Me distraí e perdi o rumo. O dia estava esplêndido e o céu pintado de azul.
Na verdade, naquela manhã não tinha um compromisso sério com coisa alguma, nem com ninguém.
Saí de casa em busca do sabor perdido de uma fruta estranha do nosso pomulário americano: a sorva, a “uva cabocla”, assim chamada pelo poeta Luiz Bacellar em seu “Sol de Feira”.
Fora da poesia seu nome científico é menos sonoro: Couma utilis, pertencente à família Apocynaceae.
Uma fruta com o sabor da floresta, de casca verde escuro, em formato de uvas gigantes, vendida nas feiras, arrumadas em cachos amarrados com barbante ou fios de plástico.
Estava a caminho da feira de Aparecida, quando entrei na rua errada. O último quarteirão da Leonardo Malcher, descendo em direção a um pedaço do rio Negro, resto de água ainda da enchente passada, bem ali na minha frente.
Estava na rua errada mas a Leonardo me encantou com as suas casas antigas muito bem conservadas, com plantas viçosas na calçada, algumas com as portas abertas por trás das grades dos portões, deixando o olhar curioso capturarar detalhes da decoração.
Antigas, antiquíssimas são na realidade poucas. Umas quatro no máximo. Mas perfeitas em sua arquitetura original. Suponho que no passado todas as casas daquela rua eram nesse estilo belle époque.. Mas as reformadas não deixam a desejar. O mau gosto passou longe dali.
Além das casas muito bem conservadas, impressionou-me a limpeza absoluta da rua estreita, de mão dupla e o fato de, no meio da manhã, estar completamente vazia.
Esse trecho final da Leonardo Malcher é ramificado por inúmeras vilas e ruelas , excepcionalmente limpas em comparação aos novena e nove por centro das do centro histórico da cidade invadido por fedores, lixo, ruídos, trânsito caótico, transeuntes tensos, na defensiva dos assaltos e do calor infernal que a falta de arborização ajuda a exagerar.
Êita Manaus! Já foste linda, Cidade Sorriso, Paris da Selva, pobre, rica, pobre de novo.
Chego, por fim, ao meu destino: a perigosa Feira de Aparecida e caminho sob o azul das lonas de plástico que têm o poder de alterar as cores originais das carnes, dos peixes e das frutas, além de elevar em muitos graus a temperatura ambiental.
Entre bananas, tapiocas, especiarias, tajás e buganvílias, as bancas de alimentos fervem panelões alimentados a botijões de gás sem qualquer fiscalização.
Nem é bom pensar!
No caminho pelas tortuosas calçadas quebradas da Alexandre Amorim, que levam até a feira, encontro mais alguns resquícios de uma cidade com um passado nobre.
Casas antigas do começo do século abandonadas, outras modernosas, algumas ainda guardam traços da graciosa arquitetura dos bangalôs dos anos 30.
Que é das “ 13 Casas dos Tocos”, da balada do poeta?
Aquelas (…) casas unidas/ as 13 casas nascidas/ no mesmo lance de rua/ com as mesmas paredes-meias/os mesmos oitões de taipa, a mesma fachada nua/ e as mesmas janelas tristes de 13 casas na rua?”(…)




