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quarta-feira, 11 fevereiro, 2026
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Alunas denunciam assédio sexual e pedem afastamento de professor da Unesp em SP — Brasil de Fato

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Sete alunas do curso de relações internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) denunciaram o professor Gabriel Cepaluni, 50 anos, por constrangimento e assédio sexual. Os atos, segundo as alunas, aconteciam dentro e fora da sala de aula, na cidade de Franca, interior de São Paulo, onde fica um dos campi da universidade.

O Brasil de Fato ouviu duas alunas e teve acesso a um dossiê feito pelas universitárias com relatos de assédio sexual e falas constrangedoras do professor em sala de aula. O documento foi encaminhado para a reitoria da universidade.

“Eu fiquei extremamente envergonhada, extremamente constrangida”, conta Isabela*, estudante do curso de relações internacionais. Durante uma dinâmica de grupo, ao ouvir que a jovem nasceu numa cidade do litoral, o professor teria se convidado para passar um Ano Novo na casa dela.

De acordo com a aluna, o docente sugeriu: “quando finalizar o semestre, quando eu já não for mais seu professor, você me chama para passar um ano novo na sua casa, para não ter nenhum conflito ético”. “Como assim, não vai ter nenhum conflito ético? Qual seria o conflito ético?”, questiona a aluna, em tom de consternação.

Os comentários direcionados à jovem teriam se repetido, levando-a a faltar em algumas aulas. “Durante a aula, começaram a rolar comentários no grupo de alunos do WhatsApp e eu assim ‘nossa eu não sei o que fazer, nunca passei por isso’”, diz a estudante.

Outra jovem relata ter sido abordada fora da universidade. “Ele estava na academia e eu também. Eu estava fazendo abdominal e ele se aproximou de mim, me deu oi, começou a elogiar minhas pernas”, conta Manuela*, também estudante do curso de relações internacionais, em relato documentos e encaminhado à administração do curso. Depois disso, o professor passou a orientar a jovem sobre a execução do exercício.

Na abordagem, de acordo com a estudante, o Cepaluni chegou a perguntar onde ela morava. “Menti e fui embora”, diz a jovem, que passou a frequentar o espaço em outros horários para evitar novos encontros. Ela ressalta que outros professores frequentam essa academia, mas nunca tiveram esse tipo de comportamento.

“Ele falou diversas vezes para uma aluna que iria para a casa dela, e iria perguntar para o Chat GPT se deveria fazer isso”, relata outra estudante, em depoimento registrado no dossiê encaminhado à universidade. O documento reúne 11 relatos de sete estudantes. Além dos casos de assédio sexual, há denúncias de falas interpretadas pelos alunos como de teor racista e classista.

A estudante Bruna* conta que, ao se apresentar para o professor durante uma dinâmica de grupo na primeira aula, mencionou já ter vivido na Bahia. “Ele começou a falar que ele nunca tinha ido para Salvador, começou a falar: ‘Nossa, acho que eu vou, hein? Acho que eu vou ficar na casa dos seus amigos’, falou brincando. Eu ri, falei: ‘Ok’. Em seguida ele me perguntou: ‘Eles são limpinhos?’. Fiquei meio assim… Sem acreditar no que ele estava me perguntando”, diz.

O documento apresenta repetidas situações incômodas aos estudantes. “Ele me perguntou o que eu queria fazer nos próximos anos e também me pediu uma curiosidade picante. Fiquei uns dois minutos sem saber o que responder”, relatou outra jovem. O depoimento foi colhido durante uma assembleia do curso de relações internacionais, realizada no dia 21 de agosto, quando os discentes já se organizavam para pedir à instituição alguma providência a respeito dos incômodos que vinham enfrentando. No dossiê, consta que a aluna não concluiu o relato, porque começou a chorar.

O dossiê informa que algumas alunas abandonaram as aulas ministradas por Cepaluni. No documento, os estudantes pedem o afastamento preventivo e a instauração de um Processo Administrativo Disciplinar a respeito da conduta do professor.

As estudantes concordaram em dar entrevista com a condição de que suas identidades sejam mantidas em sigilo. Elas contam que não pretendiam levar o caso a público, mas perceberam que seria necessário falar porque, até então, somente a versão do professor havia ganhado espaço.

