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quinta-feira, 9 abril, 2026
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Como o maior mercado do mundo driblou as taxas de Trump e bate recorde

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No mercado da cidade de Yiwu, há de tudo. É um mistério. Eletrônicos, perucas de todas as cores, botões de todos os tamanhos, zíper, máquinas de cortes de precisão, sutiã, cadernos, lápis, placas de carros de vários países, camisa do Messi, uniforme da seleção brasileira, bolas da Copa, material de publicidade para o regime no Afeganistão, burcas, o lenço histórico dos palestinos ou passaportes falsificados de dezenas de países.

Há ainda material para pesca, calçados, relógios ou roupas de todos os tipos. O mercado também conta com decorações de Natal, para a Fiesta de los Muertos do México, crucifixos para as lojas do Vaticano, símbolos do islã para as mesquitas ou do judaísmo.

Numa de suas alas, lojas vendem chaveiros de qualquer cidade do mundo, destinados a turistas que, ao desembarcar em Roma, Barcelona ou Paris, pensam estar levando lembranças daqueles marcos europeus. Todos “Made in China”.

Yiwu se transformou nos últimos anos no maior mercado atacadista global do mundo, abastecendo dezenas de setores e países com produtos baratos e domésticos. Por ano, a cidade com 75 mil lojas produz mais de 2 milhões de diferentes itens e que chegam às prateleiras de lojas de todos os continentes.

Quando estive no local, em 2023, a lenda que os comerciantes contavam era que eles sabiam muito antes das pesquisas de opinião quem iria ganhar uma eleição em algum país democrático. O motivo: tinham o cálculo da demanda de material de publicidade com o nome dos candidatos. Bonés, bandeiras e camisetas.

Um dos produtos que mais saía a partir de 2023 levava o nome de Donald Trump, justamente o candidato que fustigava a China e que não se importava em vestir seus eleitores com produtos que sua campanha comprava cinicamente a preços mais baixos dos asiáticos.

Do tarifaço à diversificação

Nesta semana, voltei a telefonar para aqueles comerciantes que visitei, imaginando que as tarifas aplicadas por Trump contra a China e a guerra comercial havia abalado seus negócios. Mas, para a minha surpresa, a realidade foi bem diferente.

Enquanto já iniciavam a produção de enfeites do Natal de 2026, um deles me relatou que o mercado americano — em parte fechado por Trump — foi rapidamente substituído por outros destinos para seus produtos. Principalmente no Oriente Médio, África e América Latina.

Novos mercados, vendas recordes

O resultado: 2025 registrou um recorde de vendas de Yiwu. Apenas nos nove primeiros meses de 2025, as exportações do maior mercado do mundo superaram a marca de US$ 119 bilhões. Trata-se de um aumento de 25,2% em relação aos volumes vendidos em 2024.

Para o Sudeste Asiático, as vendas aumentaram em 51%, enquanto o fluxo para o continente africano cresceu em 21% e 14% de alta para as vendas para a América Latina.

Em janeiro e fevereiro de 2026, foram mais US$ 12 bilhões em vendas, aumento de 52%.

Os comerciantes não negam que parte da venda para terceiros mercados seja uma manobra por parte dos importadores para que esses produtos cheguem depois aos EUA sem pagar as altas taxas. Mas isso seria apenas uma parcela menor do fluxo.

Grande parte é realmente a abertura de novos destinos e novos parceiros. “Fomos forçados a buscar novos mercados e isso foi muito bom para todos nós”, comemorou um dos gerentes de uma das lojas especializadas em produtos religiosos.

Para um observador em Pequim, Yiwu é a prova de que a China tem como dar uma resposta às ameaças do americano. “Não tem medo, temos método”, disse. Isso inclui lidar com obstáculos internos e construir novas parcerias.

Estreito de Ormuz

Mais preocupante que o tarifaço para eles era o fechamento do Estreito de Ormuz, cortando a possibilidade que seus produtos baratos chegassem a alguns dos portos do Oriente Médio, como Catar, Bahrein, Kuwait e partes da Arábia Saudita.

Yiwu, segundo diplomatas, passou a ser um espelho do que ocorreu com o comércio chinês, depois das tarifas de Trump. No país, as vendas terminaram 2025 com um novo recorde para o superavit comercial da China: US$ 1,3 trilhão em saldo positivo, um colchão mais que confortável para enfrentar uma redefinição das regras internacionais do comércio.





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