Por Cleber Lourenço
O advogado Daniel Feitosa de Menezes renunciou nesta quarta-feira (16) à defesa da prefeita de Beberibe (CE), Michele Cariello, em uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) que se tornou uma das peças da investigação da Polícia Federal contra o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP).
A renúncia foi protocolada no STF às 12h12. No documento, o advogado não informa o motivo da decisão. Diz apenas que comunicou Michele e que continuará representando a prefeita pelos próximos dez dias, caso um novo advogado não assuma antes.
O caso foi um dos episódios que motivou a operação realizada pela PF na segunda-feira (14), com autorização do ministro Flávio Dino. A investigação apura a suspeita de que Cezinha, aliado do ministro André Mendonça, usava sua proximidade com integrantes de tribunais superiores para oferecer influência sobre processos de interesse de terceiros. A defesa do deputado nega irregularidades.
No caso de Michele, a ligação encontrada pela PF é a seguinte: Daniel era o advogado da prefeita em uma ação relatada pelo ministro Kassio Nunes Marques. O escritório dele firmou um contrato relacionado a esse processo com a advogada Mariângela Fialek. O acordo previa R$ 500 mil em honorários após o julgamento.
Mariângela, por sua vez, aparece nas mensagens obtidas pela PF tratando justamente dessa ação com Cezinha. Em junho de 2025, ela perguntou ao deputado se ele havia “despachado” sobre o processo. Cezinha respondeu: “Despachei sim. Ontem”.
A PF investiga se situações como essa faziam parte de uma estrutura em que valores elevados eram negociados a pretexto de obter influência sobre decisões judiciais. Segundo os investigadores, Cezinha teria realizado contatos com ministros em processos apresentados por advogadas ligadas ao grupo.
Daniel também renunciou à representação de Michele em outros dois processos no Tribunal de Justiça do Ceará.
Em nota para a reportagem, o advogado declarou que a sua “atuação profissional se limitou ao ajuizamento da mencionada reclamação, encerrando-se com o trânsito em julgado da ação no STF”.
O que era o processo de Michele

A ação de Michele no Supremo, a Reclamação 79.545, questionava atos de uma investigação criminal conduzida pelo Ministério Público do Ceará.
A defesa alegava que diligências haviam sido realizadas quando a investigação já atingia a prefeita, mas antes de o caso ficar sob supervisão do Tribunal de Justiça do Ceará. Por ocupar o cargo de prefeita, Michele tem foro por prerrogativa de função.
Nunes Marques, relator do processo, concedeu um habeas corpus de ofício e invalidou diligências realizadas antes da supervisão judicial. A decisão foi posteriormente mantida pela Segunda Turma do STF.
É a movimentação paralela identificada pela PF em torno desse processo — o contrato envolvendo os advogados e as mensagens nas quais Cezinha afirma ter “despachado” — que levou o caso de Michele para dentro da investigação sobre a suposta comercialização de influência.
A Operação Transparência cumpriu quatro mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo na segunda-feira. Além de Cezinha, a advogada Valéria Rodrigues Linhares foi alvo das buscas. A PF apura possíveis crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.



