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segunda-feira, 9 fevereiro, 2026
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António José Seguro é eleito presidente de Portugal com ampla vantagem sobre a extrema direita

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António José Seguro, do Partido Socialista, foi eleito neste domingo (8) o novo presidente de Portugal. Com 99% das urnas apuradas, o político de esquerda alcançou 66,7% dos votos válidos no segundo turno da eleição presidencial, derrotando André Ventura, do partido de extrema direita Chega, que obteve 33,3%. A vitória confirma as projeções das pesquisas eleitorais e consolida um movimento de união de forças políticas tradicionais em torno de um candidato moderado, em resposta ao avanço do populismo no país.

O pleito ocorreu em um contexto político e social marcado por instabilidade climática, crescimento da extrema direita e questionamentos sobre o papel do presidente em um sistema semipresidencialista. Ainda assim, a eleição transcorreu com tranquilidade na maior parte do território português, apesar do adiamento da votação em alguns municípios afetados por fortes tempestades nas semanas anteriores.

Antes mesmo de seu pronunciamento oficial como presidente eleito, António José Seguro falou com jornalistas e destacou o significado político do resultado. “A resposta que o povo português deu hoje, o seu compromisso com a liberdade, a democracia e o futuro do nosso país, deixa-me naturalmente comovido e orgulhoso da nossa nação”, afirmou.

Vitória construída no segundo turno

A eleição presidencial portuguesa foi decidida no segundo turno, no qual Seguro recebeu o apoio explícito de candidatos e lideranças de partidos de centro e de parte da direita tradicional. Esse movimento foi interpretado por analistas políticos como uma tentativa de conter o crescimento de André Ventura e do Chega, legenda que tem se destacado por um discurso anti-imigração e anti-establishment.

Duas pesquisas de boca de urna divulgadas logo após o fechamento das urnas, às 19h no horário local (16h em Brasília), já indicavam a vitória do socialista, confirmando a tendência observada ao longo da campanha. O resultado final reforçou a diferença expressiva entre os dois candidatos e deu a Seguro um mandato respaldado por uma maioria sólida do eleitorado.

A reação dos apoiadores do presidente eleito tomou as ruas de Lisboa e de outras cidades portuguesas. Apoiantes de António José Seguro celebraram o resultado logo após a divulgação das primeiras projeções, como registrou a agência Reuters em imagens feitas na capital portuguesa.

Ventura reconhece derrota, mas reforça discurso político

Derrotado nas urnas, André Ventura reconheceu o resultado ainda na noite de domingo e agradeceu aos seus eleitores por meio das redes sociais. “Não vencemos estas eleições presidenciais, mas estamos a fazer história! Obrigado pela confiança”, escreveu o líder do Chega.

Apesar da derrota, Ventura fez questão de reafirmar sua posição como principal nome da direita radical em Portugal. Em declaração a jornalistas após sair de uma missa católica no centro de Lisboa, ele voltou a criticar o sistema político tradicional. “Todo o sistema político, tanto de direita quanto de esquerda, uniu-se contra mim. Mesmo assim, acredito que a liderança da direita foi definida e consolidada hoje. Espero liderar esse espaço político a partir de hoje”, disse.

Com 43 anos, Ventura é visto como um dos principais expoentes da nova extrema direita europeia. Seu crescimento político acompanha uma tendência observada em diversos países do continente, onde discursos nacionalistas e populistas têm ganhado espaço no debate público.

Quem é António José Seguro

Aos 63 anos, António José Seguro é um nome conhecido da política portuguesa. Filiado ao Partido Socialista há décadas, construiu sua carreira ocupando cargos de liderança partidária e se consolidou como uma figura associada à moderação e ao diálogo institucional.

Durante a campanha presidencial, Seguro adotou um tom conciliador e defendeu a cooperação entre os poderes, deixando claro que pretende trabalhar em conjunto com o atual governo minoritário de centro-direita. Ele também se posicionou de forma firme contra o discurso anti-imigração e as propostas consideradas radicais de seu adversário.

Essa postura lhe rendeu o apoio de políticos tradicionais de diferentes espectros ideológicos, incluindo setores da direita moderada, que enxergaram em sua candidatura uma alternativa para preservar a estabilidade democrática e institucional do país.

O avanço da extrema direita em Portugal

Embora tenha sido derrotado na disputa presidencial, André Ventura saiu do pleito com um capital político significativo. O crescimento do Chega nos últimos anos é um dos fenômenos mais relevantes da política portuguesa recente.

