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domingo, 28 junho, 2026
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Aqui na terra tão jogando futebol

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Mais uma vez, nesta Copa, os olhos do planeta se voltam para a Argentina. Lionel Messi, aos 39 anos, não apenas sobrevive no gramado, ele desfila. Mesmo entrando só no segundo tempo contra a Jordânia, ele entrega um golaço de falta. Euforia argentina. Messi está no auge dos auges e, como um maestro, rege uma orquestra inteira. Lembremos que em sua estreia no torneio sediado na América do Norte, anotou um hat-trick contra a Argélia, igualando e depois superando o alemão Miroslav Klose como o maior artilheiro da história das Copas, com 18 gols. A Argentina joga um futebol exuberante, coletivo, de uma solidariedade comovente. É a antítese perfeita do país que a assiste de longe.

Na Casa Rosada, Javier Milei governa com a frieza de uma motosserra. O projeto ultraliberal do presidente argentino reduziu o Estado a pó, aprofundou o abismo social e fez a pobreza escalar. A inflação corrói o que restou do poder de compra, enquanto a indústria nacional derrete sob uma abertura comercial predatória. E, no entanto, é esse país – fraturado, empobrecido e governado por um totalitarismo de mercado que beira a sociopatia – que ostenta, hoje, a seleção mais mágica e coesa do mundo.

O contraste com o Brasil é cruel, mas profundamente revelador. Por aqui, respiramos os ares da social-democracia sob o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. A economia dá sinais de recuperação, o desemprego recua, e o tecido institucional, outrora rasgado pelo fascismo bolsonarista, tenta se recompor. Vivemos uma inegável melhora. Contudo, nos gramados, a nossa Seleção, agora sob o comando do pragmático “Mister” Carlo Ancelotti, avança na Copa do Mundo, “melhorando aos poucos”, mas ainda sem encher os olhos de torcedores exigentes. Estamos classificados, sim. Vencemos a Escócia. Mas dizem que falta encanto. Falta aquela faísca de genialidade-arte que, durante décadas, nos definiu como nação futebolística.

Essa assimetria – a Argentina em crise política gerando magia no campo, e o Brasil em reconstrução democrática jogando um futebol burocrático – reacende um mito perigoso: a ideia de que a “magia” do futebol estaria, de alguma forma, atada a governos de força ou a contextos de sofrimento agudo. É como se a bola precisasse do chicote ou da miséria para rolar redonda.

Não nos enganemos. Essa é uma falácia construída por quem deseja romantizar a dor alheia. A História, se lida com atenção, desmonta esse teatro. Foi em pleno vigor da experiência democrática, entre os governos de Juscelino Kubitschek e João Goulart, que o Brasil conquistou o mundo entre 1958 e 1962. O futebol-arte de Pelé e Garrincha floresceu sob os ares de um país que se imaginava o país do futuro, construindo Brasília e sonhando com reformas de base. Da mesma forma, a redenção de 1994, com Romário, ocorreu logo após o impeachment de Collor, no frescor da redemocratização e da estabilização da moeda. E o penta de 2002, sob a genialidade de Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo, foi erguido na transição pacífica e democrática entre Fernando Henrique Cardoso e o próprio Lula.

A única taça brasileira erguida sob o peso das botas militares foi a de 1970. E, mesmo ali, o Esquadrão de Ouro foi muito mais um triunfo do talento individual e da preparação física (o famigerado “futebol-força”) do que um reflexo do milagre econômico dos generais. A ditadura sequestrou a imagem daquela seleção, usou a taça Jules Rimet para cobrir os porões da tortura, mas não foi ela quem ensinou Tostão a driblar ou Rivellino a chutar.

O que explica, então, o atual abismo entre o futebol argentino e o brasileiro?

A resposta não está nos gabinetes presidenciais, mas na estrutura mesma do esporte. A Argentina de Messi é o canto do cisne de uma geração que se forjou na adversidade, sim, mas que soube blindar o vestiário contra a barbárie externa. A celebração popular do título de 2022, no Catar, foi um fenômeno coletivo, horizontal, que ignorou solenemente os políticos de plantão. Messi e seus companheiros jogam apesar de Milei, não por causa dele. A magia de Messi é a resistência do lúdico contra a lógica fria do capital que o presidente argentino idolatra.

No Brasil, por outro lado, a nossa crise criativa em campo é o resultado direto da mercantilização absoluta da base. Exportamos garotos cada vez mais cedo. Transformamos nossos clubes em vitrines de commodities para o mercado europeu. A CBF, afundada em seus próprios escândalos, entregou o destino da Seleção a lógicas de mercado, direitos de transmissão e patrocínios de casas de apostas. A social-democracia de Lula conseguiu estancar a sangria política do país, mas o Estado não tem – e talvez nem deva ter – o poder de reverter a financeirização global do futebol.

A magia não sumiu porque voltamos a ser uma democracia. Ela sumiu porque o futebol brasileiro foi vendido na bacia das almas.

Em todo caso, torço pela genialidade de Vini Jr., que resiste não apenas aos zagueiros, mas ao racismo estrutural da Europa e também às desastrosas bets…que ele mesmo, trágica e ironicamente, representa. Torço pelo atrevimento de Endrick. E, sim, admiro a poesia crepuscular de Messi, que teima em nos lembrar que o futebol, na sua essência mais pura, ainda é um ato de rebeldia.

Será que Lula não receberá uma seleção campeã no Planalto? A resposta está nos pés de Ancelotti e seus comandados. Mas se a taça vier, que venha pelo talento de nossos jovens, e não como uma farsa para encobrir nossas fraturas. O futebol não precisa do autoritarismo para ser mágico. Ele só precisa que o deixem ser futebol.

“1962. Entre Nilton Santos e Djalma Santos e com a taça Jules Rimet na mão, Jango (João Goulart) recebe a Seleção Brasileira bicampeã do mundo.” Fonte: Memorial da Democracia.





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