Esta reportagem é fruto de uma parceria da newsletter Noites Húngaras com o site ICL Notícias, publicada simultaneamente pelos dois veículos.
O advogado que comanda o setor jurídico da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, do PL, tem um histórico de atuação conjunta com duas pessoas diretamente ligadas ao ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE): a irmã do magistrado, Karine Nunes Marques, e o advogado Otto Medeiros de Azevedo Júnior, de quem o próprio ministro afirma ser amigo.
A relação chama atenção porque Nunes Marques já informou publicamente que se declara impedido de atuar em processos nos quais Otto representa alguma das partes justamente em razão dessa amizade.
Documentos judiciais mostram, porém, que Otto trabalhou repetidas vezes ao lado de Tracy Joseph Reinaldet dos Santos, hoje responsável pela estratégia jurídica da campanha de Flávio Bolsonaro. Em algumas dessas causas, a dupla dividiu a defesa também com Karine, irmã do ministro.
Não há, por si só, irregularidade na atuação conjunta dos advogados. O caso levanta, no entanto, uma questão sobre os limites adotados pelo próprio ministro para preservar sua imparcialidade.
Tracy Reinaldet integra a coordenação jurídica da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, ao lado da ex-ministra do TSE Maria Claudia Bucchianeri. Segundo reportagens publicadas quando a equipe foi anunciada, cabe a Tracy centralizar demandas da campanha e orientar juridicamente os diretórios estaduais e outras áreas.

Tracy não aparece como advogado de Flávio Bolsonaro em processos no TSE, corte atualmente presidida por Nunes Marques. A atuação direta de Tracy na defesa do candidato aparece, porém, no Supremo Tribunal Federal.
Nunes Marques é atualmente relator no STF de ao menos um processo em que Flávio Bolsonaro aparece como requerente e Tracy Reinaldet como seu advogado. Trata-se da Petição 16.220, protocolada em 10 de junho deste ano e distribuída ao gabinete do ministro.
O processo, de natureza criminal, tem Flávio como requerente e o presidente Lula como requerido. Tracy aparece oficialmente entre os três advogados do candidato do PL.
O caso nasceu de uma notícia-crime apresentada por Flávio Bolsonaro contra Lula. A defesa de Flávio pediu ao STF a abertura de inquérito para apurar supostos crimes de ameaça e incitação ao crime por declarações feitas por Lula em 2 de junho, durante a inauguração do campus do Instituto Federal Goiano em Catalão (GO).
A ação se baseia numa fala em que Lula chamou integrantes da família Bolsonaro de “traidores” e “vendilhões da pátria”. ANa mesma fala, Lula afirmou que Joaquim Silvério dos Reis foi enforcado e perguntou o que mereceriam os ‘traidores da pátria’. A defesa sustenta que a associação equivaleria a uma ameaça contra Flávio e a uma incitação à violência.
Tracy Reinaldet recebeu de Flávio procuração específica para apresentar a notícia-crime. O processo foi autuado em 10 de junho e, uma semana depois, distribuído ao ministro Nunes Marques, que se tornou seu relator.
Em julho, a defesa voltou aos autos alegando um “fato superveniente”: novas declarações de Lula sobre “traidores” durante a convenção do PDT. Pediu novamente a apuração e responsabilização do presidente, argumentando que as declarações representariam uma reiteração da conduta denunciada inicialmente. O processo permanece atualmente no gabinete de Nunes Marques, sem decisão.
A relação entre os advogados está nos autos
A proximidade profissional entre Tracy e Otto não depende apenas de relatos de terceiros. Ela aparece em documentos oficiais do Judiciário.
No Agravo em Recurso Especial 2.312.076, julgado pelo Superior Tribunal de Justiça, Otto Medeiros e Tracy Reinaldet aparecem simultaneamente entre os advogados da Cervejaria Petrópolis. O acórdão do STJ registra Otto, Tracy e outros profissionais na mesma defesa.
