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Por Cléber Lourenço
A aprovação da chamada PEC da Bandidagem, que amplia a blindagem judicial de parlamentares, não se deu apenas pelo convencimento político ou pela negociação tradicional que costuma marcar votações importantes na Câmara. Segundo relatos colhidos pela coluna, a votação foi acompanhada de uma operação intensa de pressão, conduzida diretamente pela cúpula do Centrão. No centro das articulações esteve o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), apontado por diversos parlamentares como o responsável por ligar pessoalmente para colegas, cobrando alinhamento e impondo condições.
Deputados afirmam que a estratégia foi clara: quem se dispusesse a votar contra enfrentaria consequências políticas concretas. Entre as ameaças relatadas estavam a perda de cargos estratégicos nas comissões, o esvaziamento de espaços, a retirada de apoio a projetos de interesse direto das bases eleitorais e até a destituição da presidência de comissões permanentes. O objetivo declarado era reduzir a margem de dissidência e garantir uma vitória expressiva em plenário.
Um deputado que votou contra fez o seu relato ao ICL Notícias: “Recebi ligações do Lira, do Motta e do Elmar. Disseram que ficaram tristes com o meu voto, decepcionados, e que isso poderia impactar nossas relações. Essa pressão veio tanto no primeiro quanto no segundo turno.” O tom da fala ilustra não apenas a cobrança política, mas também a tentativa de transformar a divergência em ruptura de alianças futuras.
Outro parlamentar da base governista relatou situação semelhante e detalhou o tipo de ameaça: “Me ligaram para dizer que, se eu insistisse no voto contrário, poderia perder espaço na comissão que presido e que ficaria sem apoio em projetos importantes do meu estado. O recado foi claro: ou acompanhava a orientação deles ou pagaria o preço.” Esse tipo de relato reforça que o processo extrapolou a disputa de narrativas e se converteu em uma dinâmica de constrangimento e medo de isolamento.
As ameaças não se limitaram a cargos ou posições formais. Deputados também ouviram que emendas parlamentares já indicadas poderiam ser revistas e que indicações para órgãos regionais, construídas ao longo dos últimos meses, seriam retiradas da pauta. Esse tipo de pressão atingia diretamente a sobrevivência política dos parlamentares, criando um ambiente em que votar contra a PEC significava comprometer a entrega de recursos e obras em suas bases.
Deputados relatam ao ICL Notícias ameaças e pressão de Hugo Motta e outros para votarem sim na PEC da Bandidagem (Foto: EBC)
Caso marcante da PEC
O caso da deputada Silvye Alves (União-GO) tornou-se emblemático. Após ter votado a favor da PEC, gravou vídeo pedindo desculpas aos eleitores, classificando sua decisão como um “erro gravíssimo”. Admitiu que votou na proposta depois de, segundo ela, receber ligações de “pessoas influentes” e reconheceu que foi “covarde” diante das circunstâncias. Sua fala pública expôs de maneira o clima de coação que pairava sobre a Câmara e mostrou que a pressão não foi apenas especulação de bastidores. Silvye anunciou que deixará o União Brasil na janela partidária de 2026, dizendo que a permanência na sigla ficou insustentável após a repercussão do episódio.
A deputada chegou a ser procurada pelo ICL Notícias para contar detalhes dessa pressão, em nota, enviada através da sua assessoria, a deputada declarou:
“Essa é a intenção da deputada federal Silvye Alves (UNIAO-GO) após ser pressionada a votar A FAVOR da “PEC da Blindagem”. A parlamentar usou as redes sociais […] pra relatar que durante a votação da PEC chegou a receber ligações do alto escalão pra mudar o voto. Silvye afirma que chegou a registrar o voto CONTRA a aprovação, mas se sentiu pressionada e alterou o voto. Insatisfeita, Silvye Alves vai deixar o partido assim que abrir a janela partidária em 2026. Silvye Alves foi a campeã de votos em Goiás em 2022 pra ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados. “Ninguém tem direito de mandar no meu voto. Fui eleita pelo povo!”, destacou a deputada na nota.
A deputada, inclusive, já iniciou conversas com outros partidos. Segundo a sua assessoria, esses partidos serão revelados em outro momento.
Ameaças para todos
Outros parlamentares também confidenciaram que, antes das votações, receberam recados de que a relação com o comando da Casa poderia ser “repensada” caso não houvesse alinhamento. Essas mensagens reforçavam a ideia de que as consequências se estenderiam para além das votações da PEC, atingindo futuras negociações, nomeações em ministérios e liberação de recursos. O ambiente de intimidação se consolidou como parte da tática central do grupo de Hugo Motta.
Nesta segunda-feira (22), em evento do BTG Pactual, Hugo Motta afirmou: “É o momento de tirar da frente pautas tóxicas; vamos tirar essas pautas tóxicas porque ninguém aguenta mais essa discussão, temos que olhar para frente.” A declaração foi recebida como um acinte por parlamentares que acompanharam sua atuação nos bastidores. A PEC da Bandidagem não se pautou sozinha: foi articulada por ele e contou com seu empenho direto para ser aprovada.
O episódio revela a força da articulação montada pelo Centrão e a disposição de sua cúpula em usar instrumentos de pressão para garantir resultados. Além das manobras regimentais — como a emenda que restaurou o voto secreto —, a ofensiva combinou ligações pessoais, ameaças de retaliação política e condicionamento de benefícios a estados e municípios. Foi uma engrenagem coordenada para reduzir o espaço de manobra de quem pretendia se opor.
Nos bastidores, a avaliação é de que Hugo Motta assumiu um papel de liderança incontestável nessa articulação contando com muito respaldo do União Brasil de Antônio Rueda. Sua atuação, somada ao peso político de Arthur Lira e Elmar Nascimento, construiu um tripé de pressão que dominou a pauta da semana e levou a PEC da Bandidagem a ser aprovada por larga margem, apesar da resistência de parte expressiva da sociedade e de segmentos da própria base governista. A leitura entre deputados é que o episódio marca não apenas a aprovação de uma emenda polêmica, mas também a consolidação de uma prática de coerção política que pode se repetir em futuras votações de interesse do bloco.



