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quarta-feira, 8 abril, 2026
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Coesão e diferença – ICL Notícias

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Os dias turbulentos no Brasil e no mundo me lembram que existe no Sahel, região africana de transição entre a savana e o deserto, uma árvore conhecida pelos hauçás como gao. Para nós, é uma acácia. O gao é uma espécie de árvore do contra, capaz de subverter o padrão normativo do grupo.

A explicação é simples. Na estação das chuvas, quando o verde toma conta da vegetação e as árvores vivem a florada esplendorosa, o gao perde as folhas, se acinzenta, murcha adormecido. Quando, todavia, a seca chega e a estiagem é inclemente, só a acácia esverdeia; florescendo exuberante em meio ao cinza que parece mundo morto.

Os africanos do Sahel veneram o gao, visto como uma árvore sagrada, silenciosa e capaz de ensinamentos prodigiosos, inclusive para a conduta das comunidades. A acácia africana tem a ousadia de ser cinza quando o que se espera dela é o verde e verdejar quando tudo se acinzenta. Nos tempos difíceis, é ela que dá a sombra para os rebanhos e alimenta o gado com as folhas das extremidades de seus galhos.

Os baobás são muito maiores que as acácias. Verdadeiros templos encantados, os hauçás os conhecem como kukas. Em regiões ao sul do Saara, algumas etnias sedentárias chegavam a usar os baobás como túmulos dos griôs, os contadores de histórias responsáveis pela memória ancestral e pela manutenção, desta forma, dos laços de coesão do grupo. O baobá é a árvore da permanência e da continuidade da vida pela palavra ancestral. É a árvore que a todos iguala sob sua folhagem.

O gao é a árvore da diferença e o kuka (baobá) é a árvore da coesão. Na sabedoria do Sahel, são árvores que se complementam; a do pertencimento ao coletivo e a do respeito às diferenças.

É triste constatar que, no desencanto do mundo, não conseguimos minimamente entender o recado soberano das árvores do tempo.





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