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domingo, 19 julho, 2026
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De petista a bolsonarista, Rio é disputado por Lula e Flávio

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Por Italo Nogueira e Yuri Eiras

(Folhapress) – No entorno da avenida Governador Leonel de Moura Brizola, via de comércio popular de Duque de Caxias (RJ), não é difícil encontrar antigos eleitores do presidente Lula que aderiram a Jair Bolsonaro (PL) nas últimas eleições.

Vendedor de peças de vestuário no calçadão da cidade, André Paulo da Silva, 48, disse ter votado em Lula uma única vez, em 2002.

“O primeiro mandato dele foi o melhor governo que houve, não tenho dúvidas. O real era valorizado. Mas a estratégia do Bolsa Família é manipuladora. Não tenho raiva do PT, tenho raiva do jeito como ele governa”, afirma.

O comerciante, natural da Paraíba, atribui às gestões petistas a continuidade da migração de nordestinos para o Sudeste.

“Se ele tivesse feito no Nordeste o que ele diz ter feito, seria uma região de primeiro mundo e não teríamos vindo para cá”, afirma Paulo, que mora com mulher e filha em uma favela da cidade.

Ele considera que o eventual retorno de um aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pode tirar o país do que considera uma crise. “Em outubro votarei em quem ele falar [para votar], seja Flávio, seja Michelle.”

A cidade da Baixada Fluminense, segundo maior colégio eleitoral do estado, é um dos símbolos da conversão do Rio de Janeiro de um reduto eleitoral do PT a campo minado para Lula na disputa presidencial que se avizinha com o senador Flávio Bolsonaro (PL).

Em 2002, a cidade deu 86% dos votos válidos para o petista no segundo turno contra José Serra (PSDB), muito acima dos 61% obtidos no país. Em 2006, foram 81% dos votos válidos contra Geraldo Alckmin (à época no PSDB), contra 61% no eleitorado em geral.

Após sucessivas vitórias nas disputas presidenciais, sempre com uma margem cada vez mais estreita, o cenário se inverteu definitivamente em 2018, na primeira disputa contra Bolsonaro. Duque de Caxias deu 66% para o líder do PL e, quatro anos depois, 53%.

A trajetória eleitoral de Duque de Caxias acompanha a do restante do estado, mas com resultados mais amplos. Quem oferece uma explicação para a virada é o ex-prefeito e ex-deputado Washington Reis (MDB), ex-aliado de Lula e, atualmente, um dos apoiadores de Flávio Bolsonaro no estado.

“A gente inaugurou um novo tempo depois da Lava Jato. O Rio de Janeiro tinha uma liderança política toda integrada com o governo, presidência da Alerj, prefeito da capital. Isso fortalecia qualquer candidatura que fosse. […] Depois ficou um barco à deriva. O Bolsonaro, por ser do estado, capturou esse ativo político, que estava órfão”, disse Reis.

A fala de Reis indica três fatores também descritos por especialistas como motivos da “conversão” política do Rio de Janeiro: a origem política de Bolsonaro; o vazio deixado pela Operação Lava Jato no estado, que levou à prisão dos ex-governadores Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão; e a captura de lideranças locais sem uma referência nacional.

“O Rio sofreu política e economicamente com a Lava Jato e esse combo afetou muito a esquerda, a centro-esquerda e os políticos tradicionais, abrindo margem para a extrema-direita”, diz a cientista política Mayra Goulart, coordenadora do Lappcom (Laboratório de Eleições, Partidos e Política Comparada), da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

A cooptação de lideranças foi medida em números pelo Lappcom. Um levantamento do grupo mostra que 70% dos vereadores eleitos em 2024 pelo PL no estado já tinham atuação política anterior.

“Há uma dinâmica de cooptação de elites tradicionais pelo campo da extrema-direita. Eles enfatizam esse alinhamento com a direita, mas depois podem enfatizar outra coisa. A lógica é de controle territorial do poder”, diz Goulart.

O prefeito de Maricá (região metropolitana do RJ), Washington Quaquá (PT), vê a ausência de alianças com lideranças locais como um dos fatores para a perda da hegemonia petista no estado. Vice-presidente nacional da sigla, ele afirma que a aliança com Leonel Brizola, que dá nome à avenida de Duque de Caxias, em momentos da década de 1990 e, posteriormente, com o PMDB liderado pelo ex-governador Sérgio Cabral, foram decisivos nas vitórias de Lula e Dilma Rousseff no estado.

“O PT, enquanto foi um partido na década de 1980 que não fazia aliança, sempre teve 15%, 20% do eleitorado do Rio. Só passou a ter maioria depois que fez a aliança com o brizolismo, que era mais forte na área popular. Depois manteve essas alianças mais amplas com o PMDB”, diz Quaquá.

Na primeira eleição após a redemocratização, em 1989, Lula obteve no estado 73% dos votos válidos no segundo turno, em que foi derrotado por 53% a 47% pelo ex-presidente Fernando Collor.

