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segunda-feira, 13 julho, 2026
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a última pátria de um europeu

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Há escritores que escolhem um país. Há outros que são escolhidos por ele. Stefan Zweig pertence a uma terceira categoria ligeiramente diferente: a dos homens de letras que procuram numa terra distante a possibilidade de salvar uma ideia de civilização. O Brasil foi, para ele, muito mais do que um destino de exílio. Foi a última esperança de um intelectual que assistia, impotente, ao suicídio moral da Europa.

Quando Zweig desembarcou pela primeira vez no Brasil, em 1936, encontrou um país que parecia desafiar a história de caos e de destruição em que a Europa, sua pátria espiritual e intelectual, se precipitava – pela segunda vez na sua vida. O Brasil surgiu-lhe então como uma sociedade jovem, miscigenada e aberta ao futuro. Não era um paraíso; era uma promessa. Essa esperança transformou-se no livro Brasil, País do Futuro.

Muitos leram o título como um elogio ingénuo; outros acusaram-no de ignorar a pobreza e a natureza autoritária do Estado Novo de Getúlio Vargas. Supremo engano.  Zweig não era economista, nem tinha pretensões de análise social — o título é uma declaração de amor. Uma bela declaração de amor que ainda hoje, a mim que não sou brasileiro, me comove profundamente.

A sua carta de despedida permanece como um dos mais belos e impressionantes documentos da literatura do século 20. “ A cada dia aprendi a amar mais este país, e em nenhum outro lugar eu teria preferido reconstruir minha vida”. O verdadeiro exilio não existe no estrangeiro, mas quando o nosso próprio país se torna para nós estrangeiro. Quando nele já nada reconhecemos do que outrora amámos. Esse foi o drama interior de Zweig. No Brasil foi feliz, pela última vez.

Suicidou-se em Petrópolis. O homem que batizou o Brasil como “país do futuro” não encontrou forças para esperar por esse futuro. Sempre olhei para o suicídio de Zweig ( e de sua mulher Lotte ) como  um extraordinário gesto de nobreza e de coragem. Saiu de cena quando quis, sem deixar que ninguém decidisse por ele – nem Deus, nem o destino, nem os homens. Ele, só ele, decidiu. Escreveu: “ Assim, considero melhor terminar, em tempo oportuno e de cabeça erguida, uma vida na qual o trabalho intelectual sempre representou a mais pura alegria e a liberdade individual o bem mais precioso sobre a Terra ( …) Eu, demasiado impaciente, vou-me embora antes.”

Viveu toda sua vida como um homem livre – quando já não conseguia, quando as suas forças estavam “esgotadas pelos longos anos de errância”, pós fim à vida. O suicídio foi o seu derradeiro acto de liberdade. Quando a história lhe confiscou a pátria, a língua e o futuro, restou-lhe apenas uma soberania inviolável: a decisão sobre o próprio fim.

Demasiado impaciente. Demasiado impaciente, como eu gosto.





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