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quarta-feira, 11 fevereiro, 2026
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cantor gospel baleado em SP cita racismo e descontrole de PM

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Por Paulo Batistella – Ponte Jornalismo

O cantor gospel João Igor, de 26 anos, diz que o policial militar por quem foi baleado dentro de um ônibus no Terminal Rodoviário da Barra Funda, em São Paulo, na tarde desta quarta-feira (30/7) mostrou-se descontrolado desde a primeira interação com ele e o irmão, Maikon, com quem pretendia viajar para Bauru (SP). O músico afirma ainda entender que ele e o familiar, ambos negros, foram também vítimas de racismo pelo PM, que manteve uma postura intransigente a todo tempo.

“Ele não foi com a minha cara desde quando entrei no ônibus. Ele foi pegar uma água ao lado do banheiro, perto de onde a gente estava sentado, e aí já sacou a arma e ficou me encarando. Aí eu perguntei para ele: ‘Está na paz?’. E ele falou: ‘Estou daquele jeito’.”, relatou o cantor à reportagem da Ponte em uma chamada de vídeo nesta quinta-feira (31/7), enquanto aguardava cirurgia no Centro Médico São Lucas, em Itaquaquecetuba (SP).

O músico relata que o policial, que estava fardado, questionou os dois sobre para onde eles iam e quem eram. Os irmãos responderam então que o cantor era influenciador e que fariam um evento — João Igor tem cerca de um milhão de seguidores no Instagram e viralizou em março deste ano com um vídeo no qual canta o louvor “Faz um milagre em mim” junto da influenciadora Fernanda Ganzarolli, uma mulher trans.

O policial voltou então para um banco mais à frente e, momentos depois, retornou ao fundo do ônibus, desta vez mais incisivo. “Quando voltou, ele perguntou: ‘Cadê a droga, vocês tão fumando?’. Eu falei: ‘Não tem droga nenhuma, senhor, a gente só tem nosso violão aqui’. Foi quando ele veio até mim, e eu liguei a câmera para fazer um ao vivo. Aí ele posicionou a arma na cabeça do meu irmão para atirar”, disse.

“Sabe aqueles policiais novos, que parece que pegou a farda agora? Qual deveria ser o protocolo dele? Pedir meu RG, o meu documento, e mandar eu descer. Mas ele não pediu nada, só apontou a arma na cabeça do meu irmão. Nisso, eu coloquei o braço na frente para ele não matar o meu irmão. Aí ele deu o primeiro disparo. Eu pensei: ‘Ele vai matar a gente aqui dentro’. Depois ele deu mais dois disparos. Foi quando eu fui lá para fora do ônibus e implorei para ele não me matar. Eu pensei: ‘Se eu fico aqui dentro, ele vai alegar que tentamos matar ele, e a gente vai morrer”, contou João, atingido por dois dos três tiros.

PM alegou ter sentido ‘cheiro de maconha’

O PM envolvido na ocorrência, identificado como Gabriel Cardoso, relatou, em depoimento, que teria sentido cheiro de maconha vindo dos fundos do ônibus, onde estavam os irmãos. Ele teria pedido então ao motorista para fazer a abordagem a ambos, quando chegou já com uma pistola Glock em punho. A partir disso, João Igor e Maikon teriam entrado em confronto físico com ele e tentado lhe tirar a arma.

A própria Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP) não confirma, no entanto, ter sido apreendida maconha, mas uma “substância com características semelhantes” que seria submetida a uma análise. À TV Globo, Maikon disse que guardava apenas cigarros comuns na mochila.

“Eu não destratei ele, não desacatei em nenhum momento”, disse João Igor. “Quando ele caiu em si, ele passou a alegar que tinha droga comigo, para tirar a responsabilidade dele. Se tivesse alguma droga lá, por que eu não fui preso? Por que não mostraram essa droga que eles citaram aí?”

Coronel reformado vê abordagem inadequada

O caso foi registrado no 91º Distrito Policial (Ceasa) como resistência, lesão corporal decorrente de intervenção policial, lesão corporal e localização/apreensão de objeto. Maikon chegou a ser detido, mas foi liberado posteriormente. Segundo a advogada Aline Sousa, que auxilia os irmãos, a detenção foi feita sob a alegação de resistência, porque Maikon tentou socorrer o irmão e acabou algemado pelo PM.

“Tenho muitos amigos policiais, então não posso generalizar, mas o que eu vi ali foi um moleque emocionado e sem preparo com uma arma na mão. A gente não estava armado, não roubou ele. Ele simplesmente quis pagar de machão. Acho que estava com ego ferido, não sei o que aconteceu. A gente não quis roubar a arma dele, ele que quis nos matar”, afirmou ainda o cantor.

À Ponte, o coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo (PM-SP) José Vicente da Silva Filho, membro do conselho da Escola de Segurança Multidimensional (ESEM) da Universidade de São Paulo (USP), também disse entender que a abordagem já com arma em punho dentro do ônibus foi inadequada.

“Há detalhes que só serão esclarecidos no decorrer do inquérito, mas o policial deveria aguardar os passageiros descerem para fazer a abordagem mais segura”, afirma José Vicente. “Fumar maconha nem é crime, embora haja medidas administrativas a serem tomadas pelo policial.”

João Igor diz temer sequelas após ter sido baleado

O cantor gospel havia sido socorrido em São Paulo e, posteriormente, foi hospitalizado em Itaquaquecetuba, de onde falou com a Ponte. Ele sofreu um tiro na perna e outro no cotovelo, onde tem agora um projétil alojado. Ele diz temer que a cirurgia para retirada possa provocar sequelas.

“Eu espero que a justiça seja feita. Deus fala para a gente orar pelos que nos perseguem. Tenho certeza que ele [o policial] aprendeu alguma coisa, porque a Corregedoria foi até ele. Ele não é apto para estar com uma arma na cintura. Perdoo ele no meu coração, porque sigo minha religião”, disse.

“A minha maior preocupação hoje é minha mão, porque eu tenho uma bala alojada no meu cotovelo e vou precisar passar por uma cirurgia. Talvez eu não movimente mais a minha mão, e eu toco violão. É o que eu amo fazer. Tenho meus filhos para criar, então, é o que mais me preocupa agora.”

Leia a íntegra do que diz a SSP-SP

As polícias Civil e Militar investigam uma abordagem ocorrida na tarde de quarta-feira (30) em um ônibus rodoviário, no terminal rodoviário da Barra Funda, que resultou em um policial militar e um homem de 26 anos feridos.

A PM foi acionada após o policial, que havia embarcado no ônibus com destino a Bauru, perceber cheiro de maconha vindo da bagagem de dois passageiros. Durante a abordagem, os suspeitos entraram em luta corporal com o agente, e os três caíram da escada do veículo. Nesse momento, houve disparo da arma do policial, que atingiu um dos homens. Ele foi socorrido ao Pronto-Socorro da Santa Casa. O policial sofreu ferimentos na mão e recebeu atendimento na UPA da Lapa. O outro passageiro não se feriu e foi encontrada na sua bolsa substância com características semelhantes à maconha.

Foram solicitados exames periciais ao Instituto de Criminalística (IC) e ao Instituto Médico Legal (IML). O caso foi registrado no 91º Distrito Policial (Ceasa) como resistência, lesão corporal decorrente de intervenção policial, lesão corporal e localização/apreensão de objeto.



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