climática, identidade de gênero e orientação sexual não são temas “laterais”. São condições para participação. Uma COP que não considera isso reproduz a exclusão e a desigualdade que a crise climática já amplifica.

A COP30, a primeira na Amazônia, tem a chance de mostrar ao mundo que enfrentar a emergência climática exige enfrentar preconceitos e desigualdades históricas. Isso significa garantir infraestrutura e logística acessíveis — sim, hospedagem a preços justos —, mas também promover um ambiente onde mulheres, pessoas LGBTQIA+, negras, indígenas, crianças, jovens e todas as outras possam circular e se expressar com segurança e respeito. É fundamental que a conferência seja um espaço plural e acolhedor, onde diferentes gerações e grupos possam contribuir para as soluções globais.

Se o debate climático não incluir gênero, identidade e orientação sexual, estará fadado a repetir as mesmas estruturas que nos trouxeram até aqui. A Amazônia é muito mais do que o epicentro da biodiversidade. Pode ser o epicentro de uma nova forma de fazer política climática: justa, inclusiva e verdadeiramente representativa.

*Duda Salabert, primeira deputada federal transgênero da história de Minas Gerais, é presidenta da Subcomissão Especial da COP30 na Câmara.  Mariana Franco Ramos, mulher bissexual, é coordenadora de Comunicação da Plataforma CIPÓ



[ad_2]

spot_img