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quinta-feira, 16 abril, 2026
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China ao Ocidente: ‘Não ligamos para o que vocês pensam de nós’

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Ao longo dos últimos dias visitando a China, fiz uma pergunta a muitos interlocutores que encontrei: qual o erro que o Ocidente comete ao examiná-los ou julgá-los?

Não obtive respostas. Apenas uma afirmação: “não ligamos para o que vocês pensam de nós”.

Confiante depois de retirar milhões de pessoas da pobreza nas últimas décadas, de se transformar no maior polo industrial do mundo e de ser responsável por metade dos registros de novas patentes de inovações a cada ano no planeta, a China manda sinais claros de que está pronta para assumir um posto central na definição das regras do século 21. E de sua maneira.

Entendi que isso não significa necessariamente uma soberba. Autoridades e empresas chinesas querem saber constantemente de que maneira a relação com o resto do mundo pode ser aprimorada. Em relações internacionais, a cooperação não é generosidade. É estratégia de influência.

Mas eles sabem que chegou a sua vez. Ouvi num discurso de He Lifeng, o poderoso vice-premier do Conselho de Estado da China, uma declaração que resume essa consciência histórica. “A mudança que acontece uma vez só num século está ocorrendo neste momento”, disse ele, diante de empresários.

Nessa transformação, portanto, a China quer ser ator central. De fato, a posição de liderança pode ser reforçada ainda mais com a acelerada deterioração da credibilidade dos EUA, principalmente depois da guerra no Irã. Hoje, a China é parte dos esforços de mediação e se apresenta ao mundo como um “parceiro estável”. Nas rodas diplomáticas, vende a ideia de que ela é a guardiã do multilateralismo e do direito internacional.

Internamente, a percepção é de que nenhum interesse externo irá frear seu caminho, num planejamento de longo prazo que não precisa respeitar ciclos eleitorais. Em 2003, na primeira das minhas cinco viagens pela China, desembarquei num aeroporto na cidade de Xi’an. Parecia superdimensionado, com alas inteiras vazias. Um colega que estava na mesma missão então questionou nosso anfitrião: onde estão as pessoas? Ele apenas sorriu e disse: eles virão no futuro.

Desta vez, em Hainan, um representante da ilha me explicou que alguns dos projetos iniciados em 2025 têm como meta o ano de 2050. Questionei como saberiam o que vai ocorrer em 25 anos. E, mais uma vez, a resposta foi reveladora: “nós moldamos o futuro”.

Em Yiwu, conheci um comerciante que se dedica a vender seus produtos para o México. A Copa do Mundo está fazendo sua alegria. O resultado em campo é irrelevante para ele. O que ele comemora é a explosão de suas exportações de bandeiras mexicanas e todo o tipo de bugiganga. “Adoramos a paixão de vocês pelo consumo, adoramos as suas festas, adoramos até o Natal”, riu.

Acelerando em sua BMW branca pelas ruas da cidade no interior do país, ele me conta com orgulho a trajetória de sua família. “Meu avó só tinha uma bicicleta”, disse. Ele se considera como a primeira geração de chineses que não teve de viver sob o risco da pobreza.

Os dados corroboram com sua percepção. A renda dos 50% mais pobres da China – cerca de 539 milhões de adultos – quintuplicou desde 1978, enquanto os EUA registraram uma queda de 1% no mesmo período.

A Era da Globalização, a partir dos anos 90, mudou a história da China e do combate à extrema pobreza. Em 1990, 943 milhões de pessoas viviam com menos de US$ 3 por dia, 83% da população. Segundo o Banco Mundial, essa taxa caiu para praticamente zero em 2019.

Desde 1978, a China passou de ser uma sociedade pobre e relativamente igualitária para se transformar num dos maiores polos industriais do planeta. O estado ainda detém 30% da economia nacional. Mas a proporções muito inferior aos 70% registrados nos anos 80.

A novidade, porém, foi a descoberta de índices de desigualdade que superam grande parte da Europa e se assemelham às taxas nos EUA. A parcela da renda nacional chinesa detida pelos 10% mais ricos da população aumentou de 27% em 1978 para 41% em 2015, aproximando-se dos 45% dos EUA e superando os 32% da França.

Da mesma forma, a participação da riqueza dos 10% mais ricos da população atingiu 67%, próxima aos 72% dos EUA e superior aos 50% da França.

As autoridades sabem que essa é uma realidade que pode minar o tecido social e seu controle sobre o país. Nos últimos anos, portanto, os esforços têm focado justamente em frear essa tendência. De fato, o índice parou de crescer. Mas ainda é cedo para dizer se o governo comunista conseguirá recolocar o gênio de volta em sua lâmpada.

Outro desafio é reduzir a dependência do crescimento chinês ao mercado externo. Não por acaso, no início deste ano, o governo de Xi Jinping estipulou que uma de suas prioridades para os próximos cinco anos é aumentar o consumo doméstico.

A censura também é uma realidade. Posso dizer por ter sido alvo dela. A ordem é a de evitar, a qualquer custo, que a transformação social venha acompanhada por um questionamento político.

A imprensa, portanto, cumpre outro papel e não o da denúncia ou de ser o oxigênio da democracia. Ou, como me foi explicado: “a comunicação deve construir uma consciência comum e tem o papel de unir o povo chinês”. A lógica é que, com 56 etnias e mil dialetos, o controle da informação é estratégico.

“Há um pavor de qualquer ideia de sublevação, como no caso da URSS no final dos anos 80”, admitiu um diplomata.

Ainda assim, vi uma transformação em 25 anos visitando a China. Neste ano, pela primeira vez, vi uma mudança importante ao me deparar, numa mesa de debates, com chineses que abertamente questionavam as políticas do Partido Comunista Chinês.

Seu governo autoritário e que não hesita em usar uma mão de ferro contra qualquer forma de dissidência é constantemente denunciado. Num discurso em fevereiro perante o Conselho de Direitos Humanos, o alto comissário das Nações Unidas Volker Turk pressionou para que a China “pare de usar” argumentos de segurança nacional, medidas administrativas ou leis vagas de combate ao crime para “suprimir o exercício pacífico de direitos fundamentais”. “Peço que libertem todos aqueles presos de forma arbitrária”, pediu.

O chefe da ONU ainda “deplorou” o fato de que recomendações da entidade para garantir os direitos de minorias tenham sido ignorados pelos chineses, inclusive no que se refere a problemas trabalhistas e liberdades culturais. “Também estou preocupado com a repressão que se intensifica contra as comunidades protestantes”, disse.

O trunfo diplomático que Pequim dispõe e que vem usando cada vez mais, porém, é o de dizer que conseguiram reduzir drasticamente a taxa de pobreza, enquanto democracias ricas convivem com profundas violações de direitos ao acesso à saúde, à educação e a uma vida digna.

A longa marcha da China é uma realidade. Ignorá-la não é apenas um lapso. É um erro histórico. A pergunta sobre seu futuro não é para eles. É para nós mesmos: o que faremos diante desse novo polo de poder no século 21?





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