Estive uma única vez em Cuba, era o ano de 2013. Aos trinta anos de idade, acompanhado por amigos de longa data, partilhávamos o sonho juvenil – mas nem por isso menos sério – de ver de perto a revolução de Che, Fidel e Camilo. Foram quinze dias cruzando a ilha, de ponta a ponta, absorvendo uma paisagem que desafiava nossas concepções de mundo. Em Havana, a sensação não era apenas a de uma cidade recém-saída da década de 1960, era a constatação de uma beleza ferida, cujas casas ecléticas, prédios e construções pareciam existir em uma ruína constante. Foi ali, caminhando pelos arredores do Malecón, que constatamos pela primeira vez, na concretude do asfalto esburacado e nas fachadas descascadas, a materialidade do bloqueio criminoso imposto pelos Estados Unidos. A geopolítica deixava de ser abstração acadêmica para se tornar o reboco que caía, o motor que tossia, a vida que teimava em continuar.
Mas o fato é que o tempo, naquela ilha, parecia suspenso. Não era o tempo do Capital, não era o tempo do frenesi do consumo que nos adoece nas metrópoles latino-americanas. Era um tempo outro, cuja arquitetura flutuava num outro lugar, numa heterotopia, para usar o conceito consagrado por Michel Foucault. Cuba era, e ainda é, esse “espaço outro” que convive no espaço instituído global, um contra-espaço que subverte a lógica hegemônica do lucro pelo lucro. Lembro como se fosse hoje: alugamos dois carros e saímos de Havana, tomando a Carretera Central rumo a Trinidad. A estrada, rasgando o verde caribenho, era um convite à reflexão.
Uma vez em Trinidad, aos pés das montanhas de Escambray, conversamos com o camponês Rafael. Com seus mais de setenta anos, charuto na boca, bigode aprumado, olhar melancólico, mas obstinado, morador das montanhas. Com uma lucidez cortante, contou-nos que a mãe havia participado da Revolução, e que ele, naquele dia, descia as montanhas apenas para vender mangas e limões, e com os pesos no bolso, comprar um novo par de sapatos. Havia uma dignidade indescritível naquela transação, despida da neurose acumulativa do capitalismo tardio. E depois, Camagüey. Muito da paisagem ali nos remetia imediatamente ao interior do Brasil: as construções simples, o casario térreo, a vida despojada de artifícios. Encontramos um povo que, mesmo cercado pelas agruras do bloqueio, andava atrás de esperança. Olhavam-nos com uma curiosidade genuína: “Espanhóis? Italianos?! Brasileñooooossss!” E faziam festa ao constatar nossa nacionalidade, numa demonstração de solidariedade latino-americana que transcende as fronteiras desenhadas pelos impérios.
Uma vez do outro lado da ilha, chegávamos a Santiago de Cuba. O povo era outro, o rum era outro. Era uma cidade profundamente africana, vibrante, onde os tambores pareciam ecoar a ancestralidade que nos une. Ali, ouvimos histórias de Guantánamo – a famigerada base militar encravada como uma ferida aberta no território soberano -, histórias de Fidel, dos combates na Sierra Maestra. A revolução, em Santiago, não era um fato de museu, mas uma narrativa viva, contada pelas esquinas, suada nas testas.
De volta à estrada, iniciando o longo retorno para Havana, a parada em Santa Clara foi inevitável. O mausoléu e o monumento a Che Guevara impõem um silêncio reverencial. Ali, diante da figura de bronze do guerrilheiro heroico, a carta de despedida a Fidel ecoava em nossas mentes: “Sinto que cumpri a parte do meu dever que me atava à Revolução cubana em seu território e me despeço de ti, dos companheiros, de teu povo, que já é meu”. A causa revolucionária materializada naqueles nichos de pedra nos lembrava que a história é feita por homens e mulheres de carne, osso e uma inabalável convicção.
Hoje, treze anos após aquela viagem, o cenário global se contorce em espasmos de autoritarismo. A atual investida criminosa de Donald Trump contra Cuba – retomando a Casa Branca com a truculência de quem se acha dono do mundo – não é apenas um aperto no torniquete, é uma tentativa deliberada de asfixia final. O bloqueio petrolífero imposto em 2026, que lançou a ilha em apagões generalizados e agravou uma crise humanitária sem precedentes, revela a face mais cruel e didática do imperialismo. Quando Trump vocifera que seria “uma grande honra tomar Cuba” e que “pode fazer o que quiser com ela”, ele não fala apenas como um presidente, mas como o feitor de um engenho global que não admite a insubordinação.
A política de “pressão máxima”, com suas centenas de sanções, tenta dobrar pelo estômago e pela escuridão um povo que não se dobrou pelas armas. O aumento da mortalidade infantil e a queda na expectativa de vida são os danos colaterais calculados, e desejados, por Washington. É a guerra econômica travada contra civis, um crime de lesa-humanidade disfarçado de diplomacia.
Contudo, Cuba ainda representa uma história inteira de resistência, das profundezas do século XX adentrando as incertezas do século XXI. Como afirmou recentemente o diretor de um hospital em Havana, no meio da escuridão dos apagões: “Há pessoas contra a revolução. Mas há muito mais de nós que somos a favor. E não temos medo”. Que o povo cubano – junto aos demais povos solidários do mundo, como o Brasil que envia toneladas de mantimentos furando o cerco da miséria – possa resistir, ainda mais uma vez, às investidas criminosas do império. A ilha não é apenas um pedaço de terra no Caribe; é a prova viva de que, mesmo sob o cerco mais brutal da história contemporânea, a dignidade humana não se rende, não se vende e, sobretudo, não se apaga.






