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Na manhã desta quarta-feira (15), Dia Mundial da Alimentação, foi realizado em Porto Alegre um ato em defesa das Cozinhas Solidárias, com o objetivo de reivindicar reconhecimento institucional e a garantia de investimentos permanentes em políticas de combate à fome e promoção da segurança alimentar.
A concentração começou por volta das 9h, na Praça da Matriz, em frente ao Palácio Piratini. No local, manifestantes pediram que o governador do Estado do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, recebesse uma comissão representando as cozinhas e os movimentos populares, a fim de ouvir suas demandas. Entre os grupos presentes estavam o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Levante Popular da Juventude, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Ação da Cidadania, o Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), o Movimento Brasil Popular e a União Nacional por Moradia Popular (UNMP), entre outros.

O ato ocorre poucos dias após a interdição da Cozinha Solidária da Azenha, administrada pelo MTST, em uma ação conjunta da Guarda Municipal, Vigilância Sanitária, Corpo de Bombeiros e CEEE Equatorial. A medida gerou indignação entre movimentos populares e organizações sociais, que denunciam a falta de diálogo do poder público e o desmonte de iniciativas que atuam diretamente no enfrentamento à fome.
“Sexta-feira passada, nós estávamos cozinhando, às 10 horas, quando chegou a Guarda Municipal com um grande efetivo armado para parar a cozinha solidária, colocaram em risco 800 refeições de 800 pessoas que receberiam alimentação naquele dia”, relatou Fernando Campos, coordenador do MTST e da Cozinha Solidária da Azenha.

Leonardo Rodrigues, da Central Única dos Trabalhadores e da Central de Abastecimento das Cozinhas Solidárias (CECOSOL), reforçou a importância de repasse de recursos que garantam a continuidade das ações. “O ato de hoje, além de celebrar o trabalho das cozinhas, visa exigir dos poderes públicos que executem esses recursos todos para os pontos populares e que invistam, sobretudo, na manutenção das cozinhas como dispositivos de segurança alimentar e nutricional. E que coloquem em jogo o que pode ser feito em relação à luz, ao gás, a outras despesas das cozinhas e que possa ser coberto com o dinheiro dos nossos impostos. Afinal, as cozinhas estão cumprindo um papel que é prioritariamente do Estado, que é o de garantir os direitos constitucionais.”

Patrícia Bargmann, coordenadora da Ação da Cidadania, criticou a forma como a Vigilância Sanitária tem agido: “Não queremos que fechem as nossas cozinhas. Fecharam a cozinha da Azenha, arrumaram um porquê para fechar lá. A gente já sabe que tem cozinha sendo vistoriada. Precisamos de uma legislação mais flexível. A Vigilância Sanitária não pode bater nas cozinhas como se fossem restaurantes”, enfatizou. “Nós não comercializamos alimento. Nós trazemos para a população amor e esperança em forma de alimento.”

Geisa Soares, do MAB, que coordena uma cozinha solidária na Lomba do Pinheiro e esteve à frente da cozinha solidária durante as enchentes no Sindipreto, destacou a função essencial desses espaços: “É para garantir comida no prato do brasileiro. O povo merece se alimentar. As cozinhas que sustentam o povo, que alimentam o povo, né?”

Lucas Gertz, do Levante da Juventude, defendeu que é preciso que o poder público reconheça a importância social dessas iniciativas: “Hoje aqui é um dia importante para que a gente faça mais pressão sobre o poder público, para que ele execute e formule políticas públicas que atendam as cozinhas e, sobretudo, o público beneficiário das cozinhas, que é a população pobre, periférica, de Porto Alegre e de outras cidades. Cozinhas solidárias não servem só para momentos de emergência. As cozinhas solidárias são aparelhos que garantem que a gente tenha a possibilidade de combater a fome, mas, sobretudo, de ser espaço de acolhimento, de ser espaço de socialização, de ser um espaço de organização, para que a gente possa realmente mudar os rumos da nossa história.”

Tomaz Brunet, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), destacou que boa parte das cozinhas é movida por mulheres: “A gente está aqui hoje num dia de luta. A realidade das cozinhas solidárias é uma realidade muito dura. Hoje, no Rio Grande do Sul, a gente tem mais de 200 cozinhas solidárias. São, majoritariamente, mulheres, companheiras, que se dedicam a um trabalho voluntário, a combater a fome e a insegurança alimentar nas nossas comunidades. É um trabalho fundamental e que precisa ser apoiado tanto pelo Estado quanto por todo o mundo da sociedade”.

