Por Cleber Lourenço e Jamil Chade
O novo levantamento do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI) coloca o Brasil dentro de uma tendência global de alta nos gastos militares, mas com uma particularidade que chama atenção: o crescimento ocorre sem mudança estrutural na composição do orçamento.
Em 2025, o país elevou seus gastos militares em 13%, chegando a US$ 23,9 bilhões. O movimento acompanha a escalada global, que atingiu US$ 2,88 trilhões — maior valor já registrado e resultado de um aumento de 41% na última década.
Apesar disso, o Brasil permanece na 21ª posição no ranking mundial, sem ganho de relevância estratégica. Mais do que isso, os dados mostram que o aumento recente não representa um salto em capacidade militar.
Ao mesmo tempo, o país segue como líder absoluto na América do Sul em gastos militares. Na prática, o Brasil responde por 42,4% de todo o orçamento militar da região — uma concentração que reforça seu peso regional, mas que não se traduz, na mesma proporção, em capacidade operacional.
O próprio SIPRI aponta que a expansão dos gastos foi impulsionada principalmente por dois fatores: investimentos pontuais no desenvolvimento tecnológico naval e, sobretudo, aumento dos custos com pessoal militar.
“O Brasil, o país que mais investiu na sub-região, aumentou seus gastos militares em 13% em 2025, para US$ 23,9 bilhões”, explicou o SIPRI. “O aumento deveu-se principalmente ao aumento do investimento no desenvolvimento tecnológico naval e aos maiores custos com pessoal militar”, disse.
Os números detalhados da execução orçamentária do Ministério da Defesa ajudam a dimensionar esse diagnóstico.
Dos R$ 118,66 bilhões efetivamente executados em 2025, R$ 103,43 bilhões foram destinados ao programa de gestão e manutenção da máquina pública — um bloco que concentra despesas com pessoal ativo, inativos, pensões e encargos.
Na prática, isso representa cerca de 87% de todo o orçamento executado.
Dentro desse conjunto, os gastos com inativos e pensionistas militares somaram R$ 56,09 bilhões. Esse valor, isoladamente, corresponde a aproximadamente 47% de todo o orçamento da Defesa no ano.
Quando se adicionam os gastos com militares da ativa, o quadro se torna ainda mais concentrado: cerca de 74% de toda a despesa do ministério está vinculada a pessoal.
O contraste com áreas finalísticas é expressivo. Programas voltados à gestão de riscos e desastres, por exemplo, executaram menos de meio bilhão de reais ao longo do ano, representando uma fração mínima do orçamento total.
Mesmo funções diretamente ligadas à defesa nacional ficaram abaixo do montante destinado ao pagamento de benefícios previdenciários militares.
Orçamento rígido trava investimentos
Esse desenho reforça uma característica estrutural do orçamento da Defesa: a rigidez. Com a maior parte dos recursos comprometida com despesas obrigatórias, o espaço para investimento, modernização e expansão de capacidade permanece limitado.
O efeito aparece também na comparação de longo prazo. Apesar do aumento recente, os gastos militares brasileiros cresceram apenas 1,6% em uma década. No mesmo período, o mundo ampliou essas despesas em 41%.
Além disso, o peso do orçamento militar no PIB brasileiro caiu de 1,3% em 2016 para 1,1% em 2025.
Ou seja, o Brasil gasta mais em termos nominais, mas menos em termos proporcionais — e com uma composição que pouco favorece ganhos operacionais.
Nos bastidores do governo, esse cenário já é alvo de debate. Há uma avaliação de que o país precisa revisar a forma como financia suas Forças Armadas, especialmente diante de um ambiente internacional mais tensionado.
Mas a discussão esbarra em um ponto central: sem mudanças na estrutura de gastos, qualquer aumento orçamentário tende a ser absorvido pelas mesmas despesas que hoje já dominam o orçamento.
A leitura interna é direta: ampliar recursos sem enfrentar o peso das despesas com pessoal significa reforçar um modelo que cresce sem se transformar.
Na prática, o Brasil mantém um orçamento militar elevado para sua realidade regional, mas com baixa capacidade de conversão desse gasto em poder militar efetivo — mesmo concentrando quase metade dos gastos de toda a América do Sul.
O resultado é um sistema que se retroalimenta: a rigidez orçamentária limita investimentos, a falta de investimento impede modernização e a ausência de modernização reforça a dependência de estruturas já existentes.
Enquanto isso, o debate público segue concentrado no volume de recursos, e não na forma como eles são distribuídos — ponto que, segundo os próprios dados, define o real alcance do poder de defesa do país.



