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quinta-feira, 19 março, 2026
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Depoimento em CPI aponta para descaso do Banco Central de Roberto Campos Neto

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Por Cleber Lourenço

 

O funcionamento do sistema de fiscalização do mercado financeiro brasileiro entrou na mira do Congresso nesta quarta-feira (18). Em depoimento prestado na tarde de hoje à CPI do Crime Organizado, o advogado Vladimir Timerman afirmou que o Banco Central, durante a gestão de Roberto Campos Neto, deixou de agir diante de alertas e denúncias que, segundo ele, poderiam ter antecipado a identificação de irregularidades relevantes no sistema.

Fundador da gestora Esh Capital, Timerman atua no mercado financeiro e apresentou-se à comissão como alguém que acompanhou de perto as operações sob suspeita. Ao longo do depoimento, buscou sustentar que levou alertas formais às autoridades reguladoras antes da eclosão do caso, sem que houvesse, segundo ele, resposta efetiva por parte dos órgãos responsáveis.

“Se tivessem prestado atenção no que eu falei, teriam evitado”, disse Timerman, ao resumir a crítica que dirigiu ao Banco Central ao reconstituir a sequência de denúncias feitas sobre a estrutura do Banco Master e sobre operações envolvendo precatórios, fundos e ativos ligados ao universo de Daniel Vorcaro e Nelson Tanure.

A escolha do alvo não foi casual. Ao longo do depoimento, Timerman procurou sustentar que o problema não surgiu por falta de aviso, mas apesar dos avisos. E, ao falar do Banco Central, deixou claro que se referia ao período em que a instituição era comandada por Roberto Campos Neto. Na narrativa apresentada por ele aos senadores, o BC recebeu alertas formais sobre a estrutura societária em torno do Master e sobre operações que inflariam artificialmente balanços, mas não reagiu com a velocidade necessária para interromper a escalada do caso.

Foi a partir daí que o depoimento avançou para um segundo eixo: a atuação da Comissão de Valores Mobiliários. Se, de um lado, Timerman disse ter alertado o Banco Central sobre o que considerava irregularidades graves, de outro afirmou que a CVM já vinha recebendo, desde anos antes, informações sobre operações ligadas à Gafisa que, na visão dele, antecipavam o modelo que depois apareceria no Banco Master em escala maior.

O resultado foi um depoimento que não mirou apenas os operadores privados e os fundos sob suspeita, mas também o comportamento dos órgãos que tinham o dever de fiscalizar. O argumento central é politicamente explosivo: segundo Timerman, o sistema regulatório foi avisado, teve acesso a elementos relevantes e, mesmo assim, deixou o problema avançar.

O Banco Central no ponto de partida do depoimento

Ao falar do Banco Central, Timerman tentou desmontar a tese de que o caso Master teria surpreendido a supervisão financeira. Segundo ele, houve uma primeira denúncia ao BC apontando que Nelson Tanure era, “no mínimo”, sócio do Banco Master. Depois, afirmou ter formalizado uma segunda denúncia, desta vez centrada nas operações com precatórios.

O ponto mais forte da exposição dele foi justamente o de que o Banco Central não teria recebido apenas boatos, ruído de mercado ou suspeitas vagas. Na versão apresentada à CPI, o órgão foi formalmente alertado sobre a estrutura em torno do banco e sobre mecanismos que, segundo ele, ajudavam a inflar artificialmente o balanço da instituição.

Foi nesse contexto que Timerman lançou uma das perguntas mais pesadas do depoimento: como uma estrutura cercada por esse tipo de alerta prévio conseguiu seguir operando sem um freio regulatório duro? Ao formular a questão, ele mirou diretamente o período em que Roberto Campos Neto chefiava o Banco Central e sugeriu que a reação da autoridade monetária foi insuficiente diante da gravidade do que estava sendo comunicado.

A crítica não ficou apenas no plano abstrato. Timerman disse que procurou o Banco Central com informações concretas e reclamou da falta de escuta institucional. Em um dos trechos mais contundentes da fala, resumiu sua frustração com a frase: “Se tivessem prestado atenção no que eu falei, teriam evitado”. A afirmação virou, na prática, o fio condutor da acusação de fiscalização tardia.

