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Por Cleber Lourenço
A cerimônia de entrega de espadas a generais recém-promovidos, realizada em 7 de agosto no Clube do Exército, em Brasília, deveria ser apenas um rito tradicional de passagem de comando e celebração da carreira militar. No entanto, o evento ganhou contornos políticos e transformou-se em um palco de reivindicações orçamentárias.
O ICL Notícias teve acesso aos áudios* do último discurso do então chefe do Estado-Maior do Exército, general Richard Fernandez Nunes — que havia passado para a reserva em 31 de julho. Em sua fala de despedida, ele insistiu na necessidade de “previsibilidade orçamentária” e de condições materiais para o Exército cumprir sua missão constitucional.
Logo nesse ponto, a crítica de especialistas ajuda a dimensionar o peso político do discurso. Para o pesquisador Ananias Oliveira, doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Campina Grande e estudioso da participação dos militares na política, a questão da previsibilidade orçamentária é algo pleiteado por qualquer área de governo.
“A diferença é que as Forças Armadas querem 2% do PIB, porque isso é o padrão OTAN. Mas, no caso brasileiro, não faz sentido: geograficamente, historicamente, não há parâmetro que justifique”, afirma Oliveira. “Além disso, boa parte do orçamento das Forças Armadas vai para o pessoal, algo totalmente contrário ao modelo da OTAN. Aqui, a proporção que vai para aposentados, salários, diárias e gratificações é muito maior, desproporcional.”
Logo no início, Nunes condicionou o futuro da instituição à aprovação de uma regra estável de financiamento. “O projeto Força 40 nos aponta o caminho para o futuro, que pode tornar-se menos incerto caso a previsibilidade orçamentária preconizada por nosso ministro da Defesa venha a ser aprovada. Líderes precavidos precisam estar preparados para lidar com essa realidade”, disse o general. Foi o ponto mais explícito de demanda por mais recursos, associando o destino da força ao aumento ou estabilidade do orçamento.
Em seguida, ele avançou para uma justificativa mais ampla, vinculando a missão constitucional a investimentos em estrutura e capacidades: “A obtenção do aprimoramento das capacidades militares terrestres exigem a consciência situacional das necessidades presentes e a antevisão dos cenários que denotem a configuração doutrinária, organizacional, operacional, material, educacional, pessoal e de infraestrutura, que proporciona ao Exército as condições mais adequadas ao cumprimento de sua missão constitucional.” Segundo o general, sem mais verbas, não há condições adequadas de preparo.
Outro trecho reforçou a lógica da pressão orçamentária, agora centrada na chamada “família verde-oliva”. “A efetividade da atuação de nossas tropas nos mais diversos ambientes repousa na certeza de familiares sujeitos a um ato contínuo de adaptação a novas condições, tenham suas necessidades de moradia, de saúde, de educação e de assistência social e religiosa razoavelmente satisfeitas”, defendeu Nunes, em um pedido por recursos para custear benefícios sociais e de bem-estar voltados a militares e seus dependentes.

PEC fixa 2% do PIB para a Defesa
Essas falas consolidaram o tom de lobby que marcou a cerimônia. “Recebam esta mensagem com um misto de aconselhamento, voto de confiança e profissão de fé”, disse ao abrir sua fala, enfatizando que aquele era seu “último dia no serviço ativo”. Ao destacar a “previsibilidade orçamentária”, repetiu a mesma formulação usada pelo Ministério da Defesa ao defender no Congresso a chamada PEC dos 2% do PIB para a Defesa. Essa proposta constitucional, apelidada ironicamente de “PEC do Viagra”, busca engessar no orçamento uma fatia garantida para os militares.
O discurso de Nunes, portanto, não foi apenas de despedida, mas uma sinalização clara de alinhamento com a pauta que mais mobiliza o estamento fardado hoje: a blindagem de verbas.
O general também fez menção ao papel da comunicação estratégica: “Preservar e fortalecer a imagem e a reputação do Exército requer plena aplicação dos preceitos da comunicação estratégica, com estrita observância de regras éticas e normativas.” O trecho reforça a escolha de defender reputação e blindagem institucional, evitando temas espinhosos.
Nenhuma palavra sobre os episódios de 8 de janeiro, sobre o papel de oficiais em omissões de comando, ou sobre a demora em operações contra o garimpo na Terra Yanomami. O foco exclusivo em pedir recursos e proteger a imagem, combinado com a retórica contra críticas, reforça a percepção de que os militares querem “passar o chapéu” sem prestar contas.

Tarcísio e Villas Bôas na entrega de espadas aos generais
Para Ananias Oliveira, a presença do ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas e do governador de São Paulo, Tarcísio de Feitas, ao lado de Nunes reforça esse recado.
“Quando está lá Villas Bôas, quando está lá Tarcísio, é claro que há uma mensagem. São os ‘meus’, aqueles a quem o Exército se refere para garantir que suas demandas sejam atendidas. Há recados explícitos e implícitos. Explicitamente, é a defesa da previsibilidade e de mais recursos. Implicitamente, é a sinalização de que esses são os nomes a apoiar em uma eventual disputa presidencial de 2026”, conclui o cientista social.
Não houve menção a auditorias independentes, a metas de modernização verificáveis, a prazos para entrega de capacidades militares ou mesmo a relatórios de transparência acessíveis à sociedade. O Exército, que já consome boa parte do orçamento com salários, aposentadorias e benefícios, não apresentou no discurso de seu chefe do Estado-Maior qualquer plano para corrigir esse desequilíbrio.
A cerimônia de promoção, marcada pela entrega de espadas, tornou-se um espaço para o Exército reiterar sua principal pauta no Congresso: mais orçamento, sem compromissos claros de eficiência e transparência. A presença de Tarcísio de Freitas e Villas Bôas forneceu a moldura política. Oficialmente, Tarcísio estava no Clube do Exército sob o pretexto de prestigiar colegas de turma da Aman que alcançaram o generalato, mas sua presença ao lado de Villas Bôas acabou servindo como gesto de apoio à agenda orçamentária das Forças Armadas. Assim, a solenidade não só simbolizou apoio momentâneo, como também projetou uma aliança de longo prazo entre a caserna e a política eleitoral.
Ananias Oliveira acrescenta que o corporativismo e o espírito de corpo são elementos permanentes:
“O corporativismo sempre vai estar presente, o espírito de corpo vai estar presente nas decisões. Não é à toa que Tarcísio, capitão da reserva do Exército, escolhe nomes ligados à sua turma em cargos estratégicos, reforçando a rede de vínculos. Quando a cúpula militar se posiciona com esse enquadramento, fica claro o recado: nossas demandas precisam ser atendidas, seja em benefícios, seja em previsibilidade orçamentária”, avalia o pesquisador.
*Agradecimentos ao pessoal do Medo e Delírio em Brasília que enviaram a gravação do discurso para esta matéria