Há casos ainda mais explícitos. Na defesa do empresário Walter Faria, dono da Cervejaria Petrópolis, Tracy, Otto e Karine Nunes Marques atuaram conjuntamente. Documento do Tribunal Regional Federal da 3ª Região registra os três nominalmente como impetrantes de um habeas corpus.
O mesmo grupo aparece em processos que chegaram ao STJ. No conflito de competência 180.895, por exemplo, os autos também registram entre os advogados de Walter Faria os nomes de Tracy, Otto e Karine.
Outro processo no STJ, o Pedido de Tutela Provisória 4.018, relativo à mesma Cervejaria Petrópolis, volta a reunir os três nomes na lista de advogados.
A parceria profissional se prolongou no tempo. Em decisão publicada em março de 2025, Otto e Tracy aparecem novamente, juntos, entre os advogados da Cervejaria Petrópolis, em recurso analisado pela ministra Nancy Andrighi, no STJ.
Karine, por sua vez, também possui histórico documentado de atuação conjunta com Otto fora das causas em que Tracy aparece. Em processo no Tribunal de Justiça do Distrito Federal, por exemplo, uma apelação de 2023 foi assinada conjuntamente pelos dois.
Nunes Marques admite amizade com Otto
A relação entre Otto Medeiros e Kassio Nunes Marques veio novamente à tona em agosto deste ano, a partir das investigações envolvendo Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Em mensagens obtidas pela Polícia Federal, Luchsinger afirmou que Otto seria “sócio” de Nunes Marques. O ministro negou a existência de sociedade profissional ou empresarial entre ambos. Confirmou, porém, a relação de amizade.
Mais do que isso: segundo manifestação de Nunes Marques divulgada na ocasião, a amizade é justamente a razão pela qual ele se declara impedido nos processos em que Otto representa alguma das partes.
Há registro concreto desse afastamento. Em julgamento da Petição 8.411, no STF, Otto Medeiros aparece como advogado de uma das partes e Nunes Marques consta formalmente como impedido, ao lado do ministro Cristiano Zanin.
Tracy passou a comandar o jurídico de Flávio
Tracy Reinaldet assumiu neste ano papel central na campanha de Flávio Bolsonaro. Em março, foi anunciado como responsável pela coordenação jurídica da candidatura, com a tarefa de concentrar demandas judiciais, estruturar manifestações e orientar juridicamente diretórios estaduais e outros setores da campanha. Antes disso, já havia defendido Jair Bolsonaro.
A atuação para Flávio não se restringe ao ambiente eleitoral. O próprio sistema do Supremo registra Tracy como advogado do senador em diferentes processos. Na Petição 16.307, uma queixa-crime de Flávio contra o deputado André Janones, Tracy integra a defesa ao lado de Matteus Beresa de Paula Macedo e Leonardo Castegnaro.
O advogado também representa Flávio no Inquérito 5.045, aberto neste ano no STF e relatado por Alexandre de Moraes. E aparece ainda na defesa do candidato em investigação relativa ao caso Dark Horse.
O que precisa ser esclarecido
Tracy e Otto não integram o mesmo escritório ou mantêm uma sociedade formal, e a atuação conjunta em processos passados, isoladamente, não estabelece impedimento automático de um ministro em causas futuras de qualquer um dos advogados.
O caso, no entanto, demonstra mostra uma rede profissional concreta: Tracy e Otto aparecem juntos em diferentes processos; ambos já atuaram ao lado de Karine; Otto mantém uma amizade que Nunes Marques considera suficiente para não julgar suas causas; e Tracy passou a comandar o jurídico do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, inclusive representando-o em processo atualmente relatado por Nunes Marques.
A reportagem procurou Tracy Reinaldet, Otto Medeiros e Karine Nunes Marques para saber qual é a natureza atual das relações profissionais entre os três advogados; se Tracy e Otto mantêm sociedade, parceria profissional ou compartilhamento de clientes; se Tracy integra ou integrou escritório do qual Otto ou Karine façam parte.
Até o momento, não houve resposta. O espaço segue aberto para manifestações.



