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quinta-feira, 23 abril, 2026
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Amorim: ’Quando se matam os negociadores, restam apenas os guerreiros’

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O assessor especial da Presidente da República, Celso Amorim, usou uma reunião entre especialistas e membros de governos de todo o mundo para lançar um alerta: “quando se matam os negociadores, restam apenas os guerreiros”.

Sua declaração ocorreu diante dos assassinatos por parte dos governos dos EUA e de Israel de lideranças iranianas. Na última sexta-feira, na Turquia, Amorim participou do Fórum Diplomático de Antalya, onde representantes de governos, especialistas e acadêmico fizeram uma análise do contexto geopolítico global, com ênfase nos principais desafios à paz e à estabilidade internacional.

Em sua fala, que o ICL Notícias publica em sua íntegra, o brasileiro conta como um esforço entre Turquia e Brasil tentou abrir caminhos para que a crise nuclear iraniana fosse solucionada de forma diplomática.

Dias depois, já em Istambul, Amorim se encontrou com os ex-ministros das Relações Exteriores da Turquia, Ahmet Davutoğlu, e do Irã, Manouchehr Mottaki, justamente seus interlocutores no acordo de 2010 e que selou um acordo nuclear. O pacto seria, dias depois, rejeitado pelos EUA, apesar de cumprir rigorosamente o que os americanos exigiam.

Amorim ainda aproveitou sua viagem para manter um encontro com o israelense Daniel Levy e com o palestino Wadah Khanfar.

Amorim também participou de um debate sobre a mediação de conflitos internacionais e ao papel de novos arranjos de cooperação para a promoção da paz. Ele esteve ao lado de Mohammed bin Abdulaziz Al Khulaifi, Ministro de Estado do Qatar, e Rosemary A. DiCarlo, Subsecretária-Geral das Nações Unidas para Assuntos Políticos e de Consolidação da Paz.

Eis o discurso completo do diplomata brasileiro:

“Em vez de discutir essa questão teoricamente, vou me referir à história da Declaração de Teerã.

No final de 2009, o Brasil e a Turquia iniciaram um esforço para contribuir com uma solução para a questão do programa nuclear iraniano. Eu era ministro das Relações Exteriores na época, trabalhando para o presidente Lula.

Naquele momento, o problema parecia muito mais simples. Basicamente, envolvia a troca de 1.200 kg de urânio pouco enriquecido por 120 kg de combustível.

Esse acordo de troca deveria ser uma medida para gerar confiança.

Em uma reunião com o presidente Lula, em julho de 2009, o presidente Obama mencionou a questão. Ele disse, em resumo, três coisas: “1) o programa nuclear iraniano é atualmente a ameaça mais séria à paz e à segurança; 2) tentei contato com os iranianos, mas não obtive resposta; 3) preciso de amigos que possam conversar com aqueles com quem não consigo conversar”.

Negociar com os iranianos, juntamente com nossos amigos da Turquia, nunca foi fácil. Eles tinham processos internos de tomada de decisão complexos e cada pequeno passo exigia tempo, esforço e paciência.

Os EUA também tinham suas hesitações. Em certo momento, após uma reunião trilateral, envolvendo Lula, Erdogan e Obama, em Washington, à margem de uma Conferência de Segurança Nuclear, estávamos inclinados a desistir de nossos esforços.

Para nossa surpresa, alguns dias depois, Obama escreveu a Lula e Erdogan reiterando os pontos essenciais de um gesto de construção de confiança por parte do Irã.

Isso se referia à quantidade de urânio enriquecido a ser enviada para fora do país, o cronograma para que isso ocorresse e a localização precisa fora do Irã onde o urânio deveria ser armazenado. O Irã também deveria escrever à Agência Internacional de Energia Atômica reafirmando sua contribuição.

Encorajados pela carta de Obama, viajamos para Teerã.

Após uma maratona de negociações, os presidentes Lula, Erdogan e Ahmadinejad assinaram a Declaração de Teerã em 17 de maio de 2010, que foi saudada por figuras como Mohamad El Baradei, ex-diretor-geral da AIEA, e Tom Pickering, ex-subsecretário de Estado dos EUA. O jornal Le Monde considerou o dia histórico.

Provavelmente foi mais fácil para o Irã fazer concessões ao Brasil e à Turquia, dois países em desenvolvimento que inspiravam confiança, do que em uma negociação direta com os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.

No entanto, em junho, o Conselho de Segurança, com o apoio das potências nucleares, votou uma resolução impondo novas sanções ao Irã.

Brasil e Turquia votaram contra a resolução. Embora isso não tenha tido efeito prático, para nós foi uma questão de honra.

Anos depois, um ex-alto funcionário do governo Obama admitiu, em uma conversa privada, que a iniciativa Brasil-Turquia foi uma espécie de porta de entrada para o JCPOA.

Essa história de confiança quebrada me fez sentir total empatia pelo choque expresso pelo ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr Albusaidi, quando a guerra eclodiu em meio a negociações diplomáticas.

O Paquistão agora desempenha um papel importante, e me junto àqueles que oram por seu sucesso.

Gostaria também de fazer uma breve menção aos assassinatos políticos. Quando pessoas como Larijani ou Kharrazi, que poderiam estar dispostas a negociar, são mortas, restam apenas aqueles dispostos a usar a força. Em outras palavras, quando se matam os negociadores, restam apenas os guerreiros.

Neste mundo frágil, precisamos de mais pessoas que construam pontes e facilitem o diálogo entre os países.

O ingrediente essencial de qualquer negociação é a confiança. Quando a confiança é quebrada, as chances de se chegar a um acordo são mínimas”.





ICL Notícias

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