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Além do entretenimento: o cinema como ferramenta política

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Legenda: “Triunfo da Vontade” (1935), dirigido por Leni Riefenstahl, é um dos exemplos mais emblemáticos do uso do cinema como instrumento de propaganda política. Encomendado pelo Partido Nazista, o filme registra o Congresso de Nuremberg de 1934 e utiliza recursos estéticos inovadores para construir uma imagem de força, unidade e liderança, evidenciando o potencial do audiovisual na formação de narrativas e na mobilização das massas.

Desde o seu surgimento, no final do século XIX, o cinema demonstrou que poderia ser muito mais do que uma nova forma de entretenimento. Entre os principais nomes ligados aos primeiros passos dessa invenção estavam Thomas Edison e os irmãos Lumière. Segundo Fernando Mascarello (2006), as primeiras exibições de filmes realizadas com mecanismos intermitentes ocorreram por volta de 1893, nos Estados Unidos, quando Edison registrou a patente de seu quinetoscópio. Pouco depois, em 1895, Louis e Auguste Lumière realizaram, em Paris, a famosa demonstração do cinematógrafo, aparelho capaz de captar, revelar e projetar imagens em movimento.

A possibilidade de registrar e exibir acontecimentos abriu espaço para uma nova maneira de representar o mundo. No entanto, as imagens projetadas nas telas não serviram apenas para documentar a realidade. Com o tempo, governos e grupos políticos perceberam que o cinema também poderia influenciar comportamentos, despertar emoções e difundir determinadas visões de sociedade.

Essa capacidade ganhou maior importância no início do século XX, especialmente durante a Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914 e 1918. Conforme destaca Heloísa Brustulin (2022), os países envolvidos no conflito recorreram aos meios de comunicação disponíveis para defender seus interesses e mobilizar a população. Imagens, cartazes, jornais e filmes passaram a ser empregados para fortalecer sentimentos nacionalistas, justificar ações militares e apresentar os adversários de maneira negativa. A guerra, portanto, não era disputada somente nos campos de batalha, mas também no imaginário das sociedades.

Nesse sentido, Wagner Pereira (2003, p. 102) afirma que a “referência básica da propaganda é a sedução”. Para conquistar apoio, não basta apresentar somente argumentos, é necessário envolver emocionalmente o público. Embora a propaganda esteja presente em diferentes formas de governo, ela alcança uma dimensão ainda maior nos regimes que controlam os meios de comunicação e restringem a circulação de opiniões contrárias. Nessas situações, a propaganda política atua tanto como manipuladora da sensibilidade emocional quanto na capacidade de julgamento dos indivíduos.

Marc Ferro (2010) observa que, ao mesmo tempo que o cinema se consolidava como expressão artística, seus primeiros realizadores passaram a representar acontecimentos históricos por meio de documentários e filmes de ficção. Essas produções, contudo, não se limitavam a mostrar a realidade de maneira neutra. Elas também promoviam determinadas interpretações, enaltecendo personagens, instituições e valores políticos.

Na Inglaterra do início do século XX, por exemplo, algumas produções destacavam a monarquia, a grandeza do Império Britânico e o poder de sua marinha. Na França, ganhavam espaço imagens associadas ao progresso e à burguesia em ascensão, como as ferrovias, as exposições e as instituições republicanas. Mesmo quando os filmes apresentavam histórias ficcionais, a dimensão propagandística podia estar presente. Afinal, toda escolha narrativa (aquilo que aparece, o que permanece oculto e a maneira como os personagens são representados) contribui para construir uma visão particular da realidade.

Foi durante a ascensão dos regimes autoritários que o uso político do cinema se tornou ainda mais evidente. O fascismo italiano e o nazismo alemão perceberam a força das imagens em movimento e fizeram delas um instrumento para divulgar seus projetos ideológicos. Como afirma Túlio Barczysczyn (2025), esses regimes ajudaram a estabelecer modelos de comunicação política cujas características ainda podem ser observadas no presente.

