A decisão de ser candidato ao governo do Ceará e não à Presidência da República anunciada na manhã da segunda-feira, 11 de maio, pelo ex-ministro da Fazenda, Ciro Gomes (PSDB), é decorrência da análise de cenário político nacional feita por ele e que o levou a uma conclusão diferente da opinião média daqueles que o queriam na disputa presidencial: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o favorito a vencer a eleição de nova reeleição em outubro próximo e deve conquistar um quarto e derradeiro mandato. Sendo assim, Ciro preferiu não queimar seu nome numa quinta e estéril disputa nacional e, aos 68 anos, vai reorganizar as forças e o portfólio administrativo em sua fortaleza política, o Ceará, para ser uma alternativa de centro em 2030.
O colégio eleitoral cearense é o terceiro maior do Nordeste, com 6,33 milhões de eleitores e 16,1% do total da região. Fica atrás de Pernambuco, com 7,16 milhões (16,6% dos eleitores nordestinos) e da Bahia, com eleitorado de 11 milhões de pessoas (26,8%). Somados, os eleitores baianos, pernambucanos e do Ceará perfazem 60% do colégio eleitoral nordestino. O Nordeste detém 27,6% do total de eleitores do país. Desde 2002, quando o presidente Lula venceu a primeira eleição nacional, o território nordestino é uma cidadela fiel aos candidatos do PT. Foi assim inclusive em 2018, quando Fernando Hadad (PT) obteve 69,7% dos votos válidos do Nordeste (20,3 milhões), contra minguados 8,8 milhões dados a um Jair Bolsonaro (PSL) que terminaria por descontar a diferença nas outras quatro regiões brasileiras e se eleger presidente para o trágico mandato de 2019-2022.
Em 2023, Ciro Gomes terá 72 anos e possibilidades reais de sonhar em ser candidato à Presidência por dois mandatos. De acordo com a última pesquisa da empresa Quaest, publicada na semana passada, o ex-ministro da Fazenda que já foi também governador do Ceará (1991-1994), prefeito de Fortaleza (1989-1990), deputado estadual por três mandatos e federal uma única vez, tem a preferência de 41% dos eleitores estaduais contra 32% que pretendem votar na reeleição do governador atual, Elmano de Freitas (PT). Quando a Quaest troca o candidato governista para o ex-ministro da Educação, Camilo Santana (PT), a situação se inverte – mas não inviabiliza uma disputa acirrada entre os dois ex-aliados e ex-amigos: Camilo marca 40% das intenções de voto e Ciro, 33%. Em ambos os cenários Eduardo Girão (Novo) é o terceiro colocado com longínquos 4% a 5% dos votos.
COMO CIRO VIROU E DESVIROU CANDIDATO À PRESIDÊNCIA
Há um mês o presidente nacional do PSDB, o deputado federal Aécio Neves (MG), ofereceu a legenda para Ciro ser candidato a presidente da República. O ex-ministro, candidato a “terceira via” nacional quatro vezes – em 1998, 2002, 2018 e 2022 – pediu um mês para pensar no convite e rechaçou-o nesta 2ª feira.
Em 1998, quando Fernando Henrique Cardoso foi reeleito em 1º turno, ele ficou em 3º lugar no pleito nacional e venceu a disputa presidencial no Ceará com 27,55% dos votos válidos. Superou inclusive Lula, que naquele ano obteve 26,43% dos votos dos cearenses. Em 2002, na eleição vencida pelo petista, Ciro Gomes saiu das urnas do 1º turno com 44,53% dos votos presidenciais cearenses e Lula (PT) com 39%. Em 2022, pela primeira vez nos embates nacionais que disputou, foi derrotado de forma acachapante em sua terra: contabilizou escassos 6,8% dos votos para presidente no Ceará e perdeu para Lula (66%) e até para Jair Bolsonaro (25,4%).
Agora, abandonado pelo PT que ele desdenhou e atacou de forma virulenta nos últimos cinco anos, Ciro Gomes imagina que uma aliança pragmática com a extrema-direita completamente despirocada do Ceará pode lhe devolver a cadeira de governador do estado. Ele pretende fazer uma aliança com o PL de Flávio Bolsonaro e colocar dois dos mais despudorados extremistas cearenses na chapa para o Senado – Capitão Wagner (União Brasil), um ex-policial que enfrentou rumorosas denúncias de envolvimento com milícias, e Alcides Fernandes (PL), pai do deputado federal André Fernandes, um dos líderes da bancada de fake News & factóides comandada pela “geração Nikolas Ferreira” na Câmara dos Deputados.
O PT só venceu a primeira eleição estadual no Ceará, em 2014, porque estava de braços dados com os irmãos Ferreira Gomes – Ciro, Cid, Ivo e Lúcio, que nunca foi candidato a nada, porém, executa bem e eficazmente as missões da burocracia partidária. Em 2018, um bem-bolado local permitiu palanque duplo para a presidência no Ceará e o esquema funcionou bem para Fernando Haddad. Em 2022, com o PT consolidado por duas excelentes e bem avaliadas gestões de Camilo Santana, o PT elegeu Elmano de Freitas ignorando o candidato de Ciro, o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio, e dando ao ex-ministro da Fazenda a mais acachapante derrota colhida em seu feudo. É em busca da recomposição de forças na base eleitoral original, visando a 2030, que Ciro Gomes optou por ficar no Ceará e disputar o governo.
A FORMA SOBRALENSE-CAUDILHESCA DE FAZER POLÍTICA
Mesmo com aliança firmada com o PL no estado Ciro Gomes não pedirá voto para Flávio Bolsonaro (PL) nem cometerá o suicídio político de pedir votos para ele. A tendência é que o PSDB ofereça ao PSD de Gilberto Kassab que tem Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás, como candidato a presidente, uma alternativa de vice: Tasso Jereissati, 78 anos. Caiado tem 77. No momento, uma chapa Caiado-Tasso está longe de ameaçar a hegemonia de Flávio Bolsonaro como favorito da direita e da extrema-direita nacionais. Contudo, pode se revelar competitiva se a receita velha de bolo ruim do PL começar a desandar conforme os cálculos de Ciro Gomes.
O ex-ministro da Fazenda aposta num cenário conflagrado à direita com Caiado, o filho 01 do clã Bolsonaro, com Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e até com Augusto Cury (Avante) e Aldo Rebelo (DC) engalfinhados naquilo que o marqueteiro João Santana antevia em 2014 como “o banquete antropofágico dos anões”. Para crescer e sonhar com um 2º turno contra Lula, todos eles terão de bater no nome mais forte (momentaneamente) do capo deles – Flávio Bolsonaro. Não há cálculo político que reduza a estimativa de votos de algo entre 42% e 44% dos votos válidos no 1º turno de outubro de 2026. Logo, o presidente candidato à segunda reeleição pode aguardar olimpicamente o adversário que vier, se houver adversário, para o 2º turno. Ciro Gomes calcula que Lula leva em qualquer cenário. Daí, nem Lula, nem Caiado, nem Tasso, nem ninguém dessa geração 77-81 anos estará apto a surgir nas urnas de 2030. Ele, sim – e recomposto como um nome que une o Nordeste em torno de si e de sua forma sobralense-caudilhesca de fazer política.



