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terça-feira, 3 março, 2026
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Bolsonaro S/A: como se está a fazer negócio com candidaturas em Brasília

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O jovem executivo, sócio de uma produtora de marketing político que diz atuar oferecendo serviços eleitorais “360º” (ou seja, fazem de tudo numa campanha), está sentado na última cadeira da última mesa de uma cafeteria na Asa Sul de Brasília. Chegou mais cedo que o horário combinado e escolheu o lugar: uma cadeira no canto do salão que o coloca próximo a uma saída, de costas para duas paredes sem janela e com visão completa de quem entra, de quem sai e de quem está no recinto.

– Por que sentou aqui, tão escondido? – quis saber.

– Porque daqui vejo tudo e poucos podem me ver.

Já tinha pedido uma água com gás, limão, e um suco de graviola com coco. Parecia ansioso.

– Você conhece candidatos com chances de se elegerem, em qualquer lugar do país, para a gente fazer campanha? Pode ser de qualquer partido, ou mesmo sem partido. Se for sem partido, a gente pode abrir conversa na DC, a Democracia Cristã, ou no União Brasil – “adoro o Arrueda. É muito pragmático”, diz ele, errando o nome de Antônio Rueda, presidente do União Brasil. Depois, prossegue: – O ideal é ser de direita. E pode até querer ser filiado ao PL, mas filiado ao PL é mais difícil vir agora para se eleger porque eles estão trabalhando há muito tempo.

O objetivo dele é arrumar cinco campanhas para deputado federal até o dia 4 de abril, prazo fatal para a troca de legendas segundo a legislação eleitoral.

– Cinco é o meu target. Consigo levantar R$ 5 milhões em empréstimos bancários para cada campanha – explica. E prossegue: – Temos certeza da vitória. Cada candidato que nos entregar a campanha para fazer recebe em garantia documentos de cinco terrenos em Trancoso que valem R$ 1 milhão cada um. É uma área lá no sul da Bahia onde temos um conjunto de 25 terrenos à disposição. Se o candidato perder a eleição, ele transfere os terrenos em definitivo para ele e não tem prejuízo nenhum, só o eleitoral. Se ganhar, rasga as escrituras promissórias, nós pagamos os empréstimos bancários com doações dos partidos no Caixa 1, ficamos com a sobra do arrecadado no Caixa 2, e o eleito nos dá o direito de montar e tocar o gabinete parlamentar dele. Tudo o que ele fizer, seremos nós que faremos por quatro anos. Se for senador, por oito anos. Todas as emendas que ele fizer seremos nós fazendo e executando na ponta. Esse é o sistema. Não tem erro.

Estava inerte e até me deliciava com o perfume do café expresso duplo nas narinas sem conseguir devolver a xícara ao pires tamanha era a perplexidade com o que ouvia. De tão estapafúrdia, a história me entretinha.

– Rapaz, estou nessa zona de Brasília há 35 anos. Desde que cheguei, mergulhei fundo nos porões da cidade. Já estive em todos os quartos desse bordel e nunca ouvi nada parecido com esse esquema que você falou.

– Esse é o novo mecanismo das campanhas de deputado e de senador. Nós sabemos fazer campanha vitoriosa. Garantimos a eleição do candidato, desde que ele nos entregue acesso a tudo e faça o que a gente mandar ele fazer.

O interlocutor nunca falou em diversidade de gênero. Naquele micromundo tóxico dele, talvez, fossem todos homens e não havia espaço para mulheres.

– Vocês têm 25 terrenos em Trancoso, separam cinco para cada candidato, se eles perderem a eleição ficam com as escriturar…?

– Isso.

– Esses terrenos estão limpos, ou são áreas indígenas invadidas e as escrituras não têm valor algum?

A pergunta, que ficou sem resposta, encerrou a conversa. Sorrimos os dois, ouvi que podia deixar a água com gás e o expresso duplo que ele pagaria, pois jantaria ali mesmo e estava esperando um provável alvo de suas incursões pelo mundo da política. Apertamos as mãos num gesto de cavalheiros e saí.

As más ideias de campanha escalaram na urna

Corri ao encontro de outro publicitário, mais careta (e mais velho também). Ele tentava vencer bloqueios a seu nome junto ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e ao cacique do PL, Valdemar da Costa Neto, presidente do PL que toca o partido como se fosse uma empresa familiar de grande porte com faturamento certo de R$ 1 bilhão por ano (fundo partidário, um elo perdido entre a insanidade e o universo paralelo brasiliense).