Por remuneração das cozinheiras voluntárias
Tia Lúcia, da Cozinha Força e Coragem, enfatizou que o desejo das cozinheiras não é mais depender da luta diária por comida, mas garantir um direito fundamental: alimentar o próximo. “Eu não quero mais isso. Eu já tô com uma idade que eu digo assim: eu vou parar de reivindicar comida… Quero um direito que eu tenho e que todo o povo tem, todas as cozinhas têm: o direito de alimentar o próximo”, desabafou.

Cristiane de Oliveira, da Cozinha Prato Cheio, reforçou a necessidade de reconhecimento e de apoio, destacando a importância de recursos para manter as refeições e oferecer algum suporte às voluntárias, incluindo remuneração. “A gente veio buscar o reconhecimento das cozinhas solidárias, a ajuda que a gente precisa. Estamos vendo os recursos para a gente manter as refeições, a ajuda de gás que a gente não tem na cozinha, o reconhecimento das voluntárias, com a ajuda talvez de uma verba para os voluntários da cozinha.”

No mesmo sentido, Nádia Meirelles, do Coletivo Periferia Feminista, apontou que as periferias enfrentam grande escassez de alimentos e que seria necessário aumentar o aporte de recursos estaduais para garantir a quantidade de comida necessária nas cozinhas comunitárias. “As periferias estão com muita necessidade de alimento, e queremos que o nosso governador tenha mais uma renda para poder dar mais quantidade de alimento para as cozinhas das periferias de Porto Alegre.”
O Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD), representado por Kellen Moura, também chamou a atenção para os desafios estruturais enfrentados: “É preciso que a gente tenha recurso pra ter o aluguel, pra gente ter os materiais, tudo conforme a lei diz. E faz muita falta pra gente, porque a gente antes atendia cinco dias na semana, agora a gente tá atendendo só três, e a gente tá vendo que vai ter que reduzir mais ainda.”

Ângela Comunal, da Associação Mulheres Maria da Glória, destacou: “A importância desse ato pra nós hoje é reivindicar uma política específica para as cozinhas comunitárias solidárias.”

Alexandre Cordeiro Figueira, da Cozinha Solidária Olùfé e do Movimento Brasil Popular, destacou: “Este ato é muito importante pra gente garantir a segurança alimentar, pra gente garantir os nossos direitos e o direito de alimentar a nossa comunidade”

A mobilização das cozinhas solidárias recebeu o apoio de outras categorias, como é o caso do Movimento Nacional de Auto-organização de Catadoras e Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR): “Estamos aqui hoje, enquanto categoria, nos solidarizando com as cozinhas comunitárias, que, no momento em que a gente mais precisou — foi durante as enchentes —, foram elas que nos deram suporte. Poder público, ninguém mais nos ajudou tanto quanto as cozinhas comunitárias. Então, as catadoras e catadores hoje estão aqui dando apoio a esse movimento das cozinhas solidárias pela sobrevivência e pela manutenção dos seus projetos”, disse Maninha Medeiros, integrante do MNCR e da Frente Parlamentar dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (FRECATA).
O ato em defesa das cozinhas solidárias seguiu em caminhada até a frente da Câmara de Vereadores de Porto Alegre (CMPA), mas os participantes se depararam com o prédio fechado para o público. A coordenação do movimento tentou negociar a entrada para entregar uma carta com as demandas das cozinhas solidárias a Artur Lemos, chefe da Casa Civil. Enquanto as negociações estavam em andamento, foi realizado um marmitaço em frente à Câmara, por volta do meio-dia.

Portões fechados
De acordo com os vereadores e deputados presentes, os portões fechados foram uma decisão da presidente da CMPA, a vereadora Comandante Nádia, que optou por barrar a entrada da população.

O vereador Alexandre Bublitz (PT) destacou a relevância das cozinhas solidárias, especialmente em momentos de emergência, como a pandemia de Covid-19 e as enchentes que afetaram Porto Alegre: “Hoje é o Dia Mundial da Alimentação, e a gente sabe o quão importantes as cozinhas solidárias foram para tirar o Brasil do mapa da fome. As cozinhas aqui em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, tiveram um papel fundamental, sobretudo durante a Covid e depois durante as enchentes. O que a gente está precisando são políticas públicas para apoiar esse tipo de ação, onde a gente possa ter o reconhecimento dessas cozinhas com infraestrutura, com pagamento de gás, com alimento de qualidade e também com remuneração dessas agentes, dessas cozinheiras que vêm fazendo tanto hoje pelo nosso país.”

