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segunda-feira, 27 abril, 2026
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Crise na inteligência trava caso Ramagem e expõe fragilidades, dizem servidores

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Por Cleber Lourenço

 

A crise envolvendo Alexandre Ramagem nos Estados Unidos escancarou um problema que já vinha sendo tratado em reservado dentro do governo: a desorganização da inteligência brasileira e seus efeitos diretos na capacidade do país de atuar fora de suas fronteiras.

Condenado pelo Supremo Tribunal Federal e considerado foragido, Ramagem foi detido por autoridades migratórias americanas, sendo liberado por ordem do próprio governo dos EUA horas depois. A medida travou qualquer solução imediata e transformou o caso em um impasse jurídico e diplomático.

Nos bastidores, integrantes da área de inteligência afirmam que o episódio não é isolado, mas consequência de uma sequência de decisões consideradas erráticas na condução da política de inteligência.

“Crise atrás de crise, incidente diplomático atrás de incidente diplomático”, resumiu um servidor ouvido pela reportagem.

O principal foco de tensão está na relação entre a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e a Polícia Federal (PF). Segundo relatos, houve uma inversão de papéis, com estruturas policiais ocupando espaços típicos da inteligência de Estado.

“O governo aceita prescindir voluntariamente de uma inteligência de Estado, utilizando de forma paralela um serviço de inteligência policial, e sem avaliar os reflexos disso”, afirmou um integrante da área.

Na prática, isso se traduz no uso crescente de adidos da Polícia Federal no exterior para funções que, historicamente, são atribuídas à Abin.

“O diretor-geral da Polícia Federal [Andrei Rodrigues] se esforça diuturnamente para invadir competências da Abin no exterior mediante uso de adidos policiais. Mas é uma atuação completamente amadora e sem finalidade pública de Estado”, disse um dos servidores.

Segundo essas eles, essa mudança compromete a capacidade de atuação estratégica do Brasil fora do país. “Um delegado da Polícia Federal não tem, nem de perto, competência para isso”, afirmou outro servidor.

A crítica se estende à forma como o Brasil tem se posicionado diante de parceiros internacionais, especialmente os Estados Unidos.

“A leitura que os americanos têm é de uma relação assimétrica. Eles estão em posição de vantagem, com acesso direto a órgãos que lidam com temas internos e capacidade de influenciar assuntos brasileiros”, disse.

Um episódio recente é citado como simbólico dessa mudança: a visita de autoridades americanas ao Brasil, que priorizaram interlocução com a Polícia Federal, e não com a Abin. “O diretor americano não veio visitar a Abin. Preferiu visitar o DPF, que não é seu contraparte”, afirmou um integrante.

Para servidores da área, o gesto envia um recado claro sobre o papel secundário que a inteligência brasileira passou a ocupar. “No sentido contrário, o Brasil claramente não tem qualquer capacidade de influenciar o que ocorre dentro dos EUA”, completou.

Outro caso citado envolve o vazamento de informações relacionadas a investigações que passaram pela cooperação internacional.

“O vazamento do caso do Paraguai criou um problema diplomático por descuido no tratamento das informações. A resposta do governo foi amadora”, afirmou um servidor.

Segundo os relatos, há uma quebra de protocolos básicos da atividade de inteligência. “Nunca um serviço de inteligência pode assumir autoria de operação no exterior”, disse.

No caso específico de Ramagem, a avaliação interna é de que a condução do episódio agravou uma situação que já era delicada.

“Agora o problema é a situação migratória de Ramagem, problema que eles mesmos criaram quando permitiram que ele fugisse pela fronteira”, afirmou um interlocutor.

A atuação posterior, ainda segundo esses relatos, teria ampliado o desgaste.

“Ramagem era um foragido. Depois da atuação externa, virou refugiado”, disse.

Há também críticas à forma como o caso foi explorado no cenário internacional.

“Tomaram um olé de propaganda e contrapropaganda”, afirmou um integrante, em referência à forma como o episódio ganhou contornos políticos fora do país.

Além da disputa entre Abin e PF, servidores apontam que o governo tem adotado uma postura reativa e pouco estruturada na área de inteligência. “O governo tem sido levado a reboque em todos os temas de inteligência. Não é prioridade”, disse.

Segundo esses relatos, há desinteresse em acompanhar projetos e informações estratégicas produzidas no âmbito do Sistema Brasileiro de Inteligência.

“Quando um projeto é pautado no Congresso, o governo paga de surpreendido. A verdade é que não querem acompanhar”, afirmou.

A crítica também recai sobre o uso político do tema. “Inteligência para eles é só discurso, para dizer que tem alguma coisa sendo feita por trás”, disse.

Mesmo com limitações estruturais, servidores afirmam que a produção de inteligência continua existindo, mas não é incorporada ao processo decisório.

“A inteligência pode até estar desmontada, sem recursos, sem leis, sem pessoas, mas ainda está lá. A raiz do problema sempre foi o desinteresse no que é recebido do Sisbin”, afirmou.

A consequência, segundo esses relatos, é um ciclo recorrente de crises.

“Toda hora tem uma crise porque dizem que faltou inteligência ou que a inteligência falhou”, disse.

No caso de Ramagem, o resultado é um impasse que ultrapassa a esfera judicial e expõe fragilidades estruturais do Estado brasileiro para lidar com situações complexas no cenário internacional.

Na leitura dos agentes da ABIN escutados pela reportagem, o diagnóstico é direto: há uma desinstitucionalização das atividades de inteligência no país sem uma hierarquia clara ou protocolos estabelecidos.

Mais do que recursos, os servidores da ABIN entendem que é fundamental que seja aperfeiçoado os dispositivos elgaisi que regem as atividades de inteligência no Brasil e exista uma preocupação em salvaguardar essas atividades de interesses políticos de momento.





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