Na Itália de Benito Mussolini, especialmente a partir da década de 1930, o Estado passou a organizar e financiar de maneira sistemática a produção cinematográfica. Pereira (2003) explica que, embora muitos filmes fossem destinados ao entretenimento, os valores fascistas apareciam de forma direta ou indireta. O nacionalismo, o militarismo, o imperialismo e o culto ao líder atravessavam cinejornais, documentários e obras de ficção. Ao mesmo tempo, o regime procurava construir uma imagem de progresso, unidade nacional e grandeza histórica, apresentando o fascismo como herdeiro das antigas glórias de Roma.

Pereira (2003) também explica que, na Alemanha nazista, essa instrumentalização alcançou proporções ainda maiores. Sob a direção de Joseph Goebbels, o Estado ampliou o controle sobre a produção cinematográfica e utilizou filmes, documentários e cinejornais para exaltar Adolf Hitler, divulgar o nacional-socialismo e disseminar discursos racistas e antissemitas. Até mesmo produções aparentemente voltadas apenas ao entretenimento podiam incorporar mensagens destinadas a naturalizar os valores defendidos pelo regime. O cinema tornou-se, assim, uma poderosa ferramenta de mobilização das massas, de legitimação do poder e de construção de uma realidade favorável aos interesses do Terceiro Reich.

Entretanto, reconhecer o uso do cinema como propaganda não significa afirmar que o público recebe passivamente tudo aquilo que aparece na tela. Um filme pode tentar conduzir interpretações, mas também pode provocar questionamentos, rejeições e leituras diferentes daquelas pretendidas por seus realizadores. É justamente nessa relação entre imagem, poder e recepção que o cinema revela sua complexidade política.

Na perspectiva de Marc Ferro (2010), o cinema também participa da construção da memória histórica. Por meio da força envolvente de suas imagens, ele influencia a maneira como uma sociedade enxerga, materializa e imagina seu passado — e até mesmo seu possível futuro. Por isso, nenhum filme é apenas uma sequência de imagens. Cada obra carrega escolhas, silêncios e interesses que precisam ser observados criticamente.

Mais de um século depois das primeiras projeções, o cinema continua disputando interpretações sobre o mundo. A tecnologia mudou, as telas se multiplicaram e as formas de propaganda adquiriram novas características, mas o poder político das imagens permanece. Quando assistimos a um filme, portanto, não estamos apenas diante de uma história: também estamos diante de uma maneira de selecionar, organizar e dar sentido à realidade.

Sobre a autora: Yago Lima dos Santos, aluno do curso de Licenciatura em História.

Sobre o Conexões de Saberes: O PET, Programa de Educação Tutorial, é um programa gerenciado pela CAPES/MEC e, no âmbito da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), é desenvolvido em grupos e organizado a partir de cursos de graduação das unidades acadêmicas, orientados pelo princípio da indissociabilidade entre o ensino, pesquisa, inovação e extensão. As atividades extracurriculares que compõem o programa devem proporcionar aos alunos oportunidades de vivenciar experiências que atendam plenamente às necessidades dos cursos de graduação e/ou ampliar e aprofundar os objetivos e os conteúdos programáticos que integram sua grade curricular, além de contribuir para a sociedade onde atuam. O PET Conexões de Saberes é tutoriado pelo Prof. Dr. Manoel Carlos de Oliveira Júnior (FES/UFAM) e tem alunos de História, Geografia, Pedagogia e Letras.

Referências

BARCZYSCZYN, Túlio Frigeri. Cinema, visualidade e propaganda política: A construção visual do político como produto na sociedade contemporânea. In: CONGRESSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO DA REGIÃO NORTE, 22., 2025, On-line. Anais… São Paulo: Intercom, 2025. p. 1-6.

BRUSTULIN, Heloísa. A propaganda nazista no cinema: a construção da obra cinematográfica “Triunfo da vontade” a partir dos princípios teóricos de propaganda do movimento. 2022.

FERRO, Marc. Cinema e história. Paz e terra, 2010.

MASCARELLO, Fernando. História do cinema mundial. Papirus Editora, 2015.

PEREIRA, Wagner Pinheiro. CINEMA E PROPAGANDA POLÍTICA NO FASCISMO, NAZISMO, SALAZARISMO E FRANQUISMO. História: Questões & Debates[S. l.], v. 38, n. 1, 2003. DOI: 10.5380/his.v38i0.2716. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/historia/article/view/2716. Acesso em: 20 jul. 2026.

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