As denúncias sobre precatórios

O capítulo dos precatórios foi usado por Timerman como a parte mais didática da explicação sobre o que, na visão dele, sustentava artificialmente o Banco Master. Segundo o depoente, certos ativos eram adquiridos por um valor e depois revendidos ou reavaliados por cifras muito superiores, produzindo ganho contábil sem lastro econômico compatível.

Ao traduzir a lógica que atribui ao mecanismo, Timerman foi direto: “O dinheiro era desviado antes de entrar no banco”. A frase foi usada para sustentar a tese de que a estrutura não começava no banco em si, mas em operações anteriores, com ativos problemáticos ou superavaliados, que depois alimentariam uma aparência de solidez patrimonial.

Na narrativa levada à CPI, essa aparência de solidez permitia ampliar a captação, sobretudo com CDBs, e manter a engrenagem em funcionamento. Ou seja, o banco pareceria mais robusto do que realmente era, o que abriria espaço para entrada de dinheiro novo e postergação do reconhecimento dos problemas.

Para dar concretude ao argumento, Timerman citou um exemplo específico. Segundo ele, um fundo comprou um ativo por R$ 136 milhões e, cinco dias depois, vendeu esse mesmo ativo por R$ 320 milhões. O caso foi apresentado como evidência de geração artificial de valor no papel. Não era, portanto, uma crítica genérica ao mercado de ativos estressados, mas uma acusação de uso deliberado desses instrumentos para inflar resultados e sustentar a operação.

A mudança de regra depois do alerta

Outro ponto relevante do depoimento foi a tentativa de associar as denúncias ao Banco Central a uma mudança regulatória posterior. Timerman afirmou que, 29 dias depois da denúncia sobre precatórios, o BC publicou a resolução 346, que passou a dificultar esse tipo de operação ao exigir consolidação nos fundos.

A leitura feita por ele é clara: a mudança não seria prova de rigor preventivo, mas de reação tardia. Em outras palavras, o problema já estaria posto quando a autoridade monetária apertou a regra. Ao mencionar a edição da resolução, Timerman procurou sugerir que o Banco Central já sabia da gravidade do tema, mas só endureceu a norma quando a situação havia avançado demais.

Ele também afirmou que, no âmbito do inquérito policial relacionado à Gafisa, o Ministério Público oficiou o Banco Central em junho de 2024 e que a resposta do órgão teria indicado, em essência, que os fatos já eram conhecidos. Ao usar esse episódio, reforçou a principal linha de sua fala: havia ciência prévia, mas isso não se traduziu em ação suficiente para conter o caso.

O que ele disse sobre a CVM

Se o Banco Central entrou no depoimento como símbolo de reação tardia, a CVM apareceu como alvo de acusações ainda mais diretas. Timerman afirmou que vinha levando à autarquia, desde 2019, informações sobre operações ligadas à Gafisa e a estruturas que, segundo ele, depois reapareceriam no caso Master.

Na linha do tempo apresentada à CPI, um dos marcos decisivos foi um parecer técnico de 22 de novembro de 2022. Segundo o depoente, esse documento já apontava uma série de desvios e recomendava a abertura de inquérito administrativo. Ainda assim, afirmou que o inquérito só foi aberto 473 dias depois.

Esse número foi usado por Timerman para sustentar a tese de que a CVM não apenas soube do problema, mas levou tempo demais para transformá-lo em medida concreta. A crítica, portanto, não ficou restrita ao mérito técnico da fiscalização. Ela recaiu diretamente sobre a demora da autarquia em agir.

O episódio mais ruidoso envolvendo a CVM, porém, foi o relato de uma reunião realizada em 13 de fevereiro de 2023 com o então presidente da autarquia. Segundo Timerman, depois de apresentar o material que vinha reunindo, ouviu a seguinte frase: “Você reclama muito da CVM. Então a gente vai colocar os processos no fundo do escaninho”.

Ao reproduzir a fala, o depoente tentou mostrar que sua relação com a autarquia foi marcada por resistência e desdém, e não por acolhimento institucional. A frase também serviu para reforçar a ideia de que o denunciante foi tratado como incômodo, não como alguém que levava sinais relevantes ao regulador.

Acusação de atraso nas investigações

Timerman elevou o tom ao máximo quando passou a descrever o papel da CVM no avanço do caso. Em um dos trechos mais duros do depoimento, afirmou que a autarquia é “mais culpada” na parte de “não investigar, de bloquear, de mentir para a Polícia Federal”.

