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Canções de treinamento físico militar normalizam lógica de guerra na PM, diz especialista

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Por Paulo Batistella — Ponte Jornalismo

Um vídeo de soldados recém-formados pela Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PM-MS) causou espanto na última semana: no registro, os agentes entoam, dentro da sede do comando-geral da corporação, uma canção que faz apologia à prática de tortura. “O interrogatório é muito fácil de fazer: eu pego o vagabundo e bato nele até morrer”, diz um dos trechos da música.

O governo sul-matogrossense, sob gestão Eduardo Riedel (PSDB), comunicou ter sido uma “manifestação isolada” que não representa os valores da PM-MS. No meio militar, no entanto, repetir a música é algo comum: ela é conhecida pelo título “Eu sou a morte” e é possível encontrar com facilidade no YouTube gravações cantadas, com algumas variações, por policiais em serviço de diferentes estados, como Paraná e Pará, além de integrantes das Forças Armadas.

Espanca até morrer': formandos da PM-MS entoam canto sobre tortura na sede do comando-geral

Trata-se de uma canção de treinamento físico militar (TFM). Também no YouTube, estão disponíveis coletâneas desse tipo de música, que, em geral, carregam o mesmo mote de violência contra inimigos, disciplina e heroísmo de militares. Entre policiais, elas são também conhecidas como “CM” ou “Charlie Mike”, nome que tem as mesmas iniciais da expressão “canção militar”.

Elas são ensinadas aos agentes e repetidas em disciplinas práticas durante a formação e em treinos físicos ao ar livre. Ainda em 2007, o filme Tropa de Elite popularizou uma dessas canções, repetida até hoje pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro (PM-RJ): “Homem de preto, qual é sua missão? Entrar pela favela e deixar corpo no chão“.

No ano passado, veio à tona um vídeo em que policiais das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), unidade que mais mata da Polícia Militar paulista (PM-SP), cantavam em exaltação ao Massacre do Carandiru.

Canções propõem violência em vez de inteligência e prevenção

Para o pesquisador Renato Alves, vinculado ao Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), esse tipo de canção, tida como inofensiva ou até inspiradora por policiais, impõe já na formação uma lógica de guerra para a segurança pública. E refletem uma cultura policial que exige de cada agente uma postura individualizada de heroísmo — em certa medida, normalizam as mortes cometidas em serviço e contribuem para o sofrimento psíquico no exercício da profissão.

“Essas canções trazem a ideia de derrubar e matar como se policiamento fosse isso. Enfrentar bandido é a exceção da regra: ninguém sai trocando tiro a torto e a direito todos os dias. Acontece? Sim. Mas isso é exceção. O cotidiano é o policiamento de prevenção, é o cara que vai dar informação, que lida com a briga entre vizinhos, de marido e mulher, a discussão de trânsito”, diz o especialista.

“Ele [o policial] está ali justamente para prevenir, para que aquele conflito não escale para uma violência mais grave, até uma morte. E tem policial que, às vezes, até acha que isso não é trabalho de polícia”, afirma o pesquisador do NEV-USP.

“Tenho um amigo coronel que diz: ‘Se você só treinar o cara para usar martelo, tudo para ele vai ser prego’. Com esse tipo de formação, com esse imaginário que essas canções produzem, se cria um policiamento de exceção, e falo em exceção em dois sentidos: tanto o que excede o cotidiano, quanto a ideia de um Estado de exceção, de violação de direitos de populações vulneráveis”, diz. “Nessa lógica, tudo se resolve na base da bala e da força. Essas canções calcam a ideia de que o instrumento de trabalho da polícia é a violência, e não necessariamente a inteligência.”

O pesquisador ressalta o prejuízo que esse tipo de imaginário traz aos próprios policiais: “Ele reforça uma ideia do policial como herói de filme americano, que se expõe. Quando isso dá certo, ele ganha medalha. Quando dá errado, o problema é dele: tem que arranjar advogado, se defender, ser transferido. E isso tem um impacto na saúde mental e nos suicídios desses policiais.”

“A segurança pública não tem que ser ato de heroísmo, mas planejamento, inteligência, prevenção. Transformam algo que é institucional em práticas individuais. A pessoa que está ali na ponta tem que ser um trabalhador, não um herói”, completa Renato.

Canções de treinamento físico militar normalizam lógica de guerra na PM, diz especialista

Policiais da PM-MS entoaram canção na sede do comando-geral, em Campo Grande (MS)  (Foto: Reprodução)

Lógica de guerra na PM é herança da ditadura

O pesquisador explica também que a lógica de guerra expressa pelas canções de TFM é uma herança da ditadura, que faz com que haja uma unidade nacional entre as polícias, embora sejam estaduais, no que diz respeito ao imaginário que elas carregam sobre o exercício da profissão. A música entoada pela PM-MS já era cantada, antes de outras polícias, justamente pelas Forças Armadas.

“As Forças Armadas são montadas para enfrentar um inimigo externo, tem um lógica de enfrentamento de invasores. A ideia de polícia não é necessariamente essa, é de cidadania, porque está lidando com cidadãos, com a própria população. Mas, no Brasil, essas coisas foram borradas”, alerta ele.

“É uma ideia que não vem só de 1964, mas da nossa república que nunca foi república, da ditadura Vargas, do Estado Novo, que já construíam essa ideia de um inimigo interno. Essa construção social também reflete nas práticas da polícia. A polícia protege quem contra quem? Isso cria uma ideia de cidadania que não é universal: alguns são mais cidadãos do que outros, são os chamados ‘cidadãos de bem’. Esses resquícios vêm até de uma história mais longa nossa, porque é também uma lógica de capitão do mato”, diz Renato.

Ato não é isolado, diferentemente do que alega governo de MS

O especialista diz ainda que é insustentável a alegação do governo sul-matogrossense de que a cantoria no pátio da sede do comando-geral da PM-MS seja algo isolado e que não reflita os valores da corporação. Para ele, qualquer prática no meio militar exige aval ou, no mínimo, conivência institucional.

“Em uma instituição militar hierárquica como é a Polícia Militar (PM), nada acontece sem autorização superior. Isso [os policiais entoarem a canção] não reflete um desvio da norma. Se está acontecendo, é porque houve autorização da instituição. Quando a gente vê esse tipo de ato se reproduzindo em diferentes lugares e momentos dentro da estrutura das polícias, é porque não é algo isolado. Isso se repetir é algo que revela que, dentro dessa cultura e instituição, existem esses valores. São nesses atos, e não naquilo que é dito, que aparecem os valores que de fato orientam as práticas de uma instituição”, afirma.

“E isso se revela não só no discurso, mas empiricamente em números de letalidade policial no Brasil, que são escandalosos. Então, a musiquinha não é só uma musiquinha. É um discurso que vai se transformando em prática, que vai mobilizando comportamentos. Quando a gente pega a música e cruza com dados de letalidade policial, fica claro que aquilo não é algo isolado.”



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