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quarta-feira, 1 abril, 2026
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As cidades – ICL Notícias

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Em tempos relativamente recentes, ninguém representou mais o projeto do Rio de Janeiro como uma cidade para negócios, o balneário de megaeventos, que Eike “sempre ele” Batista. Bajulado por boa parte da imprensa e políticos poderosos, citado como o empreendedor do futuro, laureado como homem do ano, ícone da ideia de que podemos ser bilionários sem culpa e o escambau, Eike foi elevado ao posto de carioca maior. Vi gente comparando o homem ao Barão de Mauá – até o dia em que o herói civilizador entrou em cana.

Não é sobre o Eike, todavia, que quero escrever. Nem mesmo sobre o Rio de Janeiro especificamente; mas sobre o que está ocorrendo com nossas cidades. Exemplifico. Cresci frequentando certo comercio de rua que hoje virou uma espécie de ararinha-azul, em vias de extinção. Velhas barbearias, açougues, livrarias, quitandas, botequins, floristas, lojas de macumba, aviários, marcenarias, etc., estão indo para o beleléu.A tendência é que esse comércio pequeno e mais afetivo seja engolido pelo gigantismo dos hortifrútis, salões de shopping, ‘megastores’, franquias de bares de grife, butique de carnes, lojas virtuais de departamentos e similares.

Cresci aprendendo que as coisas têm fundamento, e um lugar não é apenas a matéria bruta de seus alicerces. Uma cidade é feita das memórias, aspirações, sonhos, desilusões, conquistas, fracassos, alegrias e invenções da vida de inúmeras gerações que cruzaram suas ruas. Um lugar tradicional é, portanto, também o resultado das experiências intangíveis, matéria da memória acumulada pelos que ali experimentaram modos de vida e instâncias de sociabilidade.

Sobre a minha cidade, posso falar com certa propriedade. Boa parte da cultura do Rio de Janeiro veio da rua. Como escrevi em certa ocasião, entre pernadas, batuques, improvisos, corpos dançando na síncopa, gols marcados na várzea, gudes carambolando e pipas cortando os céus, a tessitura da cidade foi se desenhando nas artes de inventar na escassez. Foi assim que o carioca zuelou tambor, jogou capoeira, fez a sua fé no bicho, botou o bloco na avenida, a cadeira na calçada, o despacho na esquina, a oferenda na mata, a bola na rede e o mel na cachoeira.

O pequeno comércio, o mercado de rua, jogava nesse time de sociabilidades mundanas. No fim das contas, é urgente que a cidade recupere o sentido da rua como um espaço de convivência e desaceleração do cotidiano. Uma rua que permita, no resíduo de seus acontecimentos miúdos, maneiras de viver que não sejam simplesmente receptivas ou reativas aos desígnios do mercado e do deus carro; mas que propicie o encontro.

Que cidades sobrarão, que cidades teremos que construir? Não sei, mas elas certamente terão que se reinventar, quem sabe, a partir das frestas, das mundanidades, dos cerzimentos e bordados miúdos tecidos nos escombros das megacidades – essas que herdamos e legaremos como o rescaldo da completa submissão da vida ao desencanto do capital.





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