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segunda-feira, 13 abril, 2026
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Chineses sobre Trump: ‘Cães ladram por medo’

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O Vento e Sol disputavam quem era o mais poderoso e um eterno debate precisa acabar. Foi estabelecido, assim, que uma competição seria oficialmente realizada para colocar fim ao impasse. O critério era simples: quem conseguisse retirar a roupas dos seres humanos seria declarado como o mais forte.

O Vento foi o primeiro. Soprou de forma violenta, causando caos e destruição. Soprou e soprou. Apesar da agressividade e de seu impacto indiscutível, apenas conseguiu arrancar partes das roupas das pessoas.

Chegou a vez do Sol, que teve apenas de existir para iniciar sua participação na competição. Naquele dia, seu calor irradiado foi suficiente para que todos optassem por se despir. Estava decretado o vencedor.

Percorrendo a China nos últimos dias, foi assim que observadores me explicaram o cenário quando questionei como viam a disputa entre eles e os EUA pela hegemonia no século 21. A ordem entre os chineses é a de buscar ter influência sem repetir a atitude de violência dos “ventos americanos”.

Oficialmente, o governo em Pequim insiste que não quer imitar o modelo de europeus e americanos dos últimos 300 anos, como hegemonias globais. Seja por meio de colônias ou por uma ingerência constante em assuntos domésticos de países, incluindo o assassinato de líderes estrangeiros e golpes de estado.

Mas, fora das conversas oficiais, a constatação é de que todos sabem que o eixo do poder no mundo está rapidamente migrando para a Ásia e que, no novo modelo de influência internacional, a longevidade do poder chinês pelo mundo vai depender da capacidade de construi-la por vias mais sofisticadas que a das invasões e pilhagens.

Também admitem que, cada vez mais, a diplomacia chinesa está adotando uma nova postura, mais ousada e subindo a voz, sempre que for necessário. Por enquanto, pelo menos de forma pública, os ataques públicos por parte de Pequim tem se limitado às potências Ocidentais, com denúncias por parte dos chineses de violações de direitos humanos nos EUA, Canadá e Europa.

Mas mesmo essa atitude apenas passou a ser tomada quando Pequim se deu conta que está, finalmente, em condições de exigir um lugar de absoluto destaque na mesa das potências que definirão as regras do século 21.

Os EUA também sabem disso. Ao assumir o Departamento de Estado, Marco Rubio disse que a China é o maior desafio existencial dos norte-americanos em sua história. Nem a URSS representou tal desafio, mesmo no auge da Guerra Fria. Para Washington, em dez anos, Pequim terá as condições econômicas, políticas e de infraestrutura para decidir o que os EUA podem ou não podem ter acesso no mundo.

A China, de fato, deu uma demonstração dessa ameaça que podem representar quando, em resposta às tarifas dos EUA, Xi Jinping anunciou a proibição de exportação de minérios críticos, um abalo para a indústria de ponta e de defesa americana.

De fato, o próprio Departamento de Estado considera que Pequim poderá ter a capacidade de gerar um desabastecimento global em poucos anos se decidir vetar as vendas de insumos no setor farmacêutico ou de tecnologia.

Parar a China, antes que seja tarde demais

No governo Trump, a ordem é a de criar um cenário internacional no qual seria colocado fim à ideia de uma decadência inevitável dos EUA e uma ascensão imparável da China. Para a Casa Branca, isso precisa ser feito “imediatamente”, antes que seja tarde demais.

Para isso, a escolha foi por gerar uma profunda ruptura na ordem internacional e, portanto, nessa lógica. A estratégia é a de garantir que os EUA reduzam ao máximo sua dependência em relação ao abastecimento chinês, criar acordos para garantir acesso a recursos naturais fundamentais para tecnologia e ao setor militar.

Outro pilar da contra-ofensiva é a de impedir a instalação da China como ator estratégico no que Washington considera como “suas fronteiras”. Ou seja, em todo o continente latino-americano.

Cortar o abastecimento de petróleo para a China também é outra dimensão fundamental da reposta dos EUA à ascensão chinesa. É nesse contexto que Pequim considera que Trump agiu na Venezuela e no Irã.

Um quarto pilar seria ainda estabelecer um arco de aliados que possam “cercar” a China. Isso inclui parcerias com Índia e o Sudeste Asiático.

O problema, segundo os chineses, é que a estratégia usada pelos EUA significará, de forma imediata, a introdução do caos no cenário internacional.

Para Pequim, o governo norte-americano dificilmente atingirá seus objetivos por esse caminho. O primeiro motivo seria o impacto que tal ruptura teria para a própria economia dos EUA, debilitando o dólar e a credibilidade americana como parceiro confiável.

A avaliação é ainda de que, apenas com chantagens, bombas e ameaças, alianças estabelecidas serão frágeis. “São acordos feitos com armas na cabeça. Não planos de mútuo desenvolvimento. Não são alianças, são capitulações”, avaliou uma observadora na China.

De fato, pesquisas mostram uma profunda queda de popularidade internacional dos EUA e da crença do mundo sobre a legitimidade da liderança americana. Segundo um levantamento realizado pela Gallup em 130 países, apenas 31% dos entrevistados ainda considera os EUA como capaz de agir como líder mundial. A China, pela primeira vez, aparece com uma certa distância nesse retrato global. Mas, ainda assim, com apenas 36% de popularidade. Usando a analogia da lenda que me foi contada, o Sol também pode queimar.

Os limites e vulnerabilidades da China

Para os autores do levantamento, isso revela que nem americanos e nem chineses conseguem hoje romper um cenário de desconfiança. De fato, a China tem seus limites. Seu crescimento continua dependente das exportações, por mais que a taxa do mercado internacional tenha sido reduzida no peso da atividade industrial do país.

Ela também continua dependente do consumo de petróleo, ainda que busque alternativas tecnológicas. Basta uma visita à China National Petroleum Company, com seus milhares de funcionários e sua sede imponente, para entender que a história do desenvolvimento chinês está profundamente ligado ao seu abastecimento de energia.

Os profundos problemas de violações de direitos humanos também ainda são passivos que podem ser instrumentalizados pelo Ocidente para fustigar a China no palco global.

A escolha da China, na esperança de dar uma resposta, é se apressa para se apresentar como o vetor de estabilidade global e o parceiro confiável, que aposta no direito internacional.

Por enquanto, porém, a realidade é que o mundo vive um furacão, convencido de que sua violência será capaz de garantir sua influência. “Serão anos de turbulência”, constata um observador em Pequim. Após uma pousa, ele emendou. “Mas não podemos nos esquecer que cães ladram por medo”, completou, entre a fumaça de sua sopa e sua paciência milenar.





ICL Notícias

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