O petista voltaria a ter folga no Rio de Janeiro em sua primeira vitória, em 2002, quando obteve 79% dos votos válidos dos eleitores fluminenses na disputa contra José Serra (PSDB). Na reeleição, a vantagem no Rio de Janeiro permaneceu, desta vez com nove pontos percentuais a mais no estado (70% contra 61%).

Dilma também contou com o Rio de Janeiro para ampliar sua vantagem. Em 2010, teve 60% dos votos válidos, contra 56% no país. Em 2014, 55% dos eleitores do estado a escolheram, contra 52% no país.

A diferença que vinha se reduzindo se inverteu de forma drástica em 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro. Foram 32% dos votos válidos em Fernando Haddad (PT) no Rio de Janeiro, enquanto o ex-ministro obteve 45% em todo o país.

Mesmo com a vitória de Lula em 2022, o Rio de Janeiro não voltou a ser um estado para construir vantagens. O petista perdeu entre os eleitores fluminenses com 43% dos votos válidos, enquanto teve 51% no país.

Com a prisão de aliados na Lava Jato, o PT precisou contar com quadros mais ligados à esquerda para servir de palanque estadual. Em 2018, a filósofa Márcia Tiburi (PT) teve 6% dos votos válidos. Em 2022, o ex-deputado Marcelo Freixo (PSB) obteve 27% e perdeu no primeiro turno para Cláudio Castro (PL).

Eleições presidenciais no Rio de Janeiro
Eleições presidenciais no Rio de Janeiro (Crédito: Arte/ Folhapress)

Além do esfarelamento das alianças, Quaquá avalia que o PT adotou um programa político mais à esquerda após a Lava Jato. Isso afastou o partido do eleitorado popular onde havia obtido vantagem no Rio de Janeiro, avalia o prefeito.

“Com o impeachment da Dilma, o PT voltou a ser um partido que dialoga estritamente com o eleitorado de esquerda. Um partido que passou a ter um discurso mais identitário do que social. […] Como passou a pautar como prioridade da ação política a questão comportamental, afastou o eleitorado popular que é conservador”, afirma Quaquá.

Peso evangélico

O peso do eleitorado evangélico e sua associação com o bolsonarismo também ajudam a explicar a mudança nos resultados das eleições presidenciais no estado, avaliam especialistas. Dados do Censo 2022 do IBGE mostram que 32% da população de 10 anos ou mais no Rio de Janeiro se declaram evangélicos. O percentual está acima da média de 26,9% no país.

Para o cientista político Antônio Alckmin, além da representação maior, o eleitorado evangélico do Rio de Janeiro sofre influência mais direta das lideranças religiosas que aderiram mais fortemente à atuação política, como Silas Malafaia.

“A entrada das lideranças evangélicas na política vai aflorar mesmo a partir de 2014 e, principalmente, em 2018. A expansão evangélica tem lideranças aqui no Rio como o bispo [Edir] Macedo, o [deputado Marcelo] Crivella e Silas Malafaia”, disse Alckmin.

Ele também aponta a intervenção federal na segurança pública, comandada pelas Forças Armadas em 2018, como componente que ajudou a alavancar o bolsonarismo no estado.

“O Rio de Janeiro tem a emergência do movimento evangélico, do bolsonarismo, do militarismo, de todos esses valores. É um combo”, afirma.

Quaquá avalia que Lula tem condições de retomar a preferência do estado a partir da aliança com Eduardo Paes (PSD) e o foco na pauta social. O PT também aposta na fragilização dos palanques de Flávio, com a prisão de aliados do senador, e a atuação do governador interino, o desembargador Ricardo Couto, com auditorias sobre a gestão Castro.

O ex-deputado Washington Reis, que apoia Flávio Bolsonaro para a Presidência e Eduardo Paes para o governo, diz que o principal fator para vencer no Rio de Janeiro é a economia. Ele vê limites na mobilização religiosa.

“A máquina tem muito poder para capturar voto. Tem que entregar. O povo está com custo de vida alto e com poder de compra baixo. Isso traz uma irritação ao eleitorado”, afirma Reis.

Vendedor de bolsas e mochilas na avenida Governador Leonel de Moura Brizola, Abraão Denis, 42, também paraibano, foi eleitor do PT em 2022 e 2006. Ele credita o sucesso bolsonarista em Duque de Caxias à influência de pequenos e médios empresários locais e ao perfil conservador e religioso de parte da cidade.

“Não entendo de política, mas a minha visão da rua é a de que o Bolsonaro aqui ganha porque o PT respeita pouco a Bíblia. […] É difícil confiar em alguém, mas talvez o Bolsonaro desse mais certo. Uso essa área de comércio como exemplo: lojistas pagam muito imposto e vemos muita loja fechando. Dentro de casa é outro problema: gasto ao menos R$ 80 só numa ida ao supermercado para comprar produtos para um jantar simples com a família.”

 





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