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segunda-feira, 13 abril, 2026
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Afastamento do trabalho por violência contra as mulheres cresce 300% em quatro anos

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Dados do Ministério da Previdência Social mostram um avanço significativo no número de afastamentos devido a episódios de violência contra as mulheres. Em 2025, 91 trabalhadoras receberam auxílio do INSS após episódios de agressão física, sexual ou abuso psicológico — número que era de 22 em 2021, uma alta de 313% em quatro anos. Os dados foram publicados em reportagem do jornal O Globo.

Os registros são baseados na Classificação Internacional de Doenças (CID), utilizada para justificar afastamentos. No entanto, a subnotificação ainda é relevante: na maioria dos casos, não há identificação do agressor, e apenas dois episódios em 2025 foram formalmente associados a parceiros ou cônjuges.

Especialistas apontam que muitos afastamentos são registrados com base nas consequências — como ansiedade ou lesões — e não na causa, o que dificulta dimensionar o problema.

Impactos diretos nas empresas

A violência de gênero também começa a aparecer com mais clareza nas estatísticas corporativas. Levantamento da VR, com base em atestados médicos de 30 mil empresas e 4 milhões de trabalhadores, identificou 58 afastamentos por agressões contra mulheres em 2025, ante 23 em 2023 — alta de 152%.

A maioria dos casos está ligada a agressões físicas, mas também há registros de maus-tratos, negligência, abandono e violência sexual.

O fenômeno afeta diretamente o ambiente corporativo. Faltas recorrentes, queda de produtividade, mudanças de turno e até desligamentos estão entre as consequências observadas. Além disso, o problema impacta clima organizacional, segurança e retenção de talentos.

Mudança gradual de postura

Diante do avanço dos casos, empresas — especialmente de grande porte — começam a estruturar respostas mais sistemáticas.

No entanto, ainda há lacunas importantes, sobretudo em companhias menores, que enfrentam limitações de recursos e maior impacto operacional com afastamentos.

Relatos mostram que, em muitos casos, a violência ainda é tratada como questão pessoal, sem suporte institucional, o que pode agravar a vulnerabilidade das vítimas.

Canais de acolhimento ganham espaço

Algumas empresas passaram a criar estruturas específicas para apoiar funcionárias em situação de violência.

O Magazine Luiza, por exemplo, mantém desde 2017 um canal dedicado ao tema, que oferece acolhimento e encaminhamento para suporte jurídico, psicológico e policial. O serviço já atendeu cerca de 1.400 funcionárias.

A Natura também implementou um canal de atendimento via WhatsApp voltado a funcionárias e consultoras. Em 2025, foram quase 300 atendimentos, com encaminhamentos para serviços públicos e apoio em deslocamentos.

Outras iniciativas incluem a criação de canais de acolhimento em instituições financeiras e a revisão de políticas internas após denúncias de assédio, com foco em responsabilização e prevenção.

Estratégias dentro e fora do ambiente de trabalho

As ações empresariais têm se diversificado e, em alguns casos, ultrapassam o ambiente corporativo tradicional.

O que as empresas estão fazendo para lidar com o problema:

  • Criação de canais confidenciais de denúncia e acolhimento
  • Encaminhamento para apoios jurídico, psicológico e policial
  • Transferência de local de trabalho, cidade ou estado para proteger a vítima
  • Justificativa de faltas para evitar perda salarial
  • Apoio financeiro emergencial
  • Anonimização de dados para garantir segurança
  • Treinamento de lideranças e equipes para identificar sinais de violência
  • Programas educativos e campanhas internas
  • Iniciativas voltadas também a trabalhadores informais
  • Parcerias com organizações da sociedade civil para ampliar a rede de apoio

Rede de apoio e papel dos colegas

Em muitos casos, os primeiros sinais de violência são percebidos no próprio ambiente de trabalho. Mudanças de comportamento, isolamento, medo ou tentativa de esconder marcas físicas podem indicar situações de risco.

A atuação de colegas e gestores, quando feita com cuidado e consentimento, pode ser decisiva para que a vítima busque ajuda.

Por outro lado, tratar o tema como questão individual ou “fofoca” pode dificultar o retorno ao trabalho e aprofundar o isolamento.

Emprego como fator de proteção

Especialistas destacam que a manutenção do emprego e da renda é elemento central para que mulheres consigam romper ciclos de violência. A dependência financeira ainda é um dos principais obstáculos para a denúncia e o afastamento do agressor.

A legislação brasileira prevê a manutenção do vínculo empregatício por até seis meses em casos de afastamento por violência doméstica. Em decisão recente, o Supremo Tribunal Federal (STF) definiu que os primeiros 15 dias são custeados pela empresa, e o restante pelo INSS.

Desafio estrutural

Apesar dos avanços, a falta de dados integrados e a persistente subnotificação dificultam a compreensão da dimensão real do problema no país.

O estigma social e o medo ainda impedem muitas mulheres de denunciar, fazendo com que continuem trabalhando mesmo em situações de violência.

Nesse contexto, cresce a pressão para que empresas deixem de tratar o tema como externo ao ambiente corporativo e assumam um papel mais ativo na proteção de suas funcionárias.





ICL Notícias

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