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segunda-feira, 16 fevereiro, 2026
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Defesa da democracia: entre a ousadia e a ingenuidade

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Por Maurício Carvalho*

A democracia carrega um paradoxo: sua força está em abrir espaço ao pluralismo e à crítica, mas é nesse espaço que também germinam ameaças internas. Ao permitir que todos participem, concede a atores dispostos a corroê-la as mesmas ferramentas de quem pretende defendê-la. Esse risco obriga a uma ousadia que pode soar ingênua: a convergência de forças democráticas, da esquerda ao centro e à direita moderada, em defesa de um regime que interessa a todos.

Durante décadas, a divisão entre esquerda e direita parecia clara. O tempo e a realidade borraram fronteiras: a esquerda assimilou disciplina fiscal, a direita incorporou políticas sociais. Muitos viram nisso conveniência, outros evolução dialética. O resultado foi a sensação de crise de representatividade, terreno fértil para a ascensão da ultradireita em vários países. Não se trata apenas de falta de contraste ideológico: populistas corroem instituições mesmo em sistemas sólidos, atacando Justiça, imprensa e eleições.

A resposta não está em reacender antagonismos, embora eles sejam necessários para a representatividade e para os avanços da sociedade. O desafio é blindar a democracia contra quem, sob o pretexto da disputa legítima, busca corroê-la por dentro.

A experiência alemã, após a Segunda Guerra, ilustra esse caminho: a Constituição de 1949 introduziu o princípio da Wehrhafte Demokratie — a “democracia militante”. O artigo 21 autorizou o tribunal constitucional a declarar partidos inconstitucionais quando atentassem contra a ordem democrática. Na prática, o dispositivo foi usado de forma seletiva contra grupos nazistas renascidos e organizações totalitárias, servindo como barreira de autodefesa mais do que como instrumento de repressão. Ainda assim, não é isento de riscos: ao permitir a exclusão de partidos, abre margem para interpretações que, em contextos menos sólidos, poderiam silenciar adversários legítimos. Na Alemanha funcionou porque veio acompanhado de instituições fortes e de uma cultura política marcada pelo trauma do nazismo.

No Brasil, a defesa institucional passa menos pela interdição formal e mais pelo fortalecimento de pilares como Judiciário, imprensa livre, transparência e educação cívica. Como lembrou o ministro Flávio Dino em 2023, “a democracia não tem apenas o direito, ela tem o dever de se defender contra aqueles que querem destruí-la”.

É preciso reconhecer: a tentação autoritária não é monopólio da direita. Projetos de esquerda também sufocaram pluralismos em nome de revolução ou soberania. O risco é transversal. Toda força política que abandona o terreno democrático abre caminho para degenerações, ainda que se proclame emancipadora. Nesse sentido, a união pela democracia não é gesto de pureza, mas cálculo de sobrevivência: em regimes autoritários todos perdem espaço; em democracias todos preservam o campo de disputa.

O centro político, tantas vezes criticado por pragmatismo, mostra como a democracia permite a todos manter influência. Em regimes autoritários, ele tende a ser descartado; em democracias, pode exercer sua vocação de mediador. Mas não é só o centro: em momentos decisivos, esquerda, direita democrática e centro já mostraram capacidade de convergência, como na aprovação da PEC de Transição ou de reformas que dependeram de consensos amplos. O desafio maior, hoje, está no ambiente digital, onde a lógica das redes sociais premia o choque, enfraquece a negociação e favorece extremismos. Por isso, cabe ao campo democrático como um todo buscar formas de regular esse espaço sem censura, mas com garantias mínimas de equilíbrio.

A democracia é a arena que mantém vivo o conflito legítimo entre projetos distintos. Sua vitalidade depende de aceitar antagonismos, mas também de erguer barreiras contra infiltrações autoritárias. A ousadia de propor um pacto entre esquerda, centro e direita democrática pode soar ingênua, mas é numericamente e politicamente possível. Se florescer, não apenas as instituições saem mais fortes: a direita democrática reacende seu brilho histórico, a esquerda reafirma seu caráter republicano e o centro mantém sua vocação de construtor de consensos.

Esse é o caminho para que, apesar de suas fragilidades, a democracia continue sendo o mais robusto dos regimes.

*Publicitário e estrategista de marketing político



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