Materiais elaborados por instituições americanas sobre métodos de “lavagem cerebral” circularam entre agentes da ditadura militar no Brasil e inspiraram a criação de um manual sobre o tema. O documento descreve técnicas de maus tratos a prisioneiros de guerra utilizadas para convertê-los a apoiadores de regimes como os da União Soviética e da China. Parte das técnicas também foram adotadas em quarteis e centros clandestinos de tortura liderados por integrantes da repressão.
O coronel Cyro Etchegoyen, chefe de contrainformação do Centro de Informações do Exército (CIE), tinha em seu arquivo um manual que citava uma série de apostilas sobre o tema. Uma delas foi elaborada pela Escola das Américas – unidade ligada ao Pentágono que ensinou técnicas de tortura e combate a movimentos de esquerda para militares de ditaduras por toda a América Latina. Toda a documentação, que também inclui materiais elaborados por órgãos militares britânicos e franceses, foi reunida em uma coletânea batizada de “Lavagem cerebral como arma psicológica” pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), órgão responsável pela formação acadêmica dos oficiais superiores do Brasil.
A coletânea faz parte do projeto “Bandidos de farda” produzido nos últimos sete meses pelo ICL Notícias com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e cerca de 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado pelo ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte foi entregue em fevereiro deste ano à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.

Outros trechos do manual do Exército brasileiro citam documentos sobre o tema que foram elaborados por órgãos centrais na propaganda anticomunista estadunidense. É o caso de um relatório da Subcomissão Permanente de Investigação do Senado dos Estados Unidos, de 1956. O órgão legislativo ganhou notoriedade ao se tornar um dos instrumentos do macartismo, movimento criado pelo senador Joseph McCarty que espalhou uma histeria sobre a infiltração de espiões e comunistas em órgãos públicos como o Departamento de Estado.
No manual arquivado por Etchegoyen, ainda estava citado um relatório da Comissão Consultiva do Secretário de Defesa dos EUA e uma conferência do major William E. Mayer, psiquiatra da Marinha estadunidense que tratou prisioneiros durante a Guerra da Coreia.
Manual ensina maus tratos a prisioneiros
Ao mesmo tempo em que usavam métodos de tortura física e psicológica para converter militantes de organizações de esquerda em agentes duplos, agentes de órgãos de repressão como o CIE de Etchegoyen seguiam a cartilha de Washington ao estudar sobre o “perigo vermelho” da lavagem cerebral.
O material elaborado pela Escola das Américas, com base a um suposto estudo da doutrina soviética sobre o assunto, descreve detalhadamente os passos para quebrar a resistência de opositores. O passo a passo previa estabelecer o isolamento dos presos. Também previa o uso deliberado de maus tratos como fome, frio, falta de assistência médica e trabalho forçado.
O documento elaborado pelas autoridades dos Estados Unidos atesta a eficácia dos métodos de tortura e maus tratos a prisioneiros adotados por ditaduras comunistas, como a China.
Segundo o guia, à medida que as condições físicas pioravam, eram oferecidas comodidades ao preso como “recompensa pela sua ocasional aceitação da doutrina comunista”. Tortura e ameaças de morte também eram defendidas. Tudo isso contribuiria para um quadro de “indução da neurose”, considerado essencial para converter os prisioneiros para a causa comunista.

O material da Eceme foi elaborado em junho de 1966, pouco antes da criação do CIE, em maio de 1967. A partir da decretação do AI-5, em dezembro de 1969, o CIE ampliou sua atuação na repressão de opositores do regime, participando de casos de tortura, mortes e desaparecimentos forçados de militantes de organizações de esquerda. Os Destacamentos de Operações de Informações (DOI) foram criados nesse mesmo contexto, em 1970.
Os órgãos de repressão reproduziram técnicas atribuídas às ditaduras comunistas. O isolamento dos presos era prática comum, assim como as sessões de tortura durante interrogatórios. Até o frio foi usado: na sede do DOI do Rio de Janeiro havia uma caixa de 1,5 m de altura ligada a um sistema de refrigeração. Conhecido como “geladeira”, o aparato de tortura conseguia ir de temperaturas elevadas a um frio congelante em poucos instantes. Parte dessa estrutura também foi ensinada no curso feito pelo coronel Cyro Etchegoyen na Inglaterra.
Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o ex-deputado federal Marco Antônio Tavares Coelho descreveu a experiência de estar preso na “geladeira” do DOI do Rio de Janeiro em seu livro “Memórias de um comunista”.
“A cela em que me colocaram deve ser subterrânea, ou num porão. Sua dimensão é, mais ou menos, de dois metros por dois. Sem a menor janela ou qualquer abertura para fora, além da porta. Essa é de aço, com um visor que permite o controle do preso pelo lado de fora. O chão é de cimento áspero. Nela não havia colchão, travesseiro ou uma folha de jornal. Total e absolutamente nua. E eu nu dentro dela”, escreveu Tavares Coelho.

Ainda segundo o ex-parlamentar, o isolamento, da escuridão e a variação extrema de temperatura desorientam completamente a vítima desse mecanismo de tortura. Os termos usados por ele para descrever os efeitos da técnica no preso são muito parecidos com os contidos nos relatórios estadunidenses sobre os militares ocidentais que se tornaram prisioneiros durante a Guerra da Coreia.
“O ar deve entrar por algum conduto apropriado. Suas paredes e o teto são pintados de preto. Possui um sistema de iluminação forte, acionado no corredor externo de acesso. A porta de aço assemelha-se a uma porta de geladeira, a fim de não permitir a passagem de som, pois a cela é o local da tortura. A escuridão é total, quando apagam as luzes. Verdadeiramente, é uma cova ou uma masmorra medieval, mas dotada de requintes ultramodernos, como o sistema de entrada de ar, a porta e a iluminação. Assim, é a conjugação do passado mais miserável com a técnica sofisticada norte-americana. Não vi em São Paulo ou no Rio Grande do Sul coisa igual”, afirmou ele, antes de completar. “Dentro dela perdi a noção do tempo. A rotina – dia e noite – não existe quando nela se é jogado. A coisa se divide em escuridão total, para o preso se refazer um pouco, a fim de depois apanhar mais; e a iluminação forte na hora da tortura. Horas, minutos, segundos, ali não têm existência. Espaço, horizonte, tudo isso é besteira”.

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Com frieza, o texto ressalta que a lavagem cerebral não é infalível nem irreversível. Como contramedida, defende a doutrinação dos soldados de países aliados contra o comunismo. Entre as medidas está informar “as verdades políticas, econômicas e históricas contra a tergiversação dos fatos pelos comunistas”.
O relatório da Subcomissão Permanente de Investigação do Senado dos Estados Unidos, supostamente feito com base em um estudo de caso com prisioneiros da Guerra da Coreia, vai na mesma linha. “A ideia de ‘lavagem cerebral’ foi fomentada pelos comunistas para criar a falsa impressão de que seus métodos de interrogatório são misteriosos até o extremo que os torne irreversíveis”, diz o texto dos congressistas.