– Arrumamos uma forma de autofinanciar a pré-campanha – anunciou tão logo sentamos num boteco para uma happy hour.

Lançando um olhar de dúvida, cenho franzido, deixei claro que ele seguisse falando e me contasse como faria aquilo.

– O Flávio precisa ser chancelado pela Faria Lima, pelo mercado financeiro, pela turma do agronegócio… eles queriam o Tarcísio (governador de São Paulo) candidato. Não rolou. Agora é Flávio. Todos querem ouvir o filho do Bolsonaro que pode vencer o Lula. Então, vamos armar um road show dele no mercado financeiro. E vamos cobrar por isso.

– Como é que é? – quis saber. – Vocês vão fazer uma pré-campanha e cobrar por ela? Pela lei eleitoral, esse ingresso de recursos é ilegal e pode render abuso de poder econômico.

– Nada disso. O recurso que precisamos levantar vai financiar os pequenos grupos de estratégia de pré-campanha. Pesquisa, redes, comunicação, agenda e deslocamentos.

– Quanto?

– Oitenta a cem mil reais por reunião com banqueiros e executivos. Se fizermos quatro por mês, 400 mil num mês, paga os custos desse ciclo até julho. Aí, quando a campanha começar pesado, entra o recurso do partido por dentro e a gente tem como pagar tudo e arrecadar em paralelo. Mas, o fundamental é mostrar tônus muscular para fechar boas chapas de deputado.

– E deputado dá dinheiro? – especulo com curiosidade sincera em razão da primeira conversa daquela tarde-noite.

– Claro! E muito. Não faremos proporcional, deputado… um ou outro senador, talvez. Mas eles dão dinheiro na manutenção do mandato. O mandato terceirizado. O cara se elege, nós tocamos os gabinetes e as emendas.

– Cacete. E é assim mesmo, é? Você é a segunda pessoa do dia e desse meio que me diz na lata como se faz hoje em dia.

– É assim. Não existe política por paixão, por ideias… isso só se vê nos esquerdinhas. Política é negócio. Como negócio, tudo tem método de funcionamento.

– E o Valdemar já sabe que vocês estão buscando esse autofinanciamento do esquema de campanha do Flávio Bolsonaro?

– Então… saber exatamente, sabe não.

– Mas ele gosta de saber exatamente de tudo. Ele é um profissional do ramo de fazer negócios e influenciar pessoas no mundo da política desde que levou a Lilian Ramos, sem calcinha, para ficar ao lado do Itamar Franco no sambódromo no Carnaval de 1993. Depois, ajudou o presidente a levar a moça para ir jantar na suíte presidencial do Hotel Glória e, num piscar de olhos, tornou-se íntimo do Itamar.

Achei que era de bom tom advertir, apesar de não ter nenhuma intimidade com o outro que me ouvia. Pela resposta dele, com uma pergunta, percebi que agi corretamente.

– Pois é: ainda não explicamos ao Valdemar como nosso mecanismo funciona totalmente. Você acha que ele vai chiar quando souber?

– Acho. Não porque seja uma maluquice total; ou porque seja ilegal à luz da lei eleitoral… o Valdemar tem frieza para operar com essas coisas de ilegalidades… Acho que ele vai ficar puto é de não ter vislumbrado esse modelo de autofinanciamento de pré-campanha na frente de vocês.

Rimos alto e ao mesmo tempo. O publicitário, um ex-funcionário público convertido a dono de produtora e de agências on line e off line durante o período em que Michel Temer ocupou a presidência da República, fez questão de ressaltar:

– É tudo teórico ainda. Ninguém se dispôs a nos pagar lá na Faria Lima… você conhece alguém que pagaria?

A conversa terminou ali, pois virou uma unhappy hour. O sorriso amarelo deixou claro que não gostei da sondagem. Depois dela, pelos rituais de Brasília, fatalmente viria a pergunta: “você quer quanto de comissão para viabilizar esses contatos?” Como ali não tinha havido consumo, não deixei sequer pendura às expensas do rufião da política. Saí com a certeza de que a commodity “Bolsonaro S/A” , com a efígie do filho 01 do ex-presidente preso por tentar um golpe de Estado, já estava sendo oferecida com sofreguidão nos pregões virtuais e silenciosos da política.

 





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