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Artemis 2 pousa no Pacífico e conclui a primeira viagem tripulada à Lua do século 21

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Por Salvador Nogueira

(Folhapress) – A Integrity voltou para casa. Com um pouso suave no oceano Pacífico, próximo à costa da Califórnia, terminou a missão Artemis 2, encerrando a primeira jornada humana à Lua no século 21.

A amerissagem se deu às 21h07 (ainda à tarde, 17h07, na costa oeste dos Estados Unidos), exatamente como o planejado, no ponto culminante de uma cadeia de eventos que começou às 15h53, quando a cápsula Orion usou seu módulo de serviço para realizar a última manobra de correção de trajetória, colocando-a rumo ao seu destino final.

Em comunicação com a central de comando, assim que cápsula tocou as águas do Pacífico, a tripulação afirmou estar bem.

“A criança que existe em mim não consegue acreditar no que acabou de ver. Esperei a minha vida toda para ver isso. Como administrador da Nasa, eu não poderia estar mais orgulhoso de toda a equipe”, afirmou Jared Isaacman, administrador da Nasa, logo após o pouso.

Isaacman chamou os astronautas de “embaixadores da humanidade” e classificou a missão como perfeita. “Esse é apenas o começo, vamos voltar a fazer isso e com frequência, enviando missões à Lua até pousarmos em 2028 e começar a construir a nossa base.”

O administrador da agência afirmou que há muito a celebrar no momento, mas também é necessário começar a se preparar para a Artemis 3, prevista para o ano que vem.

A bordo da Integrity (nome que o quarteto formado por Reid Wiseman, 50, Victor Glover, 49, Christina Koch, 47, e Jeremy Hansen, 50, deu à sua Orion), coube aos astronautas apenas acompanhar cada etapa, controlada pelo computador de bordo.

O astronauta da NASA Victor Glover, piloto da Artemis II (à esquerda), e a astronauta da NASA Christina Koch, especialista da missão Artemis II, sentados em um helicóptero MH-60 Seahawk da Marinha – Foto: NASA/Bill Ingalls

Às 20h33, ocorreu a separação do módulo de serviço, expondo o escudo térmico da cápsula para seu duro trabalho –sobreviver à temperatura de quase 2.800 graus Celsius a que foi submetido conforme a violenta compressão de atmosfera à frente da nave produzia um plasma incandescente, gradualmente freando a cápsula que até então voava a cerca de 38,4 mil km/h na direção do planeta.

A última manobra propulsada foi feita pela própria cápsula, para se orientar corretamente para o primeiro contato com a atmosfera, às 20h37. Dali a pouco mais de 15 minutos, as coisas começaram a realmente esquentar, e o plasma envolveu a cápsula, causando um blecaute de comunicações de cerca de seis minutos.

Na redução de velocidade causada pela resistência atmosférica, a tripulação deve ter experimentado forças próximas de 4 G (como se fosse uma gravidade quatro vezes mais intensa que a da Terra ao nível do mar).

Às 21h03, os paraquedas drogues (responsáveis por dar uma freada e estabilizada inicial na descida) se abriram, seguidos pelos três paraquedas principais, um minuto depois, que conduziram a Orion a um impacto com a água a (não tão) suaves 30 km/h (eis porque um pouso na água é uma boa pedida para amortecer o fim da descida).

Uma vez na água, coube à Marinha dos EUA, em coordenação com a Nasa, proceder, primeiro, com o resgate da tripulação, colocada em botes e então levada de helicóptero, e, depois, da própria cápsula. O USS Murtha ficou encarregado das operações, e os astronautas passaram por exames médicos enquanto eram levados à costa para então voarem de volta ao Centro Espacial Johnson, em Houston.

O astronauta da NASA Reid Wiseman, comandante da Artemis II, à esquerda, e o astronauta da CSA (Agência Espacial Canadense) Jeremy Hansen, especialista da missão Artemis II – Foto: NASA/Bill Ingalls

O que já foi e o que virá

Com a missão concluída com sucesso, a tripulação da Artemis 2 se tornou a primeira neste século a realizar uma viagem até as imediações da Lua e retornar à Terra. Isso não acontecia desde o fim da missão Apollo 17, em dezembro de 1972.

Adicionalmente, o quarteto bateu o recorde de maior distância da Terra para um voo tripulado (406,7 mil quilômetros), superando a marca atingida pela Apollo 13, em 1970 (400,2 mil quilômetros). Victor Glover se tornou o primeiro negro a deixar a órbita da Terra e viajar até a Lua; Christina Koch, a primeira mulher; e o canadense Jeremy Hansen, o primeiro não americano.

Apesar do bom desempenho, é importante lembrar que a Artemis 2 foi essencialmente uma missão de teste. Como em toda missão do tipo, a tripulação enfrentou algumas dificuldades, em geral rapidamente superadas, como o banheiro, que de início parecia não funcionar, e um posterior congelamento da urina dentro do sistema, também criando algumas dificuldades, ambas superadas ao longo do próprio voo.

Mergulhadores da Marinha dos EUA e astronautas da Artemis II a bordo de uma balsa inflável são abordados por helicópteros e levados para o navio de recuperação após saírem da espaçonave Orion da NASA – Foto: NASA / James Blair

Uma preocupação mais séria para o futuro foi a detecção de vazamento de hélio pressurizante em válvulas do tanque de oxigênio do sistema de propulsão do módulo de serviço da Orion. Os engenheiros fizeram o que puderam para caracterizar o problema, que deve ensejar um redesenho das válvulas para o futuro. E, claro, a Nasa estará de olho no estado do escudo térmico após a reentrada, para comparar com os resultados preocupantes vistos durante a Artemis 1, não tripulada, em 2022.

A despeito dessas questões até certo ponto esperadas em um voo de teste, o bom desempenho da Artemis 2 coloca os EUA um passo à frente do programa espacial chinês na atual corrida que os dois países travam nessa volta tripulada ao satélite natural. Mas a verdadeira linha de chegada está no primeiro pouso, algo que os americanos, por ora, ambicionam fazer “em 2028”, e os chineses, de forma menos específica, “antes de 2030”.

Os astronautas passarão duas semanas no Centro Espacial Johnson fazendo relatórios da missão e passando por exames médicos, antes de poderem retornar à vida cotidiana.

E a Nasa já começa a planejar os detalhes para a missão Artemis 3. Ela deve voar no ano que vem, com o objetivo de testar, em órbita terrestre, os futuros módulos lunares, atualmente em desenvolvimento pelas empresas SpaceX e Blue Origin.

Ainda não há tripulação escalada, nem convicção de que algum dos módulos estará pronto para o teste. O que parece mais adiantada é a preparação do próximo foguete SLS e da próxima cápsula Orion.

A próxima missão tripulada americana a ir à Lua, se os atuais planos se mantiverem, será a Artemis 4, responsável por realizar a primeira alunissagem do atual programa, em 2028.





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