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segunda-feira, 9 março, 2026
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Contrariando portaria da PM, Igreja Universal atua irregularmente em quartéis do Paraná

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Por José Pires — Jornal Plural Curitiba

A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) tem um programa chamado Universal nas Forças Policiais (UFP). Por meio dele, todos os dias, pastores – também chamados de capelães – visitam quartéis das polícias militares, do corpo de bombeiro, das guardas municipais e de outras forças de segurança em todo o país, incluindo o estado do Paraná.

Sob a justificativa de levar “assistência espiritual” a agentes de segurança pública, os pastores realizam cultos e distribuem bíblias a policiais, bombeiros e guardas municipais todas as manhãs. Os representantes da igreja também participam de solenidades oficiais e recebem agentes de segurança para homenagens e atos religiosos nas sedes da Universal.

No entanto, segundo a Diretoria de Gestão de Pessoas da Polícia Militar do Paraná, não existem capelães voluntários da Igreja Universal cadastrados no serviço de capelania. O cadastramento é condição para a atuação de religiosos como capelães nos quartéis da PM e do Corpo de Bombeiros, segundo portaria publicada em 2019.

Mesmo atuando irregularmente, segundo policiais e bombeiros ouvidos pelo Plural, a Igreja Universal do Reino de Deus conseguiu, aos poucos, se incorporar à rotina dos quartéis das forças de segurança do Paraná como se fosse “parte das corporações”.

Levantamento feito pelo Plural nas redes sociais do programa Universal nas Forças de Segurança do Paraná (UFP-PR) revela que os capelães da igreja estiveram, durante 2025, pelo menos 145 vezes em quartéis de diversas cidades paranaenses. No entanto, policiais ouvidos pela reportagem afirmam que o número de visitas é muito maior, ultrapassando 1.000 apenas no ano passado.

Segundo as publicações das redes sociais do UFP-PR, Curitiba é a cidade onde as forças de segurança pública mais receberam os pastores da Universal, e os batalhões mais visitados foram o 13º Batalhão de Polícia Militar e o de Patrulha Escolar Comunitária (BPEC).

Sob a condição de anonimato, o Plural ouviu policiais militares e bombeiros de Curitiba e Região Metropolitana. Eles revelam que os pastores da Universal têm livre acesso aos quartéis. A presença da igreja seria diária e sempre durante as passagens de serviço das tropas. Essa troca de plantão segue alguns ritos oficiais como a inspeção das viaturas, a formação da tropa, o hasteamento da bandeira, entre outros.

E é nesse momento que os capelães da Universal realizam orações. Essa presença, segundo policiais, já teria se incorporado, extraoficialmente, aos ritos diários das trocas de plantão. “Todo dia eles estão em diversos quartéis na passagem de serviço. Além dos ritos oficiais, existem também as orações e muitas vezes a entrega de bíblias. Parece que são parte da corporação, um absurdo”, reclama um policial.

Segundo as fontes, durante a troca de plantão os policiais são abordados para as orações e às vezes para cultos. São agentes que estão terminando seu turno – que ainda estão em serviço – e também aqueles que já poderiam estar trabalhando, fazendo patrulhas e atendendo ocorrências, por exemplo.

Políciais reunidos para momento de oração promovido pela IURD. Foto: Reprodução Facebook UFP-PR
Políciais reunidos para momento de oração promovido pela IURD. Foto: Reprodução Facebook UFP-PR

Nem todo quartel é frequentado todos os dias, mas há aqueles que são visitados mais de uma vez na semana. “Tem batalhão dos Bombeiros que é visitado três vezes na semana. Aí você soma os batalhões da PM, as companhias e as delegacias da Polícia Civil em todo o estado. São milhares de visitas todos os anos”, afirma um bombeiro.

A Polícia Militar do Paraná tem 31 batalhões. Se cada um fosse visitado pela Igreja Universal uma vez por semana, já seriam quase 1.500 visitas no ano. Mas a PM também tem diversas companhias e unidades especializadas. Além disso, existem os batalhões e unidades do Corpo de Bombeiros, as delegacias da Polícia Civil e as sedes das Guardas Municipais que estão presentes em cerca de 39 cidades do estado.

