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quarta-feira, 11 fevereiro, 2026
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Crime avança sobre a política e se infiltra no Ceará com ameaças a eleitores e candidatos

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Por João Pedro Pitombo

(Folhapress) – José Braga Barroso, o Braguinha (PSB), subiu ao palco, colocou no rosto os óculos tipo juliet e dançou um de seus jingles fazendo um coração com as mãos. Reeleito prefeito de Santa Quitéria (220 km de Fortaleza) em outubro de 2024, ele fez uma grande festa para celebrar a vitória, com participação de três bandas de forró.

Dois meses e meio depois, Braguinha tomaria posse para iniciar seu segundo mandato após uma campanha marcada por tensões, denúncias e um clima de violência política. Mas horas antes da cerimônia o prefeito foi detido pela Polícia Federal, que cumpria um pedido de prisão preventiva.

A suspeita era de envolvimento da facção Comando Vermelho nas eleições do município cearense de 40 mil habitantes.

A atuação da facção, que tem origem no Rio de Janeiro e vem ganhando espaço no comércio de drogas no Ceará, vinha sendo monitorada pela Polícia Civil. A investigação apontou para uma suposta influência do grupo criminoso nas eleições, por meio de ameaças a opositores. A defesa do prefeito nega.

 Crime avança sobre a política e se infiltra em eleições no Ceará com ameaças a eleitores e candidatos
José Braga Barroso, o Braguinha (PSB)

Não foi um caso isolado. Em ao menos seis cidades do Ceará foram registradas suspeitas de infiltração de facções nas eleições de 2024, com casos de coação a eleitores e ameaças. O cenário acendeu o alerta das autoridades para o avanço do crime organizado sobre a política institucional.

“Essa é uma das nossas maiores ameaças democráticas porque significa a tomada do aparato de Estado para rentabilidade das organizações criminosas”, avalia o deputado Renato Roseno (PSOL), presidente do Comitê de Prevenção e Combate à Violência da Assembleia Legislativa do Ceará.

As investigações em Santa Quitéria indicaram que um membro do Comando Vermelho teria atuado em favor da campanha de Braguinha, com ameaças a apoiadores da oposição. A orientação era pichar casas, destruir carros e motos que tivessem adesivos do adversário. No mesmo período, servidores da Justiça Eleitoral da cidade foram ameaçados.

O prefeito reeleito foi solto, mas acabou cassado em maio de 2025. Os quiterienses voltaram às urnas em outubro em eleição suplementar e elegeram o filho de Braguinha, Joel Madeira Barroso (PSB), em uma disputa que mobilizou os principais caciques políticos do estado.

Na época da cassação, em maio de 2025, a defesa do prefeito emitiu uma nota na qual negou qualquer ligação de Braguinha com o crime organizado: “A defesa mantém plena confiança na Justiça Eleitoral e acredita, com firmeza, na improcedência das acusações.”

Em Potiretama (282 km da capital), o então prefeito Luan Dantas (PP) foi preso preventivamente em maio sob suspeita de ter encomendado um incêndio criminoso contra a propriedade de um desafeto.

O crime teria sido executado por homem ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital), facção com origem em São Paulo. Na época, a defesa de Dantas negou as acusações e falou em “insuficiência de fundamentos” para decretar a prisão e em ilegalidades na investigação.

Dantas e sua vice foram cassados em outubro pela Justiça Eleitoral, mas por abuso de poder político nas eleições, caso sem relação com o crime pelo qual o prefeito foi preso e é investigado. Uma eleição suplementar está prevista para março.

Na cidade de Iguatu, o prefeito Roberto Filho (PSDB) foi indiciado e chegou a ser cassado por abuso de poder político e econômico com o suposto apoio de um chefe de facção. Ele sempre negou as acusações e conseguiu reverter a cassação na Justiça Eleitoral.

A Polícia Federal ainda investiga um vereador em Martinópole (208 km de Fortaleza) por suspeita de compra de votos e associação a facção criminosa.

Em outros casos, não houve suspeitas sobre os candidatos, mas a campanha foi marcada por violência e intimidação associada às facções. Foi o caso de Sobral, cidade tida como modelo para o país em alfabetização e primeiros anos do ensino fundamental.

Na disputa pela prefeitura em 2024, Oscar Rodrigues (União Brasil) e Izolda Cela (PSB) reclamam de não terem conseguido entrar em bairros após recados de supostos intermediários de facções. Cela, que foi governadora do Ceará em 2022, chegou a receber ameaças pela internet.

Casos semelhantes de coação eleitoral foram registrados em Fortaleza, onde um suplente de vereador foi cassado em agosto após ameaças a adversários. Em Caucaia, na região metropolitana, uma investigação resultou na prisão de 40 pessoas por ameaças e intimidações na campanha.

Em algumas cidades, as pressões de grupos criminosos aconteceram durante a gestão, em episódios que beiram o inverossímil. Em Santa do Acaraú, a prefeitura recebeu mensagens com supostas ameaças de uma facção criminosa por meio do site oficial da Ouvidoria.

O secretário estadual de Segurança Pública, Roberto Sá, avalia que a influência do crime organizado nas eleições precisa ser combatida de forma rigorosa e célere por todos os poderes. Sá defende que sejam estabelecidos mecanismos para prevenir candidaturas ligadas ao crime.

“A presença desses grupos criminosos atuando no tráfico de drogas ou nas extorsões já é nefasta por si só. Mas quando eles conseguem essa penetração em ambientes formais, tudo fica muito mais nebuloso e perigoso. Você não consegue saber quem são as pessoas, em quem você pode confiar”, afirma.

Para afastar as facções da política, o deputado Renato Roseno defende ações de transparência partidária, incluindo maior publicidade na gestão dos fundos partidário e eleitoral, regras claras para distribuição das vagas nas chapas proporcionais e filtros mais rigorosos para filiações aos partidos.

O PSB do Ceará instaurou uma investigação no Conselho de Ética para apurar a conduta do ex-prefeito Braguinha.



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