Nas eleições legislativas do ano passado, o partido de Ventura tornou-se a segunda maior força no Parlamento, ultrapassando os socialistas e ficando atrás apenas da aliança governante de centro-direita, que obteve 31,2% dos votos. O resultado evidenciou a insatisfação de parte do eleitorado com os partidos tradicionais e abriu espaço para um discurso mais radical no cenário político nacional.

Especialistas avaliam que o desempenho de Ventura na eleição presidencial, mesmo com a derrota, reforça sua influência e deve manter a extrema direita como um ator central no debate político português nos próximos anos.

Por que Portugal tem dois líderes

A eleição presidencial reacendeu o interesse internacional pelo sistema político de Portugal, que adota o modelo do semipresidencialismo. Nesse sistema, o Poder Executivo é compartilhado entre o presidente da República e o primeiro-ministro.

Cabe ao primeiro-ministro, atualmente à frente de um governo minoritário de centro-direita, a condução do dia a dia do governo e a definição das políticas públicas. Já o presidente tem um papel mais institucional e moderador, representando o país no exterior, promulgando leis, podendo vetá-las e, em situações específicas, dissolver o Parlamento e convocar novas eleições.

Apesar de o cargo ter funções em grande parte cerimoniais, o presidente português exerce influência política relevante, sobretudo em momentos de crise. A expectativa em torno do mandato de António José Seguro é que ele atue como um fator de estabilidade e diálogo entre os diferentes atores políticos.

O legado de Marcelo Rebelo de Sousa

António José Seguro sucede Marcelo Rebelo de Sousa, que ocupava a Presidência de Portugal há quase uma década. De centro-direita, Rebelo de Sousa ficou conhecido por seu estilo conciliador e por uma atuação próxima da população, especialmente durante períodos de instabilidade política e crises sociais.

Durante seu mandato, Portugal enfrentou sucessivas crises governamentais, além dos impactos econômicos e sociais provocados por eventos climáticos extremos e pelo cenário internacional. A condução dessas situações ajudou a moldar o papel contemporâneo da Presidência portuguesa como uma instituição de equilíbrio.

Eleição adiada em municípios afetados por tempestades

O segundo turno da eleição presidencial não ocorreu de forma uniforme em todo o território nacional. As tempestades que vêm atingindo Portugal nas últimas semanas levaram ao adiamento da votação em alguns municípios do sul e do centro do país.

De acordo com a agência Reuters, cerca de 37 mil eleitores, o equivalente a 0,3% do total do eleitorado, tiveram a votação adiada por uma semana. As condições climáticas adversas incluíram chuvas intensas e ventos fortes, que causaram danos à infraestrutura local.

Ao chegar para votar, André Ventura criticou a decisão do governo de manter a data das eleições na maior parte do país. “Acho que foi desrespeitoso porque transformou alguns portugueses em cidadãos de primeira classe e outros em cidadãos de segunda classe. Acho que em muitas partes do país, as pessoas se sentem desrespeitadas”, afirmou.

Seguro pede participação popular

António José Seguro também se manifestou sobre o adiamento da votação em algumas zonas eleitorais. O presidente eleito expressou solidariedade às famílias afetadas pelas tempestades, mas reforçou a importância da participação democrática.

“Espero que estas melhores condições meteorológicas permitam que as pessoas saiam para votar. Este é o momento em que o povo é soberano, em que cada voto conta e decide verdadeiramente o futuro do nosso país. Estamos a eleger o Presidente da República para os próximos cinco anos, o que é uma decisão muito importante. Expresso também a minha solidariedade a todas as famílias que estão a atravessar momentos difíceis em algumas partes do nosso país”, declarou.

No final de janeiro, a tempestade Kristin deixou cinco mortos, provocou um rastro de destruição e deixou quase meio milhão de pessoas sem energia elétrica em Portugal, evidenciando os desafios enfrentados pelo país diante de eventos climáticos extremos.

Um novo ciclo político

A eleição de António José Seguro marca o início de um novo ciclo político em Portugal. Com uma vitória expressiva e o apoio de diferentes campos ideológicos, o novo presidente assume o cargo com a missão de preservar a estabilidade democrática, dialogar com um Parlamento fragmentado e enfrentar um cenário europeu em transformação.

O resultado das urnas também deixa claro que, apesar da derrota, a extrema direita permanece como uma força relevante no país, o que deve influenciar o debate político e as estratégias dos partidos tradicionais nos próximos anos.

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