A frase é central porque desloca a crítica da mera ineficiência para um plano muito mais grave. Na versão apresentada por ele, a CVM não falhou apenas por lentidão burocrática, mas por não agir, por não bloquear e por atrapalhar a circulação de informações relevantes às autoridades de investigação.

Na mesma linha, Timerman disse que havia um parecer técnico mostrando que, se aquele material tivesse chegado à Polícia Federal com antecedência e recebido a devida atenção, “a gente não teria o Banco Master, como foi”. A frase tem peso político porque condensa sua principal tese: o caso poderia não ter atingido a proporção atual se os alertas tivessem sido tratados com seriedade em tempo hábil.

O depoente também afirmou que a denúncia feita por ele foi vazada e que chegou a ser ameaçado. Disse ainda que a resposta encaminhada pela CVM à Polícia Federal sobre investigações envolvendo Gafisa e Nelson Tanure retardou o avanço das apurações. Na lógica da fala dele, houve mais que demora: houve comportamento institucional capaz de travar o curso da investigação.

Da Gafisa ao Master

Timerman insistiu em conectar as denúncias sobre a Gafisa ao caso Banco Master. Na visão exposta à CPI, a Gafisa teria funcionado como uma espécie de laboratório do método que depois apareceria de forma mais robusta no banco.

Ao fazer essa conexão, ele buscou mostrar que o problema não era um episódio isolado, mas um modelo. Esse modelo, segundo o depoente, envolveria ativos difíceis de rastrear, fundos com camadas sucessivas, estruturas opacas e dificuldades para identificar os beneficiários finais do dinheiro. A consequência disso, na narrativa apresentada por ele, foi a formação de um ambiente em que a supervisão pública ficou atrás dos fatos.

Essa ligação entre Gafisa e Master também serviu para reforçar a crítica à atuação dos reguladores. Se os sinais estavam aparecendo antes, e se havia denúncias desde 2019, então a tese de surpresa regulatória perde força. Foi exatamente esse o raciocínio que Timerman tentou construir perante os senadores.

Um depoimento sobre falha institucional

No fim das contas, o depoimento de Vladimir Timerman foi menos uma peça sobre um banco específico e mais uma denúncia sobre o funcionamento do sistema de fiscalização. Ao mirar o Banco Central na gestão Roberto Campos Neto e a CVM com igual intensidade, ele ofereceu à CPI uma narrativa de omissão, demora e reação tardia.

A estrutura montada por ele é clara. Primeiro, havia denúncias sobre a Gafisa. Depois, surgiram alertas mais diretos sobre o Banco Master. Em seguida, vieram os avisos sobre precatórios e sobre a composição societária em torno do banco. Mesmo assim, segundo o depoente, os órgãos responsáveis falharam em agir quando ainda havia espaço para contenção.

Isso ajuda a explicar por que o depoimento teve impacto político imediato. Ele deslocou o foco da comissão: em vez de discutir apenas quem operou a engrenagem financeira, os senadores passaram a ter em mãos uma narrativa sobre quem viu a engrenagem se formar e, segundo Timerman, não a impediu.

Cronologia do que Timerman disse na CPI

2019
Timerman afirmou que começou a levar à CVM denúncias ligadas à Gafisa e a estruturas que, segundo ele, depois reapareceriam no caso Master.

22 de novembro de 2022
Segundo o depoente, um parecer técnico da CVM já recomendava abertura de inquérito administrativo.

13 de fevereiro de 2023
Timerman disse que se reuniu com o então presidente da CVM e apresentou o material que vinha reunindo. Segundo ele, ouviu que os processos iriam para o “fundo do escaninho”.

Após a reunião de fevereiro de 2023
Segundo sua fala, foi formalizada ao Banco Central uma denúncia apontando que Nelson Tanure era, no mínimo, sócio do Banco Master.

Depois disso
De acordo com o depoente, foi feita uma segunda denúncia ao Banco Central, desta vez sobre a questão dos precatórios.

29 dias após a denúncia sobre precatórios
Timerman afirmou que o Banco Central publicou a resolução 346, dificultando esse tipo de operação.

Junho de 2024
Na narrativa apresentada à CPI, o Ministério Público oficiou o Banco Central no inquérito de Gafisa, e a resposta do órgão reforçaria que os fatos já eram conhecidos.

Esse encadeamento foi usado por Timerman para sustentar, perante a CPI, que o problema avançou não por ausência de alerta, mas apesar dos alertas.

 

 





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