A vereadora Juliana de Souza (PT), reforçou a importância da mobilização das cozinhas comunitárias em Porto Alegre e destacou o papel dessas iniciativas na luta contra a fome. Segundo ela, os participantes do ato são protagonistas de um processo que ajuda a retirar o Brasil do mapa da fome, fortalecendo tanto a atuação no campo quanto nas cidades. Souza afirmou:
“Quero primeiro dar parabéns por essa grande mobilização de vocês. Nós estamos numa semana tão importante, e a gente sabe que vocês são protagonistas da construção desse processo de retirar de novo o nosso país do mapa da fome, a partir das cozinhas, a partir da luta do campo e da cidade pela segurança alimentar e pelo combate à fome.”

A vereadora também fez um alerta sobre medidas autoritárias tomadas pela presidência da Câmara, que restringiram o acesso da população ao prédio a partir das 11 horas da manhã. Souza enfatizou que essas ações não estavam diretamente ligadas à mobilização das cozinhas, mas sim às votações em andamento, e defendeu a necessidade de articulação entre os movimentos sociais para que as pautas sejam defendidas de forma conjunta. Souza destacou ainda a importância de proteger trabalhadores e comunidades afetadas por decisões políticas. Em suas palavras:
“Nós vamos votar, no início da sessão, o código que criminaliza os catadores e catadoras da nossa cidade. Muitas de vocês são também catadores e catadoras. Assim como a Tia Lúcia, cuja cozinha, inclusive, é construída por trabalhadores da reciclagem, nós temos vários outros. Da mesma forma, o projeto de privatização do Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE) afeta a vida de todos e todas que estão aqui e de todas as comunidades da nossa cidade. Por isso, essa é uma luta nossa.”

O vereador Giovani Culau (PCdoB) criticou o fechamento da Câmara e a postura autoritária da presidência:“Nenhum vereador ou vereadora da casa sabia que, ao vir aqui receber vocês, nós encontraríamos os portões da Câmara fechados. A presidente da casa se utiliza da presidência para exercer autoritarismo, perseguição política, arbitrariedades. E o nosso apelo é qual? Nós queremos que vocês entrem, nós queremos que a comitiva possa executar a tarefa e a missão que elaborou, mas que a gente possa, juntos, denunciar o absurdo conduzido pela Nádia na presidência da Câmara, que tenta impedir o povo de entrar na casa que eles dizem ser do povo.”

A deputada estadual Laura Sito (PT) também denunciou o ato de fechamento da Câmara e ressaltou o papel das cozinhas comunitárias na garantia de refeições para pessoas em situação de vulnerabilidade:
“Chegando à Câmara de Vereadores de Porto Alegre, mais uma vez encontramos a Casa do Povo da cidade fechada, de maneira autoritária, pela presidenta Nádia. Num dia tão importante, em que vai ser votada a questão da criminalização dos catadores da cidade, em que o prefeito vai vir entregar o projeto de privatização do DMAE, que vai entrar em pauta. E aqui na frente, o movimento social está chegando, as cozinhas comunitárias, aqui na frente da Câmara, porque a cozinha da Zenha está sendo criminalizada. Querem que ela pare de entregar cerca de mil refeições que são distribuídas diariamente para pessoas em situação de vulnerabilidade, pessoas em situação de rua. Um instrumento tão potente no combate à fome e à insegurança alimentar em Porto Alegre, que sobrevive pela solidariedade do povo trabalhador. É exatamente isso: a Casa do Povo de costas para a população de Porto Alegre, onde nem eu, deputada, posso acessar a casa para acompanhar os debates, tampouco a população da cidade, que está aqui sentada do lado de fora.”

O deputado estadual Leonel Radde, também lamentou a situação e reforçou que a Câmara pertence ao povo:“É uma lástima que a Câmara Municipal de Porto Alegre, da qual eu já fiz parte, não permita que o povo ocupe a Casa do Povo. Não pertence a nenhum partido, não pertence a nenhuma vereadora, não pertence a nenhuma instituição privada — pertence ao povo de Porto Alegre.”
“Várias pessoas, incluindo idosos e crianças esperando no sol pra entrar, sem acesso à água ou banheiros”, comentou a vereadora Natasha Ferreira, líder do PT na Câmara. Para Ferreira, é “assim que a extrema direita trata o povo em Porto Alegre”.
Para Grazi Oliveira (PSOL), a luta das cozinhas solidárias está diretamente ligada aos direitos dos catadores e ao acesso à água, ressaltando a importância da coletividade:
“Quero saudar a luta, principalmente, pela importância que as nossas cozinhas têm pra nossa cidade. A luta pelas cozinhas é a mesma luta dos catadores e a mesma luta pela água. Por isso, precisamos de coletividade. Nós queremos que todos acessem a Câmara de Vereadores.”
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Fonte: Brasil de Fato



