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quarta-feira, 26 agosto, 2026
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“ANTOINETTE “

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A propósito de “Automat”, de Edward Hopper

Antoinette ergueu a xícara de café com um gesto delicado, sem suspeitar jamais que esse movimento não pensado seria imortalizado em uma tela fria e enigmática de Edward Hopper, datada de 1927.

Somente veio a sabe-lo décadas depois, quando a memória falseava o presente, ancorada num passado nebuloso que teimava em mergulhar no mar profundo do não saber.

Nunca chegou a ver-se no original daquele óleo sobre tela ora pertencente ao acervo do Des Moines Art Center, em Iowa, em uma sala dedicada à obra do pintor.

Viu duas vezes a tela emoldurada na pequena tela do celular da sua neta em uma das visitas que lhe fez na Casa de Repouso Sweet Gardenia, em Boston, para onde foi levada quando já não conseguia mais tomar conta de si própria.

Por um breve momento lembrou-se daquele dia, para minutos depois esquecê-lo, distraída com o voo de uma borboleta sobre uma touceira de jasmins bogaris cujo perfume remetia a tempos mais amenos.

Um súbito flash cerebral a trouxe de volta àquele fim de tarde ainda nos seus gloriosos trinta anos vestida com um casaco verde de gola e punhos de pele de lobo do mar, chapéu de feltro a cobri-lhe os cabelos, tomando um café em um restaurante de autoatendimento vazio.

Hopper jamais soube, mas naquela tarde eternizada em sua famosa tela, Antoinette esperava o pai, um beberrão sem-teto e sem amor que perambulava pelas ruas molhadas com um saquinho de papel pardo onde escondia a garrafa para que polícia e a sociedade fizessem de conta que aquela chaga social não existia.

Enquanto esperava pensativa, duas gotinhas de café mancharam a pureza da porcelana branca.

No bolso do casaco Antoinette tateou o pequeno punhal de cabo de marfim.

O pai entrou cambaleando.

O funcionário da noite puxou com força a porta de aço fazendo um barulho forte.

FIM

Nota de rodapé

Conhecido como o “Pintor da Solidão”, Hopper pertenceu ao movimento realista americano das artes plásticas surgido nos anos 1920.

Na maior parte de suas telas predomina a solidão, o mistério e a dramaticidade daqueles personagens silenciosos dando vez a várias interpretações ficcionais, já que ele nada explica, corroborando a idéia de que a arte existe para provocar, não para explicar.

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