A economista e professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), Carla Beni, afirmou que o caso envolvendo o Banco Master se tornou um exemplo emblemático da relação problemática entre interesses públicos e privados no sistema financeiro brasileiro. Em entrevista ao ICL Mercado e Investimentos na quinta-feira (5), a especialista classificou o episódio como um caso didático para entender como conexões políticas, institucionais e empresariais podem sustentar operações financeiras de alto risco por longos períodos.
“Se um dia eu tiver que usar em sala de aula a expressão promiscuidade entre o público e o privado, vai ser o caso Master”, afirmou.
Segundo Beni, o modelo de operação investigado envolve estruturas que giram em torno do próprio banco, ampliando os riscos do sistema.
“Você consegue as autorizações necessárias para fazer aquele circuito que o Master fazia, que é fazer operações para fundos que, no fundo, também têm como dono o próprio banco. Então você anda em círculos, ampliando e potencializando esse risco”, analisou.
Supervisão e questionamentos sobre o BC
A economista também questionou como um banco com sinais de fragilidade conseguiu operar por tanto tempo sob supervisão das autoridades financeiras — neste caso, o Banco Central.
Investigações recentes apontam que o banco apresentava indícios de crise de liquidez e risco ao sistema financeiro, com um rombo estimado em cerca de R$ 41 bilhões.
Para a professora, o ponto central do debate envolve o papel institucional do Banco Central do Brasil e a natureza da própria moeda no sistema capitalista.
“O Banco Central é o bastião da moeda. A moeda tem uma dupla e contraditória natureza: de um lado ela é um bem público, de outro é o motor da riqueza privada.”
Segundo a professora, essa contradição cria espaços para distorções quando não há fiscalização adequada. “Nós precisamos saber quem assinou as autorizações. Nada é transferido sem autorização”, pontuou.
Confiança no sistema financeiro em jogo
Outro ponto destacado pela economista é o impacto do caso na confiança da população no sistema financeiro — elemento considerado fundamental para o funcionamento do mercado.
Beni lembra que as moedas modernas são sustentadas basicamente pela confiança. “A base do sistema financeiro é fiduciária. Fidúcia quer dizer confiança. Então, quando alguém diz que está inseguro para saber onde colocar o dinheiro, isso é um gatilho problemático.”
Segundo ela, a expansão de novas instituições financeiras nos últimos anos também contribuiu para aumentar a complexidade da regulação.
“O Brasil abriu espaço para ampliar concorrência no sistema financeiro, mas essas instituições vieram numa esteira de regulamentação menor”, apontou.
Regulamentação e crescimento das fintechs
A economista defende que o crescimento de fintechs e novos modelos financeiros exige atualização regulatória.
Na avaliação da professora, muitas dessas instituições captam recursos de clientes, mas operam sob regras menos rigorosas que bancos tradicionais.
“Qualquer instituição financeira que receba depósito à vista de uma pessoa física, tecnicamente é um banco comercial”, disse.
Essa é uma das razões que a levam a fazer um alerta: o modelo atual pode criar brechas no sistema.
“Se você começa a criar fintechs e outras operações que recebem dinheiro de pessoas físicas com menor regulamentação, o céu é o limite.”
Crise do BRB amplia dimensão política do caso
A crise também se estendeu ao Banco de Brasília (BRB), após a aprovação de medidas para capitalizar a instituição com recursos e ativos públicos.
A proposta prevê um pacote de cerca de R$ 6,6 bilhões, incluindo venda de imóveis e outras operações financeiras.
Para Beni, a rapidez da aprovação levanta dúvidas sobre a transparência do processo.
“O que me impressiona é a rapidez dessa aprovação. Você soluciona um problema sem saber exatamente onde ele estava e quem causou”, observou.
A economista também alertou para o risco de desvalorização de ativos públicos, caso sejam vendidos rapidamente. “Um ativo vale o quanto quiserem pagar por ele. Se eu preciso vender com rapidez, eu abaixo o preço.”
Uso do compulsório e o papel do FGC
Durante a entrevista, Beni também explicou a decisão do Banco Central do Brasil de flexibilizar regras do recolhimento compulsório para reforçar o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
O mecanismo obriga bancos a manter parte dos depósitos como reserva junto ao Banco Central, funcionando como uma espécie de colchão de liquidez.
“Essa é uma ferramenta clássica de política monetária para dar segurança ao sistema”, disse.
No entanto, ela criticou propostas de ampliar o limite de garantia do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, como tentou fazer o senador Ciro Nogueira (PP-PI) ao elaborar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Autonomia Financeira do Banco Central, que ficou conhecida como “emenda Master”.
“Eu sou radicalmente contra. Sem exigir contrapartida dos bancos, isso vira literalmente um cheque em branco para aumentar a alavancagem”, criticou a professora.
“Não é apenas uma crise financeira”
Para a economista, o episódio envolvendo o Banco Master ultrapassa a esfera econômica. “Isso não é uma questão financeira nem contábil. Isto é uma questão política.”
Segundo ela, o caso deve servir como ponto de partida para aperfeiçoar os mecanismos de fiscalização e reforçar a transparência no sistema financeiro brasileiro.
Veja a entrevista completa de Carla Beni no vídeo abaixo:



