O plano econômico defendido pelo pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) gerou repercussão e preocupação entre especialistas. A proposta, que prioriza o ajuste fiscal, em um claro aceno ao mercado financeiro, tem como foco a revisão de gastos sociais, especialmente na Previdência.
Entre as medidas discutidas estão mudanças no salário mínimo e alterações nas regras de aposentadoria. Para a professora e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a economista Marilane Teixeira, o impacto pode ser amplo e atingir diretamente a população mais vulnerável. “Estamos falando de milhões de brasileiros que dependem desses benefícios para sobreviver”, afirmou em entrevista na edição de segunda-feira (27) do ICL Em Detalhes.
Um dos pontos centrais do plano é a possibilidade de reajustar aposentadorias e benefícios sociais apenas pela inflação, sem aumento real, política que foi retomada no terceiro mandato do presidente Lula (PT). Hoje, cerca de 70% dos beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) recebem até um salário mínimo.
Para a professora e pesquisadora, a medida pode provocar perda gradual do poder de compra. “Ao longo do tempo, isso significa empobrecimento. As pessoas continuam consumindo, mas com uma renda que não acompanha o custo de vida”, disse.
Ela alerta que a proposta pode permitir reajustes até abaixo da inflação, agravando o cenário: “Você pode não repor nem o valor nominal [sem descontar a inflação] do benefício”.
Desindexação atinge população mais vulnerável
Outro eixo do plano é a desindexação — ou seja, o rompimento do vínculo entre o salário mínimo e benefícios como aposentadorias e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), uma das bandeiras da Faria Lima e motivo de queda de braços com o governo do presidente Lula (PT), que se recusa a ceder a esse tipo de proposta, que penaliza justamente a camada mais vulnerável da população.
Para a pesquisadora, a medida atinge diretamente a base da pirâmide social. “São justamente as pessoas mais pobres, que dependem dessa renda não só individualmente, mas para sustentar famílias inteiras”, explicou.
Ela destaca que aposentadorias muitas vezes são a principal fonte de renda em diversos lares brasileiros.
Crítica às reformas e foco no mercado de trabalho
Durante a entrevista, Marilane Teixeira também criticou a retomada de debates sobre novas reformas trabalhista e previdenciária.
Segundo ela, mudanças anteriores não entregaram os resultados prometidos. “A reforma trabalhista prometia formalização e crescimento econômico. Isso não aconteceu”, afirmou.
Para a professora, o problema da previdência está mais relacionado à queda de arrecadação e às transformações no mercado de trabalho, como o aumento da informalidade e da pejotização.
Privatizações e impacto nos serviços públicos
O plano econômico do filho zero um de Jair Bolsonaro também inclui propostas de privatização de estatais como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
Na avaliação da especialista, isso pode reduzir o acesso da população a serviços essenciais, como crédito habitacional e financiamento agrícola.
“Essas instituições garantem acesso a crédito para quem o setor privado não atende. Entregar isso ao mercado é excluir ainda mais os mais pobres”, disse.
Transferência de renda e desigualdade
Na avaliação da professora, o conjunto das propostas indica uma mudança na distribuição de recursos públicos.
“Você reduz gastos sociais para aumentar o superávit e pagar juros da dívida. No fim, está transferindo renda da população mais pobre para os mais ricos”, afirmou.
Ela resume o impacto de forma direta: “É uma política que amplia desigualdades”.
Crise de narrativa após repercussão
Após a repercussão negativa, Flávio Bolsonaro afirmou que as informações sobre o plano seriam “fake news”.
A declaração, no entanto, ampliou o debate público sobre transparência e diretrizes econômicas da pré-campanha.
Para a pesquisadora, é fundamental que propostas sejam apresentadas de forma clara à população.
“Se não é isso, então qual é o plano? A sociedade precisa saber”, questionou.
Veja a entrevista completa de Marilane Teixeira no vídeo abaixo:



