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O Brasil tem uma histórica dificuldade – por diversas razões que escapam ao objetivo desse texto – de se reconhecer como um país irmanado às Américas afro-indígenas-latinas. Muitas vezes desconhecemos e ignoramos nossos vizinhos.
Um assunto fascinante para quem pesquisa, trabalha e escreve sobre religiosidades brasileiras é cruzar as percepções sobre as encantarias no Brasil e na Venezuela. O culto às “cortes espirituais” da Venezuela é uma das linhas mais interessantes das sabenças encantadas afro-ameríndias.
A crença venezuelana nas cortes é um culto aos ancestrais que divide os espíritos em vinte e uma linhas, lideradas por uma trindade formada por María Lionza, o Negro Felipe e Guacaipuro, um chefe indígena.
Temos, dentre outras, cortes de índígenas, africanos, chineses, médicos, jovens, vikings (sim, formada por espíritos de navegadores escandinavos que por aqui se encantaram em tempos imemoriais) e libertadores – espíritos dos que lutaram nas guerras anticoloniais de libertação nas Américas.
A corte chamarrera, a que mais me fascina, é aquela formada por espíritos que conhecem os segredos das folhas e das mandingas diversas, liderada por Don Nicanor Ochoa Pinto, o “viejo amado”. É uma corte muito ligada a dos “juanes encantados”, os curandeiros dos males, como don Juan de los cuatro caminos, don Juan del tabaco, don Juan de los cuatro vientos, don Juan de los suspiros, don Juan de la calle, don Juan del amor, don Juan de las aguas, don Juan del dinero, don Juan del progreso, don Juan de la fuerza,don Juan del pensamiento, don Juan del chaparro etc.
Outra corte importantíssima é a dos malandros, protegida, diga-se, por Eleguá; Exu. É “la Corte Malandra”, como os venezuelanos a denominam. É uma corte recente e urbana. Nela se destacam, dentre outros, os espíritos dos malandros Ismael Sanchez, El Ratón, Isabelita (a moça das esquinas, similar às nossas pombagiras e malandras), Luisito, Luis Sanches, el malandro Petróleo Crudo, la malandra Elizabeth, Pedro Hilário, Tomasito, el pavo Freddy…
Há ainda vasto cancioneiro da malandragem espiritual venezuelana que se cruza de forma fascinante na temática com o cancioneiro da malandragem (dos sambas e dos pontos de macumba) brasileira.
Ando fazendo um mapeamento das culturas de tambor nas américas. Normalmente temos uma visão de malandragem muito marcada pela ideia do “malandro carioca” do pós-abolição. A corte malandra venezuelana redimensiona essa ideia e amplia bastante a dimensão do malandreamento espiritual como fenômeno diaspórico e contemporâneo.
Chamar a atenção para afinidades culturais, enfim, é também um caminho para a construção de laços de solidariedade entre os povos do sul; geralmente acossados por impérios colonizadores (espanhóis, portugueses, americanos do norte) especializados em pilhagens de recursos, aniquilação de corpos não brancos e destruição de modos de vida.
PS: Apenas para deixar uma turma com a pulga atrás da orelha, eu ando seriamente desconfiado de que achei Seu Zé Pelintra na Venezuela: catimbozeiro no Nordeste, boêmio da Lapa no Rio de Janeiro e comandante de uma roda de baralho em Caracas, na década de 1960.
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