No dia 14 de outubro, Câmara Municipal de Franca realizou uma moção de apoio ao professor Gabriel Cepaluni, proposta pelo vereador Leandro Alves (PL), “pelas agressões sofridas em decorrência de episódio de violência ocorrido no ambiente universitário”. Naquele dia, estudantes da Unesp realizaram um protesto na casa legislativa.

Em nota enviada ao Brasil de Fato, o escritório Duarte e Almeida advogados, que representa Cepaluni, informa que “as alegações que circulam na esfera pública baseiam-se em relatos informais e em um suposto dossiê ao qual, até o presente momento, não nos foi concedido acesso, o que impõe um absoluto impedimento ao exercício do contraditório e da ampla defesa, garantias constitucionais inafastáveis”. A nota aponta “profunda estranheza e preocupação o fato de tais alegações surgirem de maneira orquestrada justamente após o professor ter sido vítima de um grave e documentado episódio de agressão física em seu local de trabalho”.

Segundo as estudantes, no entanto, o caso chegou à imprensa justamente porque, até então, somente a versão do professor havia ganhado destaque.

Tumulto e agressão na universidade

O caso ganhou repercussão em veículos de imprensa e canais no Youtube após o dia 2 de setembro, quando estudantes organizaram uma manifestação para impedir que o professor adentrasse o prédio da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais (FCHS), na Unesp, e tivesse acesso à sala de aula.

Organizados na entrada do prédio da faculdade, os estudantes afirmaram que “as vítimas não podiam ser colocadas de novo no ambiente onde elas foram vitimadas”, relatou a estudante Gabrielle Nascimento, coordenadora-geral do Centro Acadêmico do curso de Relações Internacionais.

Eram cerca de cem alunos, alguns segurando cartazes. De acordo com Nascimento, o grupo esperava que, diante da barreira, o professor se dirigisse ao setor administrativo da universidade. O docente, no entanto, insistiu em entrar na sala, indo na direção dos estudantes.

“Aí ele se enfia no meio dos estudantes, começa a dar cotovelada, dar ombrada, a falar que a gente é um bando de animal, que a gente não tem raciocínio”, conta Nascimento. As agressões escalaram a ponto de Cepaluni acertar um soco no rosto de uma aluna. O caso foi registrado em boletim de ocorrência, como lesão corporal. Cepaluni também foi agredido pelos estudantes. O tumulto acabou quando um servidor da Unesp conduziu o professor para outro local.

Tumulto na Unesp terminou em agressões – Reprodução/câmeras de segurança

Cepaluni tem um canal no Youtube e usou o espaço para comentar o fato, focando no tumulto registrado na universidade – sem abordar, no entanto, os motivos da manifestação, que ele alega desconhecer. O conteúdo apareceu em canais de YouTube da extrema direita, que atacam os estudantes chamando a manifestação de “invasão comunista” nas universidades públicas. Em um desses vídeos, Gabrielle Nascimento é exposta e ridicularizada por um Youtuber.

Em nota publicada no site oficial, a Unesp informa que está apurando os acontecimentos envolvendo um professor e um grupo de estudantes no campus de Franca.

“Repudiamos toda forma de violência e qualquer ato que atinja a integridade física de nossa comunidade acadêmica. Por meio de Portaria 75 da FCHS [Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, da qual o curso de Relações Internacionais faz parte], datada de 5 de setembro, a instituição instaurou um procedimento de apuração preliminar para a investigação dos fatos, com um prazo de 30 dias para conclusão, que já foi prorrogado por mais 30 dias”.

Palavra da vítima

Na cartilha Assédio Sexual: Perguntas e Respostas, organizada pelo Ministério Público do Trabalho, em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o assédio sexual é definido como toda conduta indesejada de caráter sexual que restrinja a liberdade sexual da vítima. Nesse sentido, pode ser manifestada fisicamente, por palavras, gestos ou outros meios, propostas ou impostas a pessoas contra sua vontade, causando-lhe constrangimento e violando a sua liberdade sexual.

“O caminho mais próximo é realmente buscar a instituição, que tem o dever de zelar por essas estudantes”, orienta Luana Pires, diretora e co-fundadora do Me Too Brasil, organização de apoio às vítimas de violência sexual. Ela explica que os depoimentos das alunas, somados aos relatos de testemunhas, são essenciais no registro e apuração do caso. “A gente já não trata mais os casos de violência sexual apenas dessa forma, como ‘palavra da vítima contra o do agressor’. Existem outros mecanismos de prova que são utilizados”, diz.

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Fonte: Brasil de Fato

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