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sábado, 11 abril, 2026
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BRUNO NATAL: Influenciadores de ultradireita que não existem

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Nas redes sociais, Danny Bones parece um rapper britânico revoltado com imigração e globalização. Já Dona Maria, uma senhora negra, madura, publica vídeos indignada com o governo Lula. Os dois perfis acumulam milhões de visualizações, publicam constantemente e mobilizam as bases eleitorais. Só que nenhum dos dois existe. São personagens gerados por IA, criados como ferramentas de propaganda política. E o caso brasileiro pode ser ainda mais grave.

Dona Maria acumula mais de 200 mil seguidores no Instagram, mais de 100 mil no Facebook e mais de 200 mil no TikTok. Sua bio é transparente, lá diz que é uma “personagem criada com IA e conteúdo baseado na realidade dos brasileiros”. Acontece que os vídeos são realistas o suficiente para enganar alguém.

Nos comentários, os seguidores apoiam com frases como “Dona Maria, a senhora falou tudo” ou elogiam “alguém dessa idade que sabe se posicionar”. Na análise do podcast Calma Urgente, a personagem foi construída para atingir exatamente o público mais disputado nas eleições de 2026: mulheres negras, de baixa renda, maduras, uma base histórica do PT que tem votado menos nos últimos anos, também por influência religiosa.

No Reino Unido, o caso Danny Bones segue linha parecida. O personagem foi criado pelo grupo anônimo The Node Project para o partido de extrema-direita Advance UK, segundo investigação do Bureau of Investigative Journalism. Seus vídeos mostram marchas nacionalistas e slogans patrióticos e xenófobo.

Danny Bones, o rapper nacionalista criado pela IA

Em um dos vídeos, Danny lidera uma multidão carregando bandeiras nacionalistas. Em outra, veste uniforme militar com a inscrição “Mass Deportation Unit” (Unidade de Deportação em Massa). O artista sintético faz sucesso e já soma mais de 250 mil streams no Spotify e seus vídeos acumulam mais de 2,7 milhões de visualizações em TikTok, YouTube Shorts e Instagram Reels.

No podcast RESUMIDO , comentei como esse pode ser o primeiro caso documentado no Reino Unido de um partido usando influenciadores sintéticos de IA como parte explícita de campanha política. O caso mostra como a IA reduz drasticamente o custo e o tempo para produzir propaganda. Antes, seria preciso encontrar artistas, músicos, cinegrafistas e atores. Agora, uma equipe pequena consegue criar dezenas de músicas, vídeos e personagens em poucas horas.

Plataformas como TikTok e Instagram removeram parte do conteúdo após a história vir a tona. O Spotify manteve as músicas disponíveis, alegando que não violam suas políticas. Chega a ser irônico partidos que dizem defender “o povo real” e “a identidade nacional” recorrem a personagens artificiais, sem rosto e sem biografia, para amplificar o apoio popular espontâneo.

Esses casos apontam para uma transformação da propaganda política. Em vez de comprar anúncios tradicionais, partidos podem criar influenciadores sintéticos permanentes, capazes de publicar 24 horas por dia, testar narrativas diferentes e gerar engajamento constante sem nunca envelhecer, cansar ou errar.

A IA não está apenas mudando como se faz campanha. Está mudando a própria ideia do que é real e do que é fabricado para parecer real. Esse ano, as eleições no Brasil prometem.

 





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