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sábado, 28 fevereiro, 2026
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As festas do Master em Trancoso e a cafetina do Crato

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Deu na coluna “Reserva Exclusiva”, editada por Luís Costa Pinto na revista “Liberta”:

Um dos operadores dos fundos administrados pela REAG DTVM, liquidada pelo Banco Central no dia 15 de janeiro desse ano, assegurou à coluna que existem vídeos documentando as festas privadas dadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro na confortável casa de veraneio que ele mantinha em Trancoso, praia do sul da Bahia.

Altas autoridades dos Três Poderes da República foram a essas festas. Do Poder Executivo, no atual governo, ninguém protagoniza as fitas. Integrantes do ministério de Jair Bolsonaro, no governo passado, sim. À farta. Eram farrinhas privê reunindo homens e mulheres do mercado financeiro, da política e do meio jurídico.

A nota sacudiu corredores de Brasília e muitos andares na Faria Lima, o centro financeiro de São Paulo.

Esse tipo de festa não é novidade como parte do lobby e da corrupção política. Até outro dia, cada grande empreiteira mantinha o seu Café Photo em Brasília — aqui cito, data vênia, o estabelecimento que fez história na prostituição de luxo em SP.

A prática vem lá dos tempos da República Velha.

“Aufer meretrices de rebus humanis, turbaveris omnia libidinus.” PC Farias, tesoureiro e sócio do ex-presidente Collor, amava essa frase de Santo Agostinho no seu latim de ex-seminarista. Em uma tradução de botequim, seria algo como “tire as prostitutas da sociedade e você verá a luxúria bagunçar tudo.”

Sem o mesmo estilo de Santo Agostinho, porém com muita classe, a cafetina Jeany Mary Corner, minha conterrânea do Crato, me soprava chistes moralistas com esse mesmo sentido.

Foram as festas calientes promovidas pelo banqueiro Vorcaro, com ajuda do pastor Fabiano Zettel (Igreja da Lagoinha), que me despertaram as lembranças da cafetina oficial dos Três Poderes.

Quando o nome de Mary Corner foi pronunciado no Congresso, durante as sessões da CPMI dos Correios, uma grande parte dos políticos em Brasília entrou em pânico. Ter envolvimento em casos de corrupção, tudo bem, é chato, porém a maioria dos parlamentares está ou parece habituada a este incômodo.  Constar de uma lista de clientes de serviços sexuais, aí sim, seria um vexame para deputados e senadores eleitos com o discurso em defesa da família, da moral e dos bons costumes.

O efeito Corner sacudiu a política brasileira naquele frio agosto de 2005, quando o senador Demóstenes Torres (DEM) perguntou a depoentes, durante as investigações, se eles conheciam os serviços da cafetina. Havia a suspeita de que o empresário Marcos Valério pagava festas e bacanais para facilitar negócios escusos com bancadas e partidos.

A primeira reação de Mary Corner diante do escândalo foi questionar a sua função nas farras do poder: “Epa, sou promoter, não cafetina”.

Famosa por organizar festas privadas para deputados, senadores, ministros, empresários e lobistas, ela tinha todo o direito de “nomear” o seu ofício da melhor maneira possível. Para estes eventos, convocava “acompanhantes de luxo”.

Mesmo em um cenário de intrigas e discordâncias políticas, sempre houve uma unanimidade na capital federal: ninguém promovia uma farra de arromba como a ilustre “Madame Claude do Crato”.

Algumas garotas de programa de Mary Corner cobravam até R$ 10 mil por uma noitada com um cliente VIP na Capital Federal. Isso era nada diante das licitações dirigidas nas concessões das rodovias de São Paulo, por exemplo.

Na agenda, a promoter mantinha os nomes de centenas de parlamentares e quase toda a esplanada dos Ministérios. Algumas autoridades chegaram a ser citadas nas investigações da CPMI dos Correios. Não ficou provado, porém, que os serviços sexuais haviam sido pagos pelos esquemas. Este tipo de transação, convenhamos, não costuma deixar recibos na alcova.

Em 2013, Mary Corner voltou a assombrar os políticos. Ela foi acusada de envolvimento com uma quadrilha de garotas de programa que cooptavam prefeitos para desviar recursos de serviços municipais de previdência. Negou qualquer ato criminoso.

Nascida em uma família pobre, Jeany Gomes da Silva (nome de batismo) passou a adolescência em Lavras da Mangabeira, município vizinho do Crato na região do Cariri cearense. Deixou o estado aos 18 anos, após ser flagrada por uma tia em cena de sexo com um rapaz, algo inadmissível para os pais, católicos fundamentalistas.

Expulsa da cidade pelo falso moralismo, a garota se mudou para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como empregada doméstica e rodomoça — comissária que atende passageiros de ônibus.

A difícil vida fácil da minha conterrânea daria um belo romance ao melhor estilo Nelson Rodrigues. Não bato o mesmo bolão do “anjo pornográfico”, mas desde já me candidato a biógrafo. O Lira Neto e o Mário Magalhães me passam as coordenadas.

“Domine, libera me a tentationibus, sed non hodie.” Senhor, livrai-me das tentações, mas não hoje, diria o abençoado Santo Agostinho. Sempre ele, o homem que viveu a luxúria como ninguém, depois se aquietou nas mãos de Deus.





ICL Notícias

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