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segunda-feira, 26 outubro, 2026
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Derrota de Flávio Bolsonaro aponta para reorganização da direita e nova disputa pelo espólio do pai

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Por Ana Luiza Albuquerque

A vitória do presidente Lula (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) neste domingo (25) abre caminho para a reorganização da direita sob uma nova liderança que emergirá da disputa pelo espólio do bolsonarismo.

O resultado, que havia sido projetado pelo Datafolha às 20h46, foi confirmado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) às 21h10.

Flávio conquistou quase 60 milhões de votos no segundo turno, impulsionado, acima de tudo, pelo sobrenome, atestando que o antipetismo segue como uma força política capaz de mobilizar o eleitorado e levá-lo às urnas.

O filho de Jair Bolsonaro (PL) surpreendeu e terminou o primeiro turno com mais votos do que o petista. Seu entorno já ventilava possíveis nomes para um eventual governo, e Flávio falou em mudar a Constituição.

O campo progressista, porém, reagiu com uma forte mobilização nas ruas e nas redes (essa liderada pelo deputado federal André Janones), revertendo o quadro de forma inédita e levando Lula à vitória.

A expressiva votação de Flávio, assim como a da bancada do PL no Congresso, aponta para a continuidade, no próximo ciclo eleitoral, da demanda por um candidato que reúna as insatisfações em relação ao petismo e que abrace certas identidades associadas ao bolsonarismo, como a defesa de um modelo conservador de família, a organização da política em torno da fé e a primazia da esfera individual sobre a coletiva.

Resta saber quem irá liderar essa oferta. A reeleição de Lula anula a possibilidade de indulto presidencial para Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão pela tentativa de golpe em 2022. Portanto, o ex-presidente deve continuar preso e impedido de voltar a encabeçar seu projeto político (exceto se o ministro do Supremo Tribunal Federal Kassio Nunes Marques, relator de uma revisão criminal apresentada pela defesa de Bolsonaro, colocá-lo em liberdade).

Derrotado, Flávio perde força para voltar a se cacifar como o herdeiro do grupo. Além disso, o senador é formalmente investigado no inquérito do Supremo que envolve o filme “Dark Horse”, que recebeu ao menos R$ 65 milhões de Daniel Vorcaro, do Banco Master.

O filho de Bolsonaro é alvo ainda de um pedido de inquérito que a Polícia Federal enviou ao STF para apurar a suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo seu amigo, o advogado Willer Tomaz, também investigado no caso das fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), por sua vez, continua autoexilado nos Estados Unidos, de onde comemorou o tarifaço contra o Brasil no ano passado.

Ele também foi condenado pelo Supremo a quatro anos e dois meses de prisão, em regime inicialmente semiaberto, pelo crime de coação, por ter tentado, segundo a sentença, intimidar o Judiciário brasileiro e impedir a análise da trama golpista que tentou manter seu pai no poder.

No começo de outubro, o ministro do STF Alexandre de Moraes determinou o início do cumprimento da pena, o que torna muito improvável que Eduardo retorne ao Brasil ou volte a se candidatar, considerando a Lei da Ficha Limpa.

No clã Bolsonaro, sobra a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), que no último ano esboçou uma tentativa de alçar voo próprio —movimento que ficou mais escancarado em junho, quando publicou um vídeo roteirizado acusando Flávio de tê-la maltratado.

O atrito público foi um dos principais obstáculos da campanha do enteado, por ter posto em risco seu desempenho entre as mulheres, um grupo entre o qual já enfrentava dificuldades, assim como o pai. No fim, os dois fizeram as pazes publicamente, mas a madrasta não se engajou na candidatura de Flávio.

Flávio e seus aliados em clima de derrota nos minutos finais da apuração - Foto: Reprodução
Flávio e seus aliados em clima de derrota nos minutos finais da apuração – Foto: Reprodução

Segundo aliados, ela ficou decepcionada por Jair ter escolhido o filho. O nome da ex-primeira-dama era aventado para ocupar o lugar de vice de uma chapa presidencial liderada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que conquistou a reeleição com folga no primeiro turno.

A alta rejeição que envolve a família Bolsonaro —na véspera do segundo turno, 45% dos eleitores diziam que não votariam de jeito nenhum em Flávio, segundo o Datafolha— é um fator que contribui para que um nome fora da família assuma a dianteira da direita.

No fim do ano passado, quando o senador anunciou que concorreria à Presidência, ungido pelo pai, líderes do centrão manifestaram insatisfação, dizendo que ele não unia a direita e duvidando de sua capacidade de derrotar Lula.

O grupo, assim como grandes empresários, citava Tarcísio como a figura com as melhores credenciais para a função. Na reta final da eleição, Flávio afirmou em evento em São Paulo que o governador tinha a expectativa de ter concorrido ao cargo neste ano, algo que o aliado sempre negou publicamente.

Em um cenário aberto para 2030, Tarcísio sai na frente nas apostas como o principal nome do campo conservador.

A longo prazo, a função também pode ser disputada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL), uma das principais lideranças da direita, com um alcance extraordinário nas redes. Os números de seu engajamento no Instagram, que superam os de grandes celebridades internacionais, levaram o Tribunal Superior Eleitoral a ordenar à Meta que fornecesse informações sobre a amplificação algorítmica de seu perfil.

Nikolas foi, nas últimas duas eleições, o deputado federal mais votado do país. Em 2026, bateu recorde, com 3,1 milhões de votos. Ele também ajudou a eleger, com grande votação, candidatos de seu grupo político, como o deputado federal Lucas Pavanato (PL), o mais votado da história de São Paulo, com 3 milhões de votos.

Em agosto, Nikolas afirmou que só não vai disputar a Presidência no futuro se cair “uma bomba” no Brasil. Hoje com 30 anos, ele só estará apto a concorrer em 2034, considerando que a Constituição estabelece a idade mínima de 35 anos.

As últimas eleições indicam, ainda, que se tornou comum o surgimento de um “outsider” de direita que encarne o discurso antissistema, de negação da política, perpassado pela tônica do empreendedorismo e do esforço individual. Neste ciclo eleitoral, Augusto Cury (Avante) foi a bola da vez.

Em 2024, surfou essa onda o influenciador Pablo Marçal (PRTB). Neste ano, o empresário tentou se candidatar à Presidência mesmo estando inelegível. Quando a Justiça Eleitoral o barrou, mergulhou na campanha de Flávio Bolsonaro e chegou a ser cotado para um eventual Ministério da Prosperidade.

Marçal, que na disputa pela Prefeitura de São Paulo em 2024 apresentou um laudo falso para tentar incriminar o adversário, Guilherme Boulos (PSOL), pelo uso de cocaína, indica que continua interessado em adentrar a política institucional, levando consigo seus métodos controversos.

O partido Missão, por sua vez, liderado por Renan Santos, que conquistou 2% dos votos na corrida presidencial, vem buscando se posicionar a médio ou longo prazo como o grupo que irá aglutinar a demanda do eleitorado por pautas e valores da direita, numa aposta na derrocada do bolsonarismo.

No segundo turno, Renan fez duras críticas a Flávio e foi cortejado por eleitores de esquerda para anunciar voto em Lula, o que se negou a fazer, buscando cacifar seu grupo como um terceiro caminho num cenário pós-Bolsonaro.





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