Sob a bênção dos comandantes

O Plural fez um pedido de informação, via Lei de Acesso à Informação (LAI), para a PM do Paraná solicitando dados sobre a atuação dos capelães da Universal nos quartéis da corporação. Na resposta, a Diretoria de Gestão de Pessoas da PM destacou que “conforme a Portaria do Comando-Geral nº 1224, de 13 de dezembro de 2019, que regula o Serviço de Assistência Religiosa e as atividades de Capelania no âmbito da Polícia Militar do Paraná, o CAB não possui atualmente cadastro de Capelães Voluntários ou Assistentes Religiosos Voluntários vinculados à Igreja Universal do Reino de Deus”. O CAB é o Centro de Atendimento Biopsicossocial da Polícia Militar.

A resposta menciona uma Portaria da PM-PR publicada em 13 de dezembro de 2019 que rege o serviço de capelania na corporação. Este documento define que o serviço dos capelães tem como objetivos “I – Prestar assistência religiosa aos policiais militares envolvidos em ocorrências de alto risco, em incidentes críticos, em ações diretas de morte, e ainda àqueles que estiverem envolvidos em crises pessoais, familiares ou presos; II – Elevar o moral individual do policial e possibilitar o convívio harmônico e fraternal em sua comunidade”.

E determina, que “as atividades de Capelania e/ou Assistência Religiosa serão realizadas pelos respectivos capelães e ou assistentes/auxiliares voluntários, devendo estes últimos prestarem contas de suas atividades aos Comandantes das Unidades onde estiverem exercendo suas atribuições, bem como, através de relatório mensal de atividades, a ser enviado à Coordenação-Geral do SAR/DP”.

O Artigo 9º da Portaria enfatiza que os candidatos a capelães voluntários (como é o caso dos pastores da Universal) precisam “receber parecer favorável do Coordenador-Geral da SAR/DP bem como do membro da respectiva religião pertencente à Coordenação-Geral” e “Realizar capacitação de nivelamento a ser ministrada pela Coordenação-Geral do SAR/DP”.

O mesmo artigo ainda detalha uma série de exigências para que alguém ingresse na Subseção de Assistência Religiosa da Diretoria de Pessoal (SAR/DP) como Capelão Voluntário. É necessário ter pelo menos 25 anos; possuir curso de formação teológica reconhecido pelo MEC; ter o mínimo de 3 anos de atividades pastorais; ter consentimento da autoridade religiosa; ser encaminhado oficialmente pela denominação religiosa; receber parecer favorável da coordenação da capelania da PM; assinar termo de adesão ao voluntariado; realizar capacitação de nivelamento e apresentar certidão de antecedentes criminais.

De acordo com a Portaria, não basta um pastor ou líder religioso ir voluntariamente ao quartel. Para atuar como capelão voluntário da PM-PR, ele precisa cumprir requisitos formais, passar por análise e aprovação, assinar termo de voluntariado e integrar a estrutura da SAR/DP.

Porém, parece não ser esta a realidade imposta aos capelães da Universal, já que a Diretoria de Gestão de Pessoas da Polícia Militar do Paraná afirma que não há voluntários da igreja cadastrados em seu sistema.

Segundo os policiais, a autorização para o livre acesso aos batalhões para os pastores da IURD é dada pelos comandantes. “Os comandantes dão aval. Eles autorizaram a entrada e as orações, os cultos. Esses encontros acontecem na cozinha onde os policiais estão tomando café, nos pátios dos quartéis e até nos auditórios dos batalhões”, afirma um policial.

O 12º Artigo da Portaria 1224, no entanto, determina que os aconselhamentos e atendimentos dos capelães poderão acontecer “em sala reservada da Unidade ou onde o Comandante da Unidade definir; IV – Com autorização prévia do Comandante da Unidade, poderá organizar encontros, cultos e missas especiais, momentos de oração por ocasião de formaturas militares, aniversário da Unidade, dia do soldado, aniversário da PMPR ou em demais datas festivas, sendo de frequência facultativa e estendida a familiares;”.

Os comandos dos batalhões, conforme as fontes ouvidas pelo Plural, é que incentivam a participação nas orações e nos cultos. “Não é uma ordem direta, porém, quem não participa acaba mal visto e quando menos percebe está sendo punido”, diz uma fonte.

Segundo ele, as punições são discretas e envolvem mudança em postos de serviço, em escalas e até de batalhões. “Eles sabem do que cada policial e bombeiro não gosta. Por exemplo, se eu não gosto de cumprir plantão em um certo local, ou não me adapto em um batalhão, é para lá que me mandam se não cumpro uma ordem. E no caso dos cultos da Universal, o convite para participar é considerado por muitos comandantes como uma ordem”, revela.

‘Sem viés religioso’

O Universal nas Forças Policiais costuma destacar, em suas publicações nas redes sociais, que o trabalho realizado pelo programa promove “momentos de reflexão sem viés religioso”. Essa afirmação, no entanto, é contestada por policiais e bombeiros. “Tem oração, tem leitura de passagem bíblica e até entrega de bíblias. Como uma coisa assim não tem viés religioso?”, questiona um bombeiro.

Na página do UFP-PR no Facebook, há diversas publicações que contradizem a afirmação de que a atuação dos capelães não têm viés religioso. Uma postagem do dia 13 de dezembro de 2025, por exemplo, mostra o Pastor Alessandro Pereira, que é o responsável pelo Universal nas Forças Policiais no Paraná, afirmando em vídeo que “o estado é laico, mas as pessoas não são, por isso, todos nós devemos fortalecer a nossa fé”. O evento aconteceu no 13º Batalhão da Polícia Militar. Nele, Pastor Alessandro Pereira faz um sermão e lê uma passagem bíblica para policiais.

Pastor Alessandro Pereira durante culto em quartel do Corpo de Bombeiros do Paraná. Foto: Reprodução Facebook UFP-PR
Pastor Alessandro Pereira durante culto em quartel do Corpo de Bombeiros do Paraná. Foto: Reprodução Facebook UFP-PR

O Pastor é presença constante inclusive em eventos realizados pela Polícia Militar. Ele aparece em diversas fotos ao lado de comandantes, do secretário de Segurança Pública do Paraná, Coronel Hudson Teixeira e também na presença do governador Ratinho. Pereira representa a Universal em formaturas, solenidades, passagens de comando e até no lançamento de programas de segurança pública como o “Olho Vivo”, iniciativa apresentada em dezembro do ano passado pelo governo do estado na sede do Comando Geral da Polícia Militar.

PM nas sedes da Universal

O Plural também solicitou via LAI dados sobre a presença da Polícia Militar do Paraná em eventos realizados na sede da Igreja Universal. Em resposta ao pedido, a Diretoria de Gestão de Pessoas afirmou que “após consulta aos registros do Centro de Atendimento Biopsicossocial (CAB), não foram localizados dados referentes à realização ou participação de policiais militares, policiais civis e bombeiros militares em cursos, palestras, treinamentos, solenidades ou homenagens promovidas pela referida instituição religiosa no ano de 2025”.

A resposta ressalta ainda que “a liberdade de crença e de manifestação de fé é um direito constitucionalmente assegurado, nos termos da Constituição Federal, sendo livre a participação dos militares estaduais em atividades religiosas, desde que tais participações ocorram em caráter voluntário e mediante convite da própria instituição religiosa promotora do evento, sem qualquer vinculação ou endosso institucional por parte deste Centro de Atendimento Biopsicossocial”.

Contudo, publicações nas redes sociais do UFP,  no site da Igreja Universal e no site da própria PMPR há registros da presença de policiais militares e bombeiros nas sedes da IURD, como na postagem feita em 10 de novembro de 2025. Nela, há um vídeo gravado no Auditório Mate 2, na sede do Templo Maior da Universal, no bairro Rebouças em Curitiba, que mostra diversos policiais que participaram do curso de Motociclista Policial, promovido pela Companhia Tático Móvel de Trânsito (COTAMOTRAN) do Batalhão de Trânsito (BPTran). Eles estão em frente ao altar e na companhia do Pastor Alessandro Pereira. A publicação diz que o encerramento do curso foi na sede da Igreja. “Na segunda-feira, 10/11/2025 tivemos o encerramento do Curso de Motociclista Policial realizado no auditório do Mate 2”, informa a legenda.

PMs participam de ato na sede da Igreja Universal. Foto: Reprodução Facebook UFP-PR
PMs participam de ato na sede da Igreja Universal. Foto: Reprodução Facebook UFP-PR

No site da Universal é possível observar também que no dia 02 de junho de 2025 policiais militares do Comando de Missões Especiais, do Comando de Policiamento Especializado e Ajudância Geral participaram de uma palestra sobre segurança policial no auditório do Templo Maior da Universal. Segundo o texto, “a própria Polícia Militar promoveu a palestra. Contudo, dentro da programação, a organização concedeu um espaço para que a Capelania UFP conduzisse um momento de reflexão”.

O evento que reuniu a maior quantidade de agentes de segurança na sede da IURD aconteceu em agosto de 2025. Em todo o Brasil, a Igreja promoveu homenagens nas sedes da igreja a agentes de segurança pública em alusão ao Dia do Soldado, comemorado em 25 de agosto. Em Curitiba, o Templo Maior recebeu milhares de militares. Durante a cerimônia, policiais receberam certificados, medalhas e bíblias. Os eventos aconteceram, simultaneamente, em outras cidades do estado.

Mas como a IURD ganhou tanto poder nos quartéis?

No Brasil, a relação entre igreja e militares é antiga e se intensificou com a chegada da Família Real Portuguesa no início do Século XIX.  Em 1824, Dom Pedro I outorgou a Constituição Imperial que determinava, em seu Artigo 5º, que a Religião Católica Apostólica Romana era a oficial do Estado. Nesse mesmo período surgiam os corpos policiais coloniais e imperiais que, mais tarde, dariam origem às polícias militares dos atuais estados brasileiros. Como representantes do poder estatal, essas forças atuavam também na proteção e na promoção da religião oficial.

No Paraná, essa conexão entre o Cristianismo e a Polícia Militar — criada em 1854 — acompanha a própria formação da corporação. A capelania da PMPR, por sua vez, foi oficialmente instituída por portaria do Arcebispo Metropolitano de Curitiba, Dom Manoel da Silveira d’Elboux em 1961 e posteriormente regulamentada pelo Decreto nº 16.316, de 27 de outubro de 1964.

A partir da década de 1980, a presença de policiais evangélicos ganhou força nos batalhões paranaenses. Foi nesse contexto que surgiu a Comunidade dos Evangélicos da Polícia Militar do Estado do Paraná (Cevan-PM-PR). Em 1989, o Comando-Geral da corporação autorizou a realização de cultos evangélicos semanais, fortalecendo a atuação desse grupo.

Em 27 de Abril de 2018, foi criado o Programa Universal nas Forças Policiais (UFP), para prestar assistência espiritual aos policiais. Mas hoje, porém, a Igreja Universal do Reino de Deus impôs sua presença, ao ponto de, conforme relatam fontes ouvidas pelo Plural, ser a única instituição religiosa a visitar alguns quartéis. “A Universal dominou. Raramente a gente vê outra denominação nos quartéis. São apenas pastores da Universal diariamente fazendo orações”, revela um bombeiro.

Essa presença da IURD nas forças de segurança, especialmente na PM, e seu expressivo crescimento nos últimos anos é complexa e está atrelada a diversos fatores. Segundo Leandro Patrício, doutor em História Social pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e diretor presidente do Movimento Brasil Laico, é preciso considerar essa aproximação como parte de um projeto de poder evangélico, atualmente em curso no Brasil, que procura aparelhar as instituições do Estado.

Orações e entrega de bíblias fazem parte da rotina dos quartéis. Foto: Reprodução Facebook UFP-PR
Orações e entrega de bíblias fazem parte da rotina dos quartéis. Foto: Reprodução Facebook UFP-PR

Para ele, a facilidade que a Universal tem de percorrer os quartéis vem de uma sintonia entre os valores pregados pela Igreja e os reproduzidos dentro das PMs.

“Diferentemente de outras igrejas, a teologia da Igreja Universal prioriza passagens da bíblia, no antigo testamento, que tratam de guerras: a luta de Davi contra o gigante Golias, a vitória de Gideão e seus 300 sobre os Amalequitas, a vitória de Sansão contra mil homens com uma queixada de jumento, a própria ênfase na representação de Deus como ‘Senhor dos exércitos’, entre outras. Acredito que essa particularidade, aliada à teologia do domínio e à da teologia da prosperidade da IURD, forma a sintonia perfeita com os valores reproduzidos nas forças de segurança pública”, explica Patrício.

Segundo o pesquisador, para ganhar acesso livre aos quartéis em relação a outras igrejas, a Universal conta também com um braço político formalizado, que é o Partido Republicanos. “Penso que, enquanto outras igrejas dependem de frentes parlamentares mais heterogêneas, a IURD possui um braço político formalizado, que é o partido Republicanos, e isso confere acesso direto e legitimado a cargos estratégicos nos Poderes Executivo e Legislativo. Ela pode negociar convênios, vagas de capelania e o acesso a estruturas de segurança pública em nível de governo ou de comando geral, e não apenas por meio de um capelão individual. O acesso é dado por decisão política ou administrativa, e não por mérito religioso”, diz.

Adoecimento e exaustão

“Imagina você cansado, exausto e de repente vem alguém que quer te dar um consolo, um abraço, que te oferece um café da manhã depois de um plantão difícil”. É isso que muitos agentes de segurança vivenciam com a presença dos pastores da Universal em quartéis da PM e do Corpo de Bombeiros, como explicou um bombeiro que está há mais de 20 anos na corporação.

A Igreja Universal do Reino de Deus, segundo os agentes de segurança e também os especialistas em segurança pública ouvidos pelo Plural, se aproveita de brechas deixadas pelo próprio estado para ganhar presença entre os policiais.

E isso se relaciona diretamente às condições de trabalho dos policiais militares. É o que explica o professor do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Clóvis Gruner. “A categoria [dos policiais] figura entre as mais desvalorizadas do serviço público: enfrenta rotinas exaustivas, alto risco, estresse constante, remuneração baixa, treinamento insuficiente e falta de apoio institucional. Em especial, destaca-se a ausência ou precariedade do atendimento psicológico, fundamental para profissionais expostos diariamente à violência”, diz.

Nesse cenário, segundo o pesquisador, os cultos, aconselhamentos e atividades espirituais oferecidos pela Universal acabam ocupando lacunas deixadas pelo Estado. Embora essas ações não solucionem problemas estruturais como baixos salários, condições inadequadas de trabalho e carência de suporte psicológico, elas funcionam como forma de alívio emocional provisório, contribuindo para minimizar ou sublimar tensões e frustrações.

A rotina de trabalho dos policiais é exaustiva e tornou-se ainda mais pesada depois da criação da Diária Especial por Atividade Extrajornada Voluntária (DEAEV). Ela foi instituída na PM pelo Decreto nº 7.585, de 06 de maio de 2021. A DEAEV indeniza o militar que for empregado, voluntariamente, por no mínimo 6 horas contínuas em atividades operacionais extras. O valor da diária é fixado em R$ 180,00 por cada período de 6 horas. Há um limite mensal — a PMPR permite, no máximo, 10 diárias por mês para cada militar. No Corpo de Bombeiros isso foi instituído em 2024.

“Com a DEAEV os policiais dobram os plantões, ou seja, para fazer um extra trabalham quando poderiam estar de folga. Isso tem feito muita gente virar uma espécie de robô. O PM dobra plantão, fica esgotado, tem problemas de saúde mental, enfrenta grande tensão nas ruas. Aí chegam os pastores da Universal e oferecem um café, uma palavra amiga, um elogio e por fim oferecem uma oração. Muitos PMs recebem isso como um acalento, uma espécie de prêmio por tudo que estão passando”, destaca um PM.

Clovis Gruner ressalta que a Igreja Universal do Reino de Deus sabe desta rotina e se aproveita disso para ganhar o imaginário das tropas. “Assim, a presença da Universal nas forças de segurança não só evidencia falhas do Estado em garantir condições dignas de trabalho e apoio psicológico aos policiais, como também revela um processo de aproximação planejado, duradouro e estrategicamente conduzido pela igreja, processo que hoje se manifesta de forma muito mais visível em todo o país”.

E de fato é consenso entre os policiais ouvidos pela reportagem que a Universal conquistou espaço não apenas na rotina dos quartéis, mas no imaginário das tropas. Segundo eles, a influência da igreja é muito forte e se reflete na atitude dos policiais nos batalhões e nas ruas.

“A Igreja Universal é muito grande principalmente entre os PMs. Tem muito policial se convertendo. O problema é que muitos deles tentam forçar a conversão de outros e os que se negam ficam mal vistos”.

Leandro Patrício alerta que Igreja Universal, como a maioria das igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais, têm uma visão de segurança pública baseada na moralidade e no combate ao crime como parte de um processo de “batalha espiritual” e uma primeira consequência disso pode ser a manifestação de um desequilíbrio na forma isonômica como a abordagem do policial deve ser conduzida. Uma vez introjetada, as crenças e os valores da IURD, destaca o pesquisador, podem levar o agente das forças de segurança pública a agir de forma desigual, “em prejuízo dos indivíduos e grupos que a igreja considera adversários morais ou políticos, como pessoas de esquerda, LGBTQIAP+, afro-religiosos, ateus, entre outros”.

“Esse projeto maior, no qual o projeto da IURD se inscreve, tem promovido uma severa erosão no tecido da democracia, subvertendo os pilares da laicidade a partir das imprecisões e omissões da própria Constituição no tocante ao tema. Em relação a outras denominações, a Universal é pioneira nessa busca de aparelhamento das instituições do Estado, embora isso, por si só, não explique sua aproximação com as forças de segurança pública”, completa Patrício.

O Plural entrou em contato com a Assessoria de Imprensa da Secretaria de Segurança Pública do Paraná (Sesp) pedindo esclarecimentos sobre a atuação dos capelães da Universal nos quartéis e sobre o fato de eles não constarem nos cadastros de capelães voluntários da PM. Até a publicação desta reportagem a secretaria não tinha se manifestado.

A reportagem também procurou a Igreja Universal do Reino de Deus por meio de sua assessoria de imprensa. A igreja respondeu com a seguinte nota:

“A Capelania Universal nas Forças Policiais (UFP) é um programa social que leva apoio valorativo e assistência emocional aos agentes de segurança pública, profissionais que dedicam suas vidas em favor da sociedade.

As ações da Capelania respeitam a opção religiosa de cada profissional, assegurando a liberdade para participar das palestras semanais, que tratam de temas como saúde emocional, combate a vícios, ética e estrutura familiar.

Também faz parte das iniciativas do programa o reconhecimento público dos agentes que compõem as corporações, bem como a contribuição com tais instituições por meio da cessão dos templos, sempre que solicitado pelos comandos, para reuniões técnicas que exijam uma maior acomodação. Vale lembrar que esse tipo de parceria não é exclusivo da Universal, sendo também celebrada, a título de exemplo, com outras instituições religiosas e faculdades.

Com as ações da Capelania, a Igreja Universal contribui diretamente, de forma voluntária e vocacionada, com o bem-estar individual e coletivo desses homens e mulheres fundamentais para a segurança da população.

Solicitamos que estes esclarecimentos sejam publicados